terça-feira, 7 de abril de 2009

todos a gênova!


Em Gênova, a diversidade humana, social, salta aos olhos no primeiro passeio da estação ao porto. Não mais aquela homogeneidade que encontro em Turim e sobretudo em Veneza, onde os estrangeiros mais visíveis, mesmo aqueles do Hemisfério Sul, são em geral oriundos das classes privilegiadas.
Aqui a chapa esquenta, como talvez em todo grande porto.
Noto a má-vontade do casal vendedor de kebab (mas eu não devia ter pedido cerveja!); a custo me comunico com o bengalês que administra o café Internet, seu italiano é pior que o meu, improvisado e tentativo.
Anotando essas coisas sou interrompido por uma menina loira de olhos azuis, magra e muito branca, que me pede esmola com a expressão constrita que lhe impõe o oficio. Deposito-lhe 20 centavos nas mãos em concha, e ela já vai longe quando me ocorre confirmar se é italiana. Comunque, já está feito o estrago em minha incipiente sociologia.

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Discreto charme do ‘français de base’. No convés de uma caravela, a turista francesa observa as instalações para prisioneiros, onde se destaca – adereço de gosto duvidoso – um esqueleto algemado, atado a um barril. E comenta: “-Naquele tempo eles sabiam fazer as coisas…”

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Turim foi palco das olimpíadas de inverno no ano passado [2006], e recebeu, segundo contam, injeções consideráveis de dinheiro público, o que explicaria o ótimo estado de conservação das praças, monumentos, de tudo o que é visível ao turista. Gênova não recebe há tempos eventos do tipo, e o dono do quiosque onde parei para uma spina reclamava que, nos últimos anos, a cidade não recebeu nem mesmo inverno digno do nome.

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Gênova respira política, ou em todo caso as tensões políticas saltam aos olhos (e ouvidos) do visitante. Cartazes sobrepostos nos muros mobilizam organizações proletárias e outros agrupamentos de resistência. Uma militante predica a dois africanos sobre o direito ao aborto e outros temas relativos à defesa da mulher. Ao que um deles reclama: “-Só da mulher!?”
As reivindicações não são, no entanto, unânimes. Uma pichação num muro próximo à estação Príncipe diz apenas: Sex.

É fácil sentir por que foi aqui, e não alhures, que se deu o primeiro assassinato de um militante anti-capitalismo monopolista (vá lá o pleonasmo…).

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Descendo uma escadaria suja que une a parte alta da cidade à área portuária, e vendo ao fundo o mar, os barcos atracados, penso em Salvador da Bahia. Subindo uma ruela próxima à estação ferroviária, tenho a confirmação: a Baixa do Sapateiro!

Várias lojas de produtos chineses, pequenos cafés que exalam salsa. Uma loja estreita e comprida oferece ligações telefônicas para: Honduras, Samoa, Índia, Madagascar, Senegal, Indonésia, Filipinas, Ucrânia, Equador, Peru, Albânia, Camarões, Bolívia, Sri Lanka, Marrocos, Nigéria, Romênia e Tunísia. A preços competitivos.

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Concisão, sobriedade, informação relevante no jornalismo italiano: um editorial do Sicília Libertaria, publicação anarquista, sobre os ganhos espantosos da Igreja Católica Romana S/A com o galardão da isenção fiscal.

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No aquário de Gênova: como é possível aprender balé sem jamais ter visto uma foca nadando?

O caminho que conduz os visitantes de maravilha em maravilha passa obrigatoriamente por uma loja recheada de souvenires, e logo outra. Aperfeiçoamento ainda inédito em museus de arte, tanto quanto eu saiba.

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Roteiro para um pesadelo: cidadãos de países amazônicos e da ilha de Madagascar são aprisionados e torturados por ecologistas europeus enfurecidos, aos gritos de “Assassinos da biodiversidade!” e “Basta de maus-tratos aos animais!!”, enquanto uma turista francesa sessentona se masturba e atinge o orgasmo.

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