domingo, 11 de julho de 2010

Ocaso Bruno: um país no espelho (parte II)


Deslizes à parte, a crônica tem dito e continuará a dizer, possivelmente com carradas de razão, que a trama macabra reflete uma crise de valores: assim, o encontro de trágico desenlace entre o valentão novo-rico e a maria-chuteira, tendo como coadjuvantes uma esposa possessiva e um punhado de desqualificados dispostos a matar por dois dinheiros, daria a ver o espírito de um tempo no qual (tanto mais nesse vazio de quase tudo que é, no geral, a cultura brasileira massificada) o ser humano se coisifica, torna-se um bem descartável, e nessa coisificação nossa esmaecem – desmancham no ar, diria Marx – valores de importância capital, como o respeito à vida, a compaixão, a solidariedade etc. Uma comparação, na frieza dos números, entre a bancarrota financeira que se projeta para o ex-atleta, em face da tragédia, e a despesa que lhe poderia advir de um hipotético acordo com a mãe da criança, dá cores de absurdo ao enredo, esse enredo em que o dinheiro seria o Astro-Rei, e somos afinal levados a indagar, como a policial grávida do filme Fargo, pelo sentido dessa merda toda.

Nessa linha da crise de valores, aponta-se agora a coincidência, nas biografias da morta e do algoz (para além da sinistra complementaridade entre seus tipos psicológicos), residente no fato de ambos serem fruto de
famílias disfuncionais. Verdade que há considerável vagueza em relação ao que seria uma família ‘funcional’, mas é provável que um círculo onde um em cada dois tem passagem pela polícia, com implicação em crimes como estupro e tentativa de homicídio, forneça pouco esteio para uma existência socialmente aceita. Resta saber, de todo modo, o que a sapiência científica de fato explica.

Mais que a escassez de valores, chamam-me a atenção precisamente os valores que afloram, não exatamente na trama, mas na sua repercussão. A atuação de Eliza como profissional do sexo (fato cuja ocultação, no início da divulgação do caso, terá facilitado a ampla identificação com a vítima: ela era ‘a jovem’, ‘a estudante’) divide as arquibancadas. Há aqueles, e também aquelas (não esqueçamos que no Brasil é comum as mulheres ecoarem os conceitos machistas mais primitivos) que condenam inapelavelmente a prostituta e, discretamente ou nem tanto, opinam que ela teve o que mereceu, de modo que os rapazes de Minas fizeram um bom trabalho. Diga-se de passagem que o encantador paraíso mineiro – sede do entendimento, do acordo e da malícia, fonte da nossa melhor poesia – já encabeçou as macabras estatísticas de assassinatos de mulheres por seus companheiros. A maior parte do público, contudo, parece abraçar, hesitante, a proposição “ela era uma vagabunda,
mas isso não justifica o que fizeram, né...” É o que se ouve nas esquinas, nas barbearias, nas aglomerações em frente às bancas de jornais, nos papos entre colegas de trabalho. Formulação curiosa, que chama a atenção por dar voz àquilo que nega, ou seja: justamente porque pondera não ser a prostituição razão suficiente para uma condenação à morte, reconhece como concebível uma tal condenação (ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, já diziam da Geni). Seguindo a mesma lógica, temos o sujeito que “é preto, mas é honesto”, e aquele que “é pobre, mas é limpinho”...

A brutalização de Eliza Samudio, em suma, é um crime singular porque nos oferece, aos brasileiros, um espelho. O país cresce, hoje, a olhos vistos, acumula feitos no combate à pobreza, e no plano material, indicam os estudiosos, descortina-se à nossa frente um período de prosperidade como
nunca visto na História desta República. É no plano imaterial, onde se acha uma coisa intangível e no entanto onipresente como os valores, que pairam as incertezas mais desconcertantes.

Em que Brasil crescerá o filho da puta?


(Ilustrações: Lupin)

2 comentários:

  1. sim, crise de valores: quanto toda a família de bruno, o huno (inclusa tioda a cesta de ancestrais) havia recebido em valores atualizados? sim, menos que os valores mensais do huno (atilado, quem sabe também em mutilar). quando interpelado sobre os valores, o guloso goleiro apelava: - tô pagando e quanto mais pago, mais pego (com muita gala, muita galinha, muita girl, muito grelo). o catador (eventual decapitador) não merecia um terço da minha torcida. solução? 1) soluçar; 2) (para os que se excitam com o caso) mais polução; 3) proteger as mulheres com mais "teje preso"; 4) proteger os machos (e todo mundo) do machismo (cadê política pública para os homens, pô?).

    ass.: mano well, profundo como um poço não
    (c)artesiano.

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  2. no meio do valor tinha um óvulo - e talvez uma vala no sítio do Bola, serventia do bom boleiro. só não se sabe do corpo, à exceção dos carpos, supostamente atirados à voragem dos weillers. o problema é, sim, o imaterial, imantado e imitado por todos: partidos, pessoas (peçonhas?), poderes (impudicos) etc.

    ass.: fuçador de fucks disfuncionais.

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