segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Olhai por nós - parte II


F. está aterrorizado, e precisa agir. Quer encontrar a professora de História, explicar-se e pedir perdão. Quer fazê-la ver que ele não é mais aquele jovem inconsequente, e sim um homem maduro, ciente de seus deveres, bom pai de família, que se comove com o sofrimento alheio e se arrepende do mal que causou. Pode inclusive ajudá-la financeiramente, como forma de compensação. Viaja ao Rio atrás de seus rastos, imaginando poder encontrá-la viva. Localiza-lhe a filha, com quem chega a trocar algumas palavras, sem se identificar. Procura generais reformados, inquire-os sobre o paradeiro da infeliz: tudo leva a crer que ela, como seria de esperar, está de fato morta há muitos anos, havendo seus restos virado repasto da fauna marinha.
De volta à capital, F. tem dificuldade em se concentrar no trabalho e aparentar normalidade aos olhos da família. Esquece-se de coisas importantes, atrapalha-se com tarefas cotidianas, demonstra ansiedade: todos notam que está diferente, esquisito. Sem sucesso nas tentativas de fazê-lo se abrir, a juíza insinua que ele deveria buscar o auxílio de um psiquiatra. Ele, porém, resiste à ideia de se confidenciar com alguém da área médica, sempre temendo a delação. E sente, por meio de pequenos sinais misteriosos (vozes, vultos, objetos que somem e reaparecem), que há uma presença estranha, sobrenatural em sua vida: os aflitos do DOI-CODI, a professora à frente deles.
Pressionado pelo desespero, vendo-se sem saída, F. deixa de lado o racionalismo, que não lhe traz sossego, e procura uma vidente de quem ouvira falar. A mulher lê sua sorte numa borra de café, diagnostica que ele vive um momento de retorno do passado, escreve num guardanapo e entrega-lhe um aforismo de Heráclito de Éfeso, sobre a necessidade de “se livrar dos mortos”. Por vias tortuosas, F. chega, em seguida, a um médium que atende numa espécie de choupana, em Águas Lindas de Goiás (nome que sempre lhe pareceu grotescamente irônico). Mestre Raimundo, como é chamado aquele mulato alto, de traços rudes, promete-lhe entrar em contato com a “entidade” que o assombra. Ao fim de um ritual que, aos olhos de F., combina charlatanismo descarado com fenômenos verdadeiramente inquietantes, o Mestre lhe fala, com expressão enigmática e voz feminina: “Você não dorme enquanto eu não dormir”.
F. volta para casa, deita-se ao lado da esposa que ressona e, de fato, não consegue conciliar o sono até o raiar do dia, quando enfim cochila, não muito antes de o despertador arrancá-lo da cama para mais um dia de trabalho. A insônia se repete à noite. No noticiário, F. vê que o projeto da Comissão da Verdade ainda se arrasta, atacado por setores conservadores – sobretudo militares da reserva – e visto com desconfiança pela grande imprensa. O presidente da República defende a instalação da Comissão, a necessidade de investigar o paradeiro das vítimas da ditadura, porém assegura que em seu governo “não há lugar para revanchismo”. Isso, porém, não tranquiliza F., e na realidade tampouco aumenta sua aflição: desde o início da insônia (ele dorme cada vez menos, até passar a atravessar todas as noites e dias em vigília) o cirurgião se vê tomado de uma modorra irresistível, o raciocínio torna-se lento e decresce sua vontade de interagir com o mundo.
O que segue é o declínio acelerado da vida de F.: a saúde o abandona progressivamente; o casamento não sobrevive; os filhos se distanciam, horrorizados com sua situação e comprometidos com a própria felicidade; as investigações dos neurologistas sobre sua patologia se revelam infrutíferas e ele, mais e mais debilitado física e psicologicamente pela falta de sono, é afastado do trabalho e afinal aposentado por invalidez. Passa os últimos dias num sala-e-quarto pouco mobiliado, prostrado numa cama da qual nunca se levanta, assistido por enfermeiros que se revezam por turnos.
Numa noite em que se acha sozinho, diante de uma TV a que assiste quase sem decifrar o que é exibido, F. percebe a luz do banheiro acesa. Os sons provindos de lá, e uma sombra em movimento projetada na parede, certificam-lhe de que há alguém ali dentro. Ele nada faz, pois nada pode fazer. Sequer chega a se inquietar, realmente. Afinal, sai do banheiro e adentra a suíte uma mulher, vestida de camisola e enxugando o cabelo com movimentos agitados. O doutor a reconhece sem dificuldade: é a professora de História, conservada em plena juventude, apesar dos anos passados. Ela exala um perfume agradável, de banho. Apanha o controle e desliga a TV, dizendo: “-Já chega de TV, né...”. Então se senta à beira da cama e programa o despertador. Em seguida se deita sob as cobertas, abraça-o e beija-o no rosto, dizendo docemente: “-Boa noite, querido...” Apreciando, com o que lhe resta de sensibilidade, aquele aconchego, F. fica olhando para o teto, inerte, por alguns minutos, até adormecer para sempre. 

(Ilustração: Lupin)

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