sábado, 22 de dezembro de 2012

Brasil nunca existiu


A tragédia ocorreu na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro.
Tudo começou quando dois policiais militares resolveram, antes de parar para o almoço, circular pelo pilotis de um velho conjunto habitacional aparentemente abandonado (mas não desabitado), e nessa pescaria flagraram dois rapazes vendendo trouxinhas de maconha. Não houve argumentar: um deles garantiu ser menor de idade, mas, não tendo como comprová-lo, e exibindo uma barba por fazer que parecia desmenti-lo, seguiu com o cúmplice para a viatura policial. 
(Justiça seja feita: os homens da lei, diligentes na manutenção da ordem, fizeram uso da força de modo limitado, naquele caso, privando-se dos cascudos habituais.)
A caminho do distrito, na altura de Irajá, avistaram uma pequena maravilha: um Fiat Uno, branco, tão recheado de computadores e outros equipamentos de informática que tinha o banco traseiro rebaixado, para acomodá-los. Não hesitaram, nossos heróis, em estacionar ali mesmo, no meio da pista, para abordar, com grandes esperanças, os dois sujeitos que levavam o veículo suspeito. Ainda verificavam a documentação do condutor quando se deu o inesperado. Um caminhão Mercedez-Benz, circulando em alta velocidade (embora carregado de carne de frango), perdeu o freio e chocou-se violentamente contra a traseira da viatura. Com o choque, os dois soldados foram lançados para a outra pista, e logo colhidos por um ônibus clandestino.
A desgraça levou quatro almas para o céu. Se é que foi esse o seu destino.
Na delegacia, um dos sobreviventes do desastre, que chamaremos de Jorge, parecia ainda não acreditar no ocorrido. Talvez tampouco acreditasse que ainda pudesse estar vivo. Explicou que montara um pequeno negócio de importação com o primo de sua esposa, o qual tinha um cunhado que comprava mercadorias em Ciudad del Este e as remetia, por vias alternativas, através do Paraná. Famílias empreendedoras. Ao seu lado, o citado primo dormitava, dando seguimento ao que fazia no momento da infeliz abordagem. Admitiu que não pregara o olho na noite passada, e afinal confessou o seu vício: católico praticante, costumava varar as madrugadas assistindo aos programas televisivos da Canção Nova. Embora mulher e filha se queixassem do excesso, era algo que ele simplesmente não podia controlar. Sob o olhar incrédulo dos investigadores, regressou afinal à vigilia e, com voz afinada, entoou: “Hoje te trago um recado / Daquele que um dia passou pela dor / Hoje te trago a esperança / Daquele que a morte em vida mudou”.
Nada daquilo pareceu fazer algum sentido.

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