sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Apagou?



Uma reflexão sobre o tema. Estamos às portas de uma crise de abastecimento, de consequências lamentáveis para um país que precisa crescer de modo sócio-ambientalmente equilibrado. Entre as causas dessa crise que se avizinha se acham a impossibilidade de construirmos usinas nucleares (em que pese possuirmos valiosas reservas de urânio), e a impossibilidade de construirmos hidrelétricas (em que pesem os nossos invejáveis recursos hídricos). Reflexo disso é que Angra III leva 35 anos de atraso, e o projeto de Belo Monte igualmente se arrasta por décadas (as kafkianas dificuldades enfrentadas pela usina paraense irão certamente inibir a implementação de outras hidrelétricas na região amazônica). Ora, esses atrasos e essas dificuldades são apaixonadamente aplaudidos por boa parte da população mais educada e bem nutrida do país, justamente a parcela que mais consome energia elétrica e usufrui das benesses do desenvolvimento econômico. É uma gente que se comove com o mito arcaico da natureza "pura", intocada, embora se beneficie à larga da mineração, da exploração do petróleo, do produto das térmicas a gás, do consumo desenfreado. Caminhonetes 4x4 movidas a diesel circulam por nossas cidades levando, em regra, apenas um ou dois passageiros e estampando belos adesivos de apoio a "causas ambientais", ou de amor genérico à "natureza". Do outro lado da moeda, isto é, em contraste com os que consomem muito, estão os milhões de brasileiros que mal consomem, aqueles só agora começam a aceder a confortos típicos da segunda metade do século passado, como a geladeira e o aparelho de TV. 

A crise energética tem uma virtude que havemos de aproveitar. Ela traz um choque de realidade que deve nos obrigar a refletir sobre o nosso modelo de desenvolvimento e os valores em que ele se assenta. Ora, se não podemos ter a desfaçatez de tentar dissuadir o agricultor do semi-árido nordestino de aumentar o seu consumo de energia elétrica (de zero para alguma coisa), tampouco podemos deixar de advertir a classe dominante de que seu padrão de consumo - entre compulsivo e alucinado - é insustentável sob qualquer ponto de vista. Nesse contexto, o individualismo é posto em xeque, e assoma a noção de coletividade. A questão é saber se uma sociedade racista e escravocrata, que sempre abraçou o lema "farinha pouca, meu pirão primeiro", e onde até os mais educados exibem aversão ao conhecimento, estará disposta a realizar a primeira revolução voluntária da história, em que o topo da pirâmide altera radicalmente seu padrão de consumo (passando a reduzir, re-utilizar e reciclar) para que os outros 4/5  possam incrementar o seu. E, além disso, a produção industrial possa crescer de modo a gerar empregos, beneficiando-se de uma matriz energética diversificada e integrada - orientada por uma racionalidade que se afaste tanto de um desenvolvimentismo irresponsável e autoritário quanto de um obscurantismo xiita.

A resposta parece ser "não". E então, que fazer?

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