sábado, 13 de abril de 2013

Sobre uma polenta na TV




Se vivêssemos numa cultura em que fosse difundido o respeito ao próximo, o humor tolo e grosseiro do Pânico na TV poderia, na minha opinião, ter um caráter transgressor - e, desse ponto de vista, talvez até interessante (afinal, o contraste é uma bela arma do humor). Mas não é esse o caso. Aqui, na terra do 'farinha pouca, meu pirão primeiro', onde pouco se diz 'por favor', 'obrigado', menos ainda 'desculpe', e os espaços de uso coletivo costumam ser utilizados do jeito que a gente sabe, o que os caras fazem parece apenas uma caricatura do nosso comportamento cotidiano. Uma caricatura tão sutil, isto é, tão próxima do original, que nem passa como tal. Da mesma forma, a contra-intimidação de Gerald Thomas, enfiando a mão por baixo do vestido da menina, longe de transgressora, é apenas uma versão - talvez mais ousada, mas não necessariamente - do comportamento usual de muitos homens na balada. E ilustra, queira ele ou não, a tradicionalíssima noção de que 'se ela tá vestida assim, é porque tá querendo...'. Ou seja, aqui onde a regra é a reivindicação cotidiana do direito ao abuso, o encontro do Pânico com Thomas é simplesmente um espetáculo tedioso, com sabor de dèjá vu.

2 comentários:

  1. Isso mesmo que acho, Pedro. Ótimo comentário. Que bom ver isso em blog de homem. Boa a reflexão também sobre a questão do humor, achei. Um abraço!

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  2. Obrigado, Renata. Acho que tiramos impressões semelhantes do episódio.

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