segunda-feira, 20 de julho de 2015

Sobre o nojinho da política ou Não basta odiar o Cunha ou Coisas que aprendi quando um taxista me deu uma volta após deitar falação sobre a corrupção nas obras da Copa



Papo que me irrita e entedia: a fastidiosa ladaínha condenatória sobre “os políticos”, “a política”, com as variações que tratam a cidade de Brasília, as edificações do Congresso Nacional, como o Castelo de Drácula, na Transilvânia. Pueril como o medo de vampiro, essa idealização negativa, que torna o símbolo “política” uma espécie de espelho invertido para o Narciso, se me afigura um rosário de engodos. 

Senão, vejamos. 

Em primeiro lugar, ela põe no mesmo balaio pessoas e práticas muito, até radicalmente distintas: há pouquíssima semelhança entre, digamos, um Waldir Maranhão e uma Maria do Rosário (adivinhe quem ganha com a nivelação por baixo). Em segundo, ela parte da suposição de que o chamado “meio político” seja uma absoluta anormalidade, um chorume de vícios contrastante com uma sociedade pautada, rigorosamente, pelas mais altas virtudes. Algo como um chifre de rinoceronte despontando na venta de um tubarão-martelo. Ora, distorções do nosso sistema político à parte, sabemos que não é bem assim, mesmo porque não se conhece deputado ou prefeito eleito sem o apoio de parte do eleitorado (ou seja, sufrágio popular) – e nenhum deles, tanto quanto se saiba, veio de Marte. É curioso, a propósito, o contraste entre o achincalhe do “mundo político” e a louvação ao “mundo empresarial” (veja-se a pletora de lançamentos sobre sucesso empresarial em destaque nas livrarias, em contraste com as capas dos semanários...), tendo em vista que essa distinção contém boa dose de arbítrio, já que muitos parlamentares e ministros ou bem são financiados por empresas, ou bem são empresários eles mesmos.

O terceiro engodo é a noção que o falante, o eu-lírico, esse que tem nojinho da política e dos agentes aí metidos, seja um mero espectador, sem qualquer responsabilidade pelo que acontece ou deixa de acontecer no “mundo da política”. Ora, um aspecto interessantíssimo da política é o fato de ela, a rigor, não admitir exterioridade. Ou seja, na medida em que vivemos na pólis, somos, todos e cada um de nós, políticos. Daí contribuirmos para a conformação do chamado “cenário político” com nossas ações e omissões, nossos acertos e nossas mancadas. Coisa muito bem explicada por Bertold Brecht no celebérrimo poema-manifesto “O analfabeto político.”

Isso dito, temos um problema: nosso sistema político está, de fato, apodrecido (sua reforma não foi feita, nem parece que será, pois as mudanças teriam que ser votadas e aprovadas por muitos que se beneficiam da continuidade). Os partidos, embora fundamentais, são quase todos, hoje, umas massas amorfas que, na sua forma mais visível, mais parecem cartórios de registro de candidaturas. Natural que estejam atraindo pouca gente, sobretudo pouca gente disposta e capaz de representar avanço. Por outro lado, a militância de sofá, centrada no Twitter e Facebook, embora seja uma alternativa bem-vinda e bastante cômoda, tem efeito limitado, insuficiente, às vezes nulo.

Diante disso, como diria Lênin: que fazer?

Para começo de conversa, abandonar, tanto quanto possível, as idealizações (sempre enganosas), o purismo, a nostalgia de uma época em que o poder político emanava da figura mítica de um soberano eivado de direito divino. Para mal, mas decerto também para bem, política é um assunto humano, mano.


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