segunda-feira, 18 de maio de 2009

notas sobre a Palestina ocupada

I. A Palestina configura-se, hoje, como o maior, mais populoso e mais longevo campo de concentração de que se tem notícia. Veja-se, como exemplo, o milhão e meio de pessoas confinadas e aglomeradas na Faixa de Gaza, em condições de vida insuportáveis;

II. Essa ocorrência singular tem origem em condições históricas que dizem respeito, fundamentalmente, ao sentimento de culpa do mundo ocidental – em especial, as potências européias dos séculos XIX-XX – com relação ao holocausto nazista, e aos interesses geopolíticos (na região e fora dela) dos EUA, a maior potência bélica que o mundo já conheceu, assentada em complexo militar-industrial sem precedentes. Ilustre-se essa afirmativa com uma comparação entre os gastos militares dos EUA e aqueles dos 4 ou 5 países que os seguem na lista;

III. O quadro básico de condicionantes completa-se com a subserviência do conjunto dos Estados árabes e o grau de corrupção de numerosas lideranças palestinas;

IV. Nesse cenário, o território palestino constitui laboratório de testes de práticas repressivas inigualável em vista da duração, diversidade e sofisticação das experiências ali empreendidas, sob o jugo da Ocupação israelense, apoiada pela omissão ou conivência da comunidade internacional. Exemplifique-se o caráter conspícuo desse aparato repressivo com a imagem de um drone (veículo aéreo não-tripulado) israelense de última geração lançando um míssil sobre civis palestinos reunidos em uma mesquita;

V. Os Estados nacionais, por sua própria natureza, necessitam deter o monopólio da violência em seus territórios, assegurando a dominação de classe, e esse monopólio se torna crescentemente perturbado, tendo em vista que o desenvolvimento capitalista amplia e potencializa as áreas conflagradas em cada território nacional;

VI. Como exemplo de Estado que necessita lidar com vastos contingentes populacionais indesejados, e com a ameaça real ou imaginária representada por agrupamentos armados gestados no seio dessas comunidades, Israel – por razões anteriormente delineadas – aparece à frente dos demais, ao reunir tradição e vanguarda na elaboração e implementação de impressionante gama de práticas opressivas;

VII. O catálogo inclui medidas efetivas de destruição simbólica (ocupação de sítios religiosos, destruição de ícones culturais, cerco a escolas e universidades, assédio moral) , material (devastação de casas e meios de subsistência, saque a recursos naturais, inviabilização da produção) e física (agressões, torturas e assassinatos) do ocupado;

VIII. Dentre os Estados da periferia, o Brasil é dos que vivem de modo mais agudo as pressões centrífugas de seu quadro social: sociedade plasmada no sistema colonial escravista (cujo legado herdou sem ruptura), com níveis espetaculares de concentração de renda, o Brasil se organiza politico-economicamente em torno do desafio de atender aos interesses do estreito vértice de sua pirâmide social, encimado por representantes do capital internacional, sem perder o controle da base, extensa e super-populosa. Em face desse desafio, o sempiterno assédio ideológico empreendido pelo aparato comunicativo da grande imprensa, embora de fundamental importância e em constante evolução, revela-se insuficiente, e necessita fazer-se acompanhar de um poder dissuasório igualmente exemplar, com vistas à manutenção da 'normalidade;

IX. Ao quadro de insegurança pública que se evidencia nos grandes centros urbanos, somem-se preocupações defensivas associadas à vastidão da área costeira, das fronteiras internacionais e do espaço aéreo correspondentes ao imenso território, bem como a detenção, pelo país, de recursos naturais de importância estratégica em volume expressivo;

X. Desta forma, torna-se compreensível a dupla política do país em relação à Ocupação da Palestina e à catástrofe humanitária dela resultante: de um lado, defendendo a paz, o diálogo, os direitos humanos, o primado da lei; de outro, associando-se aos principais fabricantes israelenses de material bélico, que sustentam e se beneficiam diretamente do ´campo de provas` em que se viu transformada a Palestina;

XI. Ilustre-se o exposto com a imagem de aviões de combate brasileiros equipados com tecnologia de ponta israelense, e policiais adentrando favelas, no Rio de Janeiro, em veículos blindados e coletes igualmente comprados de Israel;

XII. Para concluir, lembremos Edward Said: "Para o bem ou para o mal, a Palestina não é uma causa apenas árabe ou islâmica – ela é importante para muitos mundos diferentes, contraditórios, mas que se entrecruzam".

Um comentário:

  1. Não sei qual é a pergunta que estou me fazendo, sei que respondo "sei não".

    Honestamente, Pedro, sei não.

    gd abraço,

    Manoel.

    ResponderExcluir