sábado, 7 de maio de 2011

A glória de Osama, o fim de Obama (Ou: a batalha de Abbottabad e seus despojos)



Conhecido por sua oposição a Roma, o rei Pirro, comandante dos Épiros e da Macedônia, enfrentou, em 279 a.C., na região do Ásculo (hoje Ascoli Satriano, na Itália), as legiões comandadas por Publius Decius. Ao cabo de dois dias de batalha encarniçada, as forças de Pirro lograram obrigar os romanos – subtraídos em 6000 homens – a bater em retirada. No entanto, a vitória lhes custaria, aos epirotas, nada menos que 3500 baixas, dentre elas muitos de seus oficiais. O doloroso feito teria levado o rei Pirro a pronunciar uma frase que atravessou os séculos: “Mais uma vitória destas e estou perdido!”

A passagem célebre me veio à lembrança no último dia 5 de maio, quando os EUA, comandados por Barack Obama, anunciaram ao mundo o assassinato de Osama Bin Laden (aliás, no dia seguinte a um ataque que teria por alvo o líder líbio Muammar Kadhafi, e que eliminou um filho e três netos seus). Diferentemente do que sugerem os porta-vozes da White House, não terá sido esta uma vitória como a de Pirro, a cobrar um preço alto demais? Ou ainda, não terá Barack Hussein Obama, 44º presidente dos EUA, com esse feito, concluído um processo de desconstrução de si mesmo iniciado pouco após sua momentosa investidura no cargo, que causou comoção nos quatro cantos do globo? Assim me parece. Senão, vejamos.

Se o fracasso do também democrata Jimmy Carter na tomada (bem mais arriscada, é verdade) da embaixada dos EUA em Teerã, em 1978, fez a glória do aiatolá Khomeini, o êxito de Obama em Abbottabad glorificou, e eternizou, o facínora Osama Bin Laden – como, aliás, já se começa a observar (“O fim de Bin Laden muito provavelmente não vai diminuir o carisma do homem ou da ideologia que ele representava”, opina o professor Nyan Chanda, de Yale. “Ele pode estar morto, mas, de certa forma, ele venceu”, diz o cineasta Michael Moore). Afinal, que destino poderia desejar ou esperar o xeque saudita? Em face das atrocidades que perpetrou (ou se gabava de haver perpetrado), e das inimizades que, por conseguinte, angariou, a carreira de Chefe de Estado estava certamente vedada ao seu ingresso. Pelos mesmos motivos, uma pós-graduação na prestigiosa London School of Economics, ao lado de um dos filhos do coronel Kadhafi, seria igualmente improvável. As mudanças ocorridas nos últimos anos no cenário do terrorismo não-estatal e na Al Qaeda em particular – com a ampliação e pulverização das redes, à semelhança do sistema de franchising, a ascensão de novas lideranças etc. – pareciam trazer sua aposentadoria para um horizonte próximo. Mais que isso, a recente ‘primavera’ do Oriente Médio (de floração modesta, talvez furtiva), avessa ou em todo caso distanciada do fundamentalismo religioso, acenava com um cenário em que o seu discurso, suas teses (a restauração do califado muçulmano, por exemplo) e seu método (o terror) tenderiam a encontrar menos eco no coração da juventude árabe ou islâmica – e os seus vídeos, menor audiência. Assim, uma morte por pneumonia, febre tifóide ou outra causa natural, ou mesmo por assassinato pela mão de algum inimigo menor, um correligionário descontente, provavelmente colheria um Bin Laden, senão esquecido, ao menos relegado a um papel secundário, já no seio de sua organização de futuro incerto.

Mas não: Bin Laden morreu por obra de seu maior algoz, do seu Golias, e a sua execução, em circunstâncias ainda um tanto nebulosas, reafirma alguns elementos básicos de suas incansáveis invectivas anti-Ocidente, anti-EUA em particular. Prepotência, arrogância, brutalidade, menosprezo pela lei (a ONU agora se vê no constrangedor papel de ‘pedir informações’ a respeito da empreitada), tortura de preso político (ou "técnicas aprimoradas de interrogatório", na criativa formulação de Mr. Panetta, diretor da CIA), desrespeito a país de maioria islâmica, bem como aos ritos dessa religião... tudo isso foi ingrediente do desembarque dos Seals, unidade criada após o fiasco em Teerã, na misteriosa ‘mansão’ de Abbottabad. Tudo isso, portanto, ajudará a manter viva a palavra do xeque em corações e mentes de homens e mulheres oprimidos por governos ineptos, corruptos, fiéis a Washington e à sua sede de petróleo. Não sem razão, entenderão que o mártir se foi pela mão dos ‘novos cruzados’. Como sintetiza um seu aliado, o xeque sírio Omar Bakri Muhammad: “Osama sempre buscou o martírio. Ele sempre quis morrer como um mártir. Bin Laden teve o que desejava.”

A sequência de desmentidos das autoridades norte-americanas, apresentando versões distintas, desencontradas para o justiçamento (Osama estava/não estava desarmado; estava desarmado mas ainda assim resistiu; usou/não usou mulheres como escudo etc.), numa espécie de enredo à Mel Brooks, pôs a nu um império envergonhado, hesitante, receoso de exibir todo o esplendor de sua prepotência – algo só comparável, pelo inusitado, ao que testemunhamos quando as tropas de Bush Jr. invadiram o Afeganistão despejando bombas e... mantimentos. Não deixa de ser irônico, nesse contexto, que a nota expedida pela chancelaria venezuelana prime, de modo mais conspícuo, pela defesa de valores caros ao ‘Ocidente’, à humanidade em geral: respeito à dignidade e à soberania dos povos; recusa ao combate ao terror pelo terror; condenação da ilegalidade; e ainda a exigência de que se retirem as tropas estadunidenses do Afeganistão, aonde teriam ido – não foi isso? – à caça de Bin Laden. O Itamaraty, decerto pouco à vontade, guardou silêncio (ou preferiu se exprimir de modo sub-reptício, reproduzindo em seu site um belo artigo de José Miguel Wisnik).

Republicano à outrance, Bush Jr., todos vimos, levou o excepcionalismo norte-americano às raias do gangsterismo vulgar, perfazendo uma administração tão desastrosa, sobretudo no plano internacional – com seu unilateralismo isolacionista, sua estrambótica ‘guerra ao terror’ – que desagradou até mesmo à direita tupiniquim, ou parte dela. Estavam dadas, assim, as condições para o fascínio de dimensões globais com a candidatura e a vitória de Obama sobre o escolhido de Bush. Antes de mais, Obama representava concretamente a ascensão do negro ao poder político dos EUA (mais de meio século após o início do movimento pelos direitos civis!), enquanto os Bush, a esse respeito, não haviam podido ir além de alçar Collin Powell e Condoleeza Ricce à chefia do Departamento de Estado. Mas Obama trazia outras vantagens evidentes em relação a seu antecessor: além do charme pessoal, da retórica admirável (contrastante com a jocosa dislexia de Bush), uma biografia e uma bagagem cultural que acenavam para um cosmopolitismo ausente no texano (cuja experiência internacional, ao assumir o governo, se resumia a pernoites no México e na Jordânia, acompanhando o pai presidente), e um nome de batismo que, se causava urticária no tea party, parecia sintetizar sua capacidade de criar pontes entre mundos, especialmente entre um Islã e um Ocidente supostamente apartados. Em tudo, Obama era um príncipe iluminista que emergia, encantador, após uma era de trevas, reacendendo a esperança. “Hope”, aliás, era uma das legendas (além de “change” e “progress”) de pôsters hoje icônicos do democrata, produzidos por Shepard Fairey sobre uma imagem da Associated Press. Eleito, Obama soube reforçar essas expectativas por meio de uma retórica adornada por elegante prosódia, seja no discurso de posse, em que matizou referências belicistas com convites ao diálogo, seja no impactante discurso proferido na Universidade do Cairo (no Egito então comandado pelo ‘exemplo de árabe moderado’ Hosni Mubarak), em que combinou citações do Alcorão com menções aos 7 milhões de muçulmanos vivendo nos EUA e frases do tipo “devemos nos focar no que nos aproxima, e não no que nos separa”. Sucesso estrondoso.

A trajetória do presidente de lá para cá, no entanto, talvez com o interstício da reforma do sistema de saúde, segue uma lógica de desconstrução desse Obama emerso das urnas (desconstrução acelerada, é possível, após a perda de maioria na Câmara, e enfraquecimento no Senado): o generoso pacote de resgate financeiro das instituições que levaram a economia à bancarrota, arrastando mercados no mundo todo; a manutenção do abono tributário às grandes fortunas; o distanciamento em relação a sindicatos e movimentos sociais que ajudaram a elegê-lo (“É como se Obama estivesse fazendo campanha contra si mesmo”, resumiu o economista Michael Hudson no artigo “A rendição de Obama aos super-ricos”); o recuo em relação à extinção do campo de concentração de Guantánamo e, last but no least, a manutenção das ocupações do Iraque e do Afeganistão, o bombardeio à Líbia e a benevolência com o governo do Bahrein, a invasão do Paquistão para a execução de Bin Laden, que reforça a insegurança e a incerteza no cenário global. Diferenças à parte, fica hoje claro que Bush Jr. e Obama se igualam em pontos fundamentais, inclusive a obediência, com maior ou menor entusiasmo, à estrutura que o presidente Eisenhower batizou de complexo-industrial-militar (aliás, que mandatário romperá com ela?).

Entre o Obama original e este que aí está, o lema “Yes, we can” (“sim, nós podemos”) parece haver sofrido uma drástica metamorfose: antes, simbolizava a ascensão do ‘povo’, das massas, a auto-afirmação de uma população (estadunidense, global) excluída ou marginalizada no jogo do poder. A negritude do candidato e o recurso às redes sociais para angariar votos e fundos (embora a sua fosse uma campanha milionária, massivamente apoiada por corporações gigantescas) reforçariam essa ideia. Hoje, “Yes, we can” se mostra tradução da prepotência tradicional, apoiada no destino-manifesto: sim, nós podemos invadir, torturar, executar extra-judicialmente quem bem entendermos, se assim quisermos fazer. Nada nos impedirá. We won’t change.

Pesquisas já refletem o crescimento, pós-assassinato, da popularidade do ex-Obama ('o homem que matou o facínora`), evidente favorito às eleições do próximo ano, inclusive devido à ausência de adversários expressivos, no seu partido ou fora dele. Na internet circulam charges em que Obama diz a Donald Trump que demorou para responder sobre sua certidão de nascimento porque estava ocupado matando Bin Laden. O ex-iluminista agora exorta, em discurso para seus militares (e para o eleitorado, por suposto): “Nós cortamos a cabeça deles!”; “Nós ainda somos a América que faz as coisas difíceis, que faz coisas grandes!” Ou seja, embora ainda não tenhamos resposta concreta para o alto desemprego, embora o ritmo de recuperação da economia ainda se mostre dolorosamente lento (muito em função dos desacertos de nossas políticas), o sangue do assassino é prova irrefutável da nossa grandeza. O Nobel da Paz agora pode encarar de frente os conservadores que o vinham acossando, impiedosos, e dizer-lhes: ‘Vocês não podem me derrotar, simplesmente porque eu sou um de vocês, partilho dos mesmos valores, aplico – com maior sucesso, diga-se de passagem – as mesmas táticas; eu sou, afinal, o seu melhor representante. Derrotar a mim é derrotar a si mesmos’.

(Dado curioso, nesses dias em que Obama afinal se veste de Superman, é a informação de que, na edição nº 900, recém-lançada, da revista Action Comics, o super-herói renuncia à cidadania estadunidense, afirmando: “Estou cansado de ver minhas ações servirem de instrumento da política dos EUA.”)

Mais inquietante, no entanto, é perceber que a quase homonímia de Osama-Obama abriga outras similitudes: ambos são líderes de organizações que utilizam o terror como instrumento político (uma à margem da lei, outra acima dela), ambos frustraram as expectativas que os alçaram ao estrelato e, juntos, chegam a uma hora decisiva, em que o primeiro conhece a morte biológica, enquanto o outro padece simbolicamente.

E sob a vigência da lei de talião, entre a jihad e a ‘guerra ao terror’, nossas vidas continuarão, tudo o indica, permeadas de som e fúria, cheias de sentidos desencontrados e analogias desconcertantes.