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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O Brasil e o anão de costas quentes

Incomodado com a decisão brasileira de chamar para consultas o embaixador em Tel Aviv, um empregado da chancelaria israelense classificou o Brasil, de modo ofensivo, como “um anão diplomático.” Trata-se, sem dúvida, de gesto ousado, e de uma ousadia algo delirante, um representante de país tão pequeno, com uma população tão pequena (Israel conta com 7.908 milhões de habitantes, quase a metade da população do estado do Rio de Janeiro), adjetivar como “anão” um país tão grande, de população tão numerosa. Claro, o Sr. Palmor não se referia a essas medidas de grandeza, mas sim a uma dimensão, senão intangível, mais difícil de medir, a da influência diplomática.

Bom, acontece que ainda aí a diferença é gritante. Com elegância, além de sublinhar que o Brasil não costuma usar termos pejorativos para se referir a nações amigas, o ministro Figueiredo informou que o Brasil é um dos 11 países que se relacionam com todos os membros da ONU. Poderia ter acrescentado que o país integra um arranjo político-diplomático (o BRICS) que congrega nada menos que 18% do PIB mundial e quase a metade da população do planeta.

O Brasil, decerto, não é uma potência global, mas a dimensão de Israel no concerto das nações tampouco impressiona. Sobrevivendo à margem de resoluções da Assembleia e do Conselho de Segurança da ONU – as quais ignora –, além de desrespeitar a Corte Internacional de Justiça, o Estado de Israel tem sido marginal em relação ao Direito Internacional, e costuma amargar isolamento político nos âmbitos multilaterais. A recente decisão do Conselho de Direitos Humanos da ONU de acatar a solicitação da Autoridade Palestina para que sejam investigados crimes contra a humanidade na Faixa de Gaza certamente não reflete o prestígio do “gigante” Israel. Apoiada por 29 dos 46 membros do Conselho, a medida foi contestada apenas pelos EUA de Barack Hussein Obama (que radicais em Tel Aviv chamam de “árabe anti-judeus”), enquanto os europeus guardaram silêncio embaraçado e embaraçoso. 

Em 2012, a Assembleia Geral da ONU, em peso (138 votos a favor), aprovou o status da Palestina como Estado observador. Abraçados a Israel, do lado derrotado, além de EUA, Canadá e República Tcheca, estiveram atores-chave da cena global como Palau, Nauru e Micronésia.

Ao afirmar que o Brasil “ignora o direito de Israel à autodefesa”, o porta-voz utilizou uma das surradas táticas retóricas sionistas (outra, igualmente bolorenta, é a tentativa de intimidar os críticos das políticas israelenses, tachando-os de “antissemitas”). Trata-se, neste caso, de contestar algo que não foi dito, de modo a ignorar o que de fato está em causa. Poderíamos chamá-la de tática da cegueira, ou cortina de fumaça. Em psicologia, talvez seja uma espécie de fuga dissociativa. Afinal, o Brasil nunca ignorou o direito de Israel se defender dos foguetes do Hamas (inclusive, em nota recente, condenou esses ataques à população israelense): o que critica veementemente é a “desproporcionalidade da resposta” – aliás, um modo suave de abordar o massacre deliberado de civis. 

Contabilidade recente da carnificina em curso registrava 757 palestinos assassinados, dos quais 571 civis (dentre eles, nada menos que 182 crianças e 95 mulheres). Do lado israelense, a incursão bélica pré-eleitoral cobrara a vida de 30 pessoas, quase todas militares. 


Ora, embora sejam conhecidas táticas perversas do Hamas que expõem a população civil (e que constituem, sem dúvida, crime de guerra), ninguém é obrigado a acreditar que esse quadro ilustre um “direito de defesa”. Crianças abatidas numa praia em Gaza, inclusive quando tentavam escapar, em desespero, não podem ser consideradas alvo militar por nenhum ser humano. E o comissário-geral da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina), Pierre Krähenbühl, tem toda a razão de indignar-se com o bombardeio terrorista a uma escola em Beit Hanoun que servia de abrigo a refugiados – e cujas coordenadas haviam sido informadas não menos que 12 vezes às autoridades de Israel, para que, em respeito à lei internacional, a instalação fosse poupada. “Esses palestinos, muitos deles mulheres e crianças, tinham chegado a esta escola em busca de refúgio, acreditando que uma instalação da ONU ofereceria um maior nível de segurança. Essa crença foi baseada no compromisso vinculativo da comunidade internacional. E também na obrigação de ambas as partes de combater sob a lei internacional e respeitar a inviolabilidade das instalações da ONU”, disse ele.

Quando o líder do Hamas, Khaled Meshaal, diz sentir “orgulho” do conflito atual, e o porta-voz da chancelaria israelense se permite tecer comparações entre o massacre e um jogo de futebol, pode-se ter uma ideia do grau de insanidade que alimenta a disputa. Nesse quadro desolador, agravado pela ausência, no cenário internacional, de estadistas dignos do nome, é de louvar o gesto da diplomacia brasileira. Ela resolveu agir, em vez de limitar-se a lançar nobres palavras ao vento.

(25/07/2014)

terça-feira, 23 de abril de 2013

milagres de pyongyang


A Coreia do Norte opera um milagre. Embora seja um país bastante fechado, quase imperscrutável, embora as agências de notícias raramente se ocupem de seus costumes e dia-a-dia (excetuando-se uma caricatura aqui, outra ali), embora a maioria dos jornalistas estrangeiros nunca ande por lá, basta um fato – no caso, a elevação da tensão na Península Coreana – trazer o país ao noticiário para pipocarem, de todos os lados, ´especialistas` cheios de certezas sobre aquela nação asiática.
Um milagre, milagre.
Por esses dias, a Globonews exibiu um Sem Fronteiras enjoativo, tamanho o contraste entre a escassez de informação relevante e a descarga de adjetivos raivosos empregados pelo editorialista para caracterizar aquele regime e o seu líder, Kim-Jong Un. Muita opinião, muita ideologia, pouca análise, pouca investigação, pouca informação: em suma, isso que nos habituamos a chamar de jornalismo (algo na linha Seleções do Reader´s Digest).
Não vi coisa melhor noutros veículos.
Ator estadunidense, Gerard Butler protagoniza um filme que acaba de estrear no Brasil, o qual, por coincidência (coincidência?), dramatiza um ataque de terroristas norte-coreanos à Casa Branca. E ele nos ensina: “(...) no filme eles estão fazendo o que sempre fazem: sendo agressivos. Não estamos dizendo que eles são necessariamente maus. Estamos falando de terroristas” (O Estado de SP, 17/04/2013). Eis uma informação, também ela, inquietante.
Pouco sabemos sobre aquele país, de quase 30 milhões de habitantes e uma História que precede a Era Cristã. É difícil, ao menos para mim, avaliar o grau de compromisso do governo norte-coreano com a paz e a segurança internacionais. Podemos, no entanto, afirmar, pois a História o registra, que aquele país jamais lançou bombas atômicas noutro país. A Coreia do Norte nunca patrocinou a deposição de chefes de Estado estrangeiros, e não se envolve em conflitos bélicos desde a sangrenta guerra fratricida de 60 anos atrás. Uma guerra manipulada, de um lado e de outro, pelas nações que naquele então dividiam entre si a posse da Terra.
Não seria razoável, Mr. Butler, supor que a tensão atual (e a “agressividade” a que o senhor se refere) tenha lastro em feridas deixadas por aquela guerra que ninguém sabe ao certo se terminou?


Nunca andei por aquelas bandas, e não sei quantos dos nossos opinionistas de plantão lá estiveram. Mas, para alívio da nossa ignorância, o contribuinte brasileiro paga um sujeito para representar nossos interesses em Pyongyang, chefiando a embaixada do Brasil. O embaixador Rodrigo Colin, portanto, colhe informações in loco, e concedeu uma ótima entrevista ao Estadão, publicada no último dia 5/04.
Foi uma oportunidade de desconstruir o estereótipo grotesco, preconceituoso, de indisfarçável tonalidade etnocêntrica, que retrata os norte-coreanos como imprevisíveis, irracionais e suicidas.
Segundo o embaixador Colin, o principal objetivo das armas nucleares norte-coreanas é garantir a dissuasão. A legislação do país estabelece que elas só podem ser utilizadas para repelir uma invasão ou retaliar um ataque perpetrado por uma potência nuclear.
Aliás, nesse ponto, é preciso que se diga que a chamada comunidade internacional impediu a Coreia do Norte de obter um reator nuclear para fins pacíficos. O país não vive às escuras, hoje, por opção deliberada de seus líderes.
Mas volto ao embaixador Roberto Colin. Ele nos diz que os norte-coreanos aprenderam com a experiência de países que não puderam se defender, como a Iugoslávia, o Iraque e a Líbia, e não querem seguir o mesmo destino. Na lógica norte-coreana, diz o embaixador, as armas nucleares são a última garantia de que não serão atacados. Ou seja, o seu único instrumento de barganha.
Foi a existência de arsenais nucleares que, na Guerra Fria, tornou inexpugável a China comunista. É a existência de acesso a arsenal atômico que garante Israel, como garante a Índia e o Paquistão. Se os arsenais nucleares norte-americanos garantem a Coreia do Sul, quem garantirá a incolumidade do Irã e da Coreia do Norte? Esses países aprenderam que o Iraque foi devastado, destruído, não porque possuísse armas atômicas, mas por não as possuir.
Segundo o nosso embaixador, “O que eles [os norte-coreanos] desejam é a normalização das relações com os EUA e o reconhecimento do status de potência nuclear, como ocorreu com a Índia e Paquistão”.
Devo dizer que não me parece incompreensível ou inusitado que um regime, simpatizemos ou não com ele, busque a sua própria sobrevivência e a inviolabilidade do seu território. Estranho seria não fazê-lo. Estranho, por exemplo, é o Brasil não considerar, de fato, estratégico dispor de um programa espacial que ajude a garantir a defesa de seu território de mais de 8 mil km².
O representante brasileiro acrescenta que os norte-coreanos têm sinalizado com a disposição de realizar mudanças, mas que isso é muito difícil no cenário atual. Cito mais uma vez o embaixador Colin: “Caso EUA e Coreia do Sul persistam em colocar a condição de que primeiro o Norte tem que se desarmar para depois haver um diálogo, creio que o impasse continuará.”
Habituamo-nos a olhar para outros povos, suas culturas e seus governantes de maneira depreciativa, caricata, reagindo, como cães de laboratório, aos estímulos que nos enviam as agências de notícias do hemisfério Norte. Será que a Coreia do Norte, com as bravatas de seu líder máximo, não poderia operar um novo milagre, aos abrir nossos olhos para essa nossa infeliz condição?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Israel, Palestina e o fim da hora contemplativa


A proximidade das eleições israelenses, em contexto no qual crescia o Likud de Benjamin Netanyahu, avançando sobre o governista Kadima (este, crispado de disputas internas, e liderado por um primeiro-ministro, Ehud Olmert, ferido por denúncias de corrupção), a lembrança ainda viva da fracassada campanha contra o Hizbollah no Líbano em 2006 e o apagar das luzes do governo Bush (trazendo incerteza para os fundamentalistas de Tel Aviv)... tudo isso cobrou um alto preço de milhares de palestinos, como o médico Izz el-Deen Abu al-Aish, que perdeu três filhas e uma sobrinha quando sua casa em Gaza foi alvejada por um tanque de Israel, no dia 16 de janeiro último – drama que a TV israelense não pôde censurar.

A carnificina, iniciada em 27 de dezembro de 2008 e encerrada oficialmente no 18 de janeiro seguinte, traduziu-se na morte de mais de 1300 palestinos (civis em sua esmagadora maioria) e pouco mais de uma dezena de israelenses, quase todos militares. Noticia-se, ainda, que resultaram feridos pelo menos cinco mil palestinos.
Face ao eloquente registro de vidas interrompidas e vidas destroçadas; de infra-estrutura arruinada; de destruição de mantimentos enviados pela ajuda humanitária; de ataques a funcionários e a instalações das Nações Unidas e da Cruz Vermelha; evidências de uso de armamentos proscritos (de fabricação estadunidense) como o fósforo branco e outras violações dos acordos de Genebra (como os ataques deliberados a civis indefesos, de que seria exemplo a matança ocorrida no bairro de Zeitun em 4 de janeiro), é difícil apontar um limite que não tenha sido transgredido pelo Estado de Israel nessa ofensiva militar genocida que a imprensa tradicional houve por bem chamar de ‘guerra’. Mesmo o imaginário limite do cinismo foi ultrapassado pela então ministra das Relações Exteriores e candidata a premiê, Tzivi Livni, que sequer esperou esfriarem os cadáveres para declarar: “Este não é mais um conflito entre palestinos e israelenses ou entre árabes e judeus, mas um conflito entre moderados e extremistas”.

Trata-se de cenário em que até os inefáveis comentaristas da reacionária grande imprensa brasileira, embora secundando, com ares doutos, que o tema consiste num ‘pântano para os neófitos’, se vêem obrigados a admitir que as costumeiras comparações entre o Estado de Israel e a Alemanha nazista adquirem inegável verossimilhança.

O que é triste, é espantoso, e é deplorável.

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