Por
vezes, objetos triviais do dia-a-dia são retirados de sua banalidade para
revelar significados múltiplos, relações diversas com aqueles que os
utilizam... e até poderes ocultos. Isso se dá, em geral, pela mão de criadores
de olhar aguçado.
Shakespeare
mostrou como um lenço – isso, um simples lenço – pode ser manipulado de modo a
alimentar o ciúme mortífero de um homem em relação à esposa. Gógol imortalizou
o apego de um funcionário medíocre ao seu velho capote (numa São Petersburgo
cujo inverno há de congelar até os espíritos). Menos célebre, o ensaísta
britânico Peter Stallybras, em “O casaco de Marx – Roupas, memórias, dor”,
explora as diversas dimensões das coisas: como utensílios, como registros de
nossa memória, como mercadorias com valor de troca. E fala, claro, da importância de um casaco na
vida e na teoria do pensador alemão. Roland Barthes dedica vários ensaios a
captar significados nas coisas – o bife, o plástico, o brinquedo –,
surpreendendo nelas verdadeiras mitologias. Nas artes plásticas, o urinol de
Duchamp, a lata de sopa de Warhol (e antes, as maçãs de Cézanne) e outras
tantas obras realizam operação semelhante, abrindo nossos olhos para a novidade
do que estamos cansados de conhecer, objetos banais aos quais não costumamos
dar grande importância.
Ultimamente,
nos porões da política brasileira, um objeto desses banais tem deixado o
anonimato e ocupado manchetes escandalosas do noticiário. Trata-se do bom e
velho guardanapo (do francês garde-nappe).
Em
ambientes simples ou informais, o guardanapo costuma ser de papel, e
descartável. Noutros, mais ajeitados, é de tecido – liso ou estampado –, e
aguarda o comensal gentilmente dobrado sobre a mesa – às vezes, até, ornando
uma taça, como enfeite. O guardanapo, que pode ser estendido sobre o colo,
enquanto comemos, ou pendurado na camisa, à guisa de babador, serve
primordialmente para evitar sujeira: ele protege nossas roupas de respingos de
molho, de pedaços de comida caídos do garfo; deve ser utilizado para limpar
dedos e lábios, após a refeição, o que é também uma forma de preservar nossos
companheiros de mesa de uma visão possivelmente incômoda. Nesse sentido, o uso
do guardanapo indica delicadeza, polidez, recato.
(Querendo,
talvez, dar-se ares distintos, o impertinente freguês de “Conversa de
botequim”, de Noel Rosa, requisita ao garçom, entre outras coisas, “um
guardanapo e um copo d’água bem gelada”.)
Eis,
porém, que o guardanapo surge ressignificado, ornando as cabeças – sim, as
cabeças – do governador do Rio de Janeiro e alguns confrades, entre políticos e
empresários, numa farra em um restaurante parisiense, até então elegante, em
2012. À volta deles, as esposas exibem, orgulhosas, as solas encarnadas de
sapatos adquiridos ao custo de vários salários mínimos, enquanto,
provavelmente, tricotam sobre as últimas e as próximas compras nas boutiques
mais exclusivas da capital francesa. Os guardanapos, voltemos, enfeitam as
cabeças das autoridades, dando um toque carnavalesco à confraternização (e me
fazendo lembrar os nerds imberbes de “A mulher nota mil” aguardando, com
sutiãs na cabeça, a deliciosa aparição de Kelly LeBrock). Aí, o guardanapo,
longe de indicar recato ou comedimento, revela o desejo de extrapolar, de
quebrar regras, como aquelas que disciplinam as relações entre o poder público
e entes privados – por exemplo, empreiteiras. Somados, os guardanapos-chapéu e
os calçados Louboutin compõem um quadro cafona e grotesco da embriaguez com o poder.
Agora
ficamos sabendo que José Maria Marin, dirigente notoriamente corrupto da
notoriamente corrupta CBF, ora presidiário na Suíça, utilizava guardanapos para
grafar as quantias que desejava ver depositadas em sua conta bancária, a
título, vamos dizer, de facilitação transacional em contratos firmados pela
Confederação. Aqui, a modéstia do meio utilizado – um reles, descartável
guardanapo – contrasta com a dimensão vultuosa das propinas. Além, claro, de revelar
um cuidado em não produzir provas contra si, digno de um profissional com
décadas de labuta no jogo sujo do poder.
Pobre
guardanapo, subvertido em sua modéstia franciscana, extraído dos ritos da
delicadeza, para servir de adorno ou suporte ao despudor de ‘otoridades’
tupiniquins em suas andanças pelo mundo, na trilha de obscuras transações!
Como
diz Arnaldo Antunes, “as coisas não têm paz”...