segunda-feira, 27 de abril de 2009

handsup




quarta-feira, 15 de abril de 2009

bitch!

carta ao the globe

"Acho que o que eles querem é o meu silêncio, mas até a minha morte isso não vai acontecer."
- Edward Said

No dia 4 de novembro último, violando um cessar-fogo, o Estado de Israel dava início a uma ofensiva militar sobre a população palestina da Faixa de Gaza, que se intensificaria na virada do ano. Ao final da carnificina, sem haver atingido seus objetivos declarados, Israel acrescentou à sua extensa lista de crimes contra a humanidade as cifras de cerca de 1500 palestinos assassinados (em sua maioria civis) e pelo menos 5000 feridos (do seu lado teria havido 13 baixas). Além disso, os feitos da Ocupação incluíram o desmantelamento da infra-estrutura de Gaza; a destruição de mantimentos enviados por diversos países (Brasil inclusive); ataques a funcionários da ONU e da Cruz Vermelha e uso de fósforo branco, entre outras violações de acordos internacionais.

Diante desse quadro aterrador, e da postura desafiadora e desrespeitosa de Israel face à comunidade internacional, traduzida no descumprimento das resoluções 181, 194, 242, 252 e 446 da ONU, ativistas israelenses como Ilan Pappé e Ury Avnery têm depositado suas esperanças numa pressão vinda do exterior, sobretudo na forma de boicotes.

No mesmo espírito, o Comitê Nacional Palestino de Boicote, Desinvestimento e Sanções publicou recentemente um apelo aos brasileiros [vejam apelo palestino neste blog] para que impedíssemos a participação, na feira bélica em curso no Riocentro (LAAD 2009), de autoridades e indústrias militares israelenses responsáveis por sucessivos massacres de civis, como aquele que atingiu uma mesquita no Norte de Gaza, em 3 de janeiro, matando 15 e ferindo 30 pessoas. Não obstante, encontram-se neste momento na Cidade Maravilhosa representantes de IMI, IWI, Rafael, Elbit Systems e das forças da Ocupação.

Nesse contexto, é estarrecedora a notícia veiculada hoje (15/04/2009) pelo Extra Online, de que a Secretaria de Segurança do Rio teria firmado acordo para a compra de viaturas e coletes da norte-americana Oshkosh Trucks e da Plasan de Israel (“fornecedora das forças armadas israelenses”), tornando-se assim cúmplice - não há como negá-lo - do terrorismo estatal.

Tem razão Marcelo Yuka: essa feira é lamentável. E torna-se ainda mais lamentável em face da atitude deplorável de nossos governantes.
Vejam (nas Vejas, não vemos):
http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=854
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/outros/2009/01/15/ult586u605.jhtm
http://www.rollingstone.com.br/edicoes/20/textos/2475/
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM945351-7823-QUAL+E+A+CHAVE+DO+CONFLITO+ENTRE+PALESTINOS+E+ISRAELENSES+,00.html
http://www.idelberavelar.com/archives/palestina_ocupada/

dos cadernos de gramsci


"Intelectual: Por intelectuais deve-se entender não só as camadas comumente referidas com esta denominação, mas em geral toda a massa social que exerce funções organizativas em sentido lato, seja no campo da produção, seja no campo da cultura, seja no campo administrativo-político. O autor diferencia intelectual , intelectual orgânico e intelectual tradicional. O intelectual, no sentido gramsciano, é todo aquele que cumpre uma função organizadora na sociedade e é elaborado por uma classe em seu desenvolvimento histórico, desde um tecnólogo ou um administrador de empresas até um dirigente sindical ou partidário. Os intelectuais tradicionais podem ser membros do clero ou academia, e podem tanto vincular-se às classes dominadas quanto às dominantes, adquirindo autonomia em relação aos interesses imediatos das classes sociais. Para Gramsci, cada grupo social fundamental, com papel decisivo na produção, engendra seus próprios intelectuais, ditos ´orgânicos` a este mesmo grupo social. Assim, a classe burguesa, ao desenvolver-se no seio do antigo regime, traz consigo não apenas o capitalista, mas também uma série de figuras intelectuais mais ou menos distantes dele: o técnico da indústria, o administrador, o economista, o advogado, o organizador das mais distintas esferas do Estado . Tais intelectuais são os responsáveis pela nova forma do Estado e da sociedade, são os ´funcionários da superestrutura`, que terminam por moldar o mundo à imagem e semelhança da classe fundamental. Hegemonia: O conceito de hegemonia no pensamento gramsciano compreende direção e domínio, isto é, conquista, através da persuasão e do consenso, não atuando apenas no âmbito econômico e político da sociedade, mas também sobre o modo de pensar, sobre as orientações ideológicas e inclusive sobre o modo de conhecer. A hegemonia é a capacidade de unificar através da ideologia e conservar unido um bloco social, não se restringindo ao aspecto político, mas compreendendo um fato cultural, moral, de concepção do mundo."
(Fonte: Wikipédia etc.)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

hora do horla


“Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, causa em nós, em nossos órgãos, e por meio destes, em nossas ideias, e até em nosso coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis?”
[...]
“Deito-me e espero o sono como esperaria o carrasco.”
[...]
“Várias pessoas a quem contei esta aventura zombaram de mim. Não sei mais o que pensar. O sábio diz: Quem sabe?”
[...]
“Nada, mas tenho medo.”
[...]
“Chega-nos do Rio de Janeiro uma notícia bastante curiosa. Uma loucura, uma epidemia de loucura, comparável às demências contagiosas que atingiram os povos da Europa na Idade Média, alastra-se neste momento na província de São Paulo. Os habitantes alucinados deixam suas casas, fogem das aldeias, abandonam suas plantações, dizendo-se perseguidos, possuídos, governados como um rebanho humano por seres invisíveis, embora tangíveis, espécies de vampiros que se alimentam de suas vidas durante o sono e que bebem além disso água e leite sem parecer tocar em nenhum outro alimento.”
(O Horla, Guy de Maupassant)

domingo, 12 de abril de 2009

por que rever os clássicos


Porque hoje é dia de Fla-flu.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

sim não (o quarto do tio)


(O Adriano foi na mosca, ou numa das moscas pelo menos, ao apontar a ambiguidade entre atração e repulsa em trechos de Cassandra que postei aqui. O tema dá pano pra manga; sempre deu. Ilustro isso com excerto de um clássico de Zélins, rubro-negro de escol, com itálicos por minha conta. Adriano, lembre as estantes do Lupin - inside joke familiar para deixar os outros 3 encafifados.)

"O quarto do meu tio Juca vivia trancado de chave o dia inteiro. Ali só entrava a negra que lhe fazia limpeza e mudava as roupas da cama. Mas quando aos domingos descansava na sua grande rede do Ceará, de varandas arrastando no chão, eu ia ter com ele. O meu tio me punha ao seu lado, fazia brincadeiras comigo. Era o único sobrinho com quem se dava de intimidade. Ele tinha muita coisa para me mostrar: os seus álbuns de fotografias, os seus livros de muitas gravuras, O Malho, que assinava, cheio de gente de cara virada pelo avesso. Lia as histórias todas d'O Malho, com retratos dos políticos e com um Zé-Povo que tinha resposta para tudo.

- Ali não bula, me dizia, quando eu tocava por acaso num pacote embrulhado em cima da cômoda.

Num dia em que ele me deixou sozinho, corri sôfrego para o objeto da proibição; uma coleção de mulheres nuas, de postais em todas as posições da obscenidade. Não sei para que meu tio guardava aquela nojenta exposição de porcarias. Sempre que sucedia ficar sem ele no quarto, era para os postais imundos que me botava. Sentia uma atração irresistível por aquelas figuras descaradas de meu tio Juca.

Uma vez em que ele se demorou mais tempo, por não sei onde, entretive-me com as gravuras muito tempo. O meu tio pegou-me de surpresa com o pacote na mão. Botou-me para fora do seu quarto. Eu não era digno da sua intimidade, dos segredos de sua alcova. Mas ficava-me de seus aposentos uma saudade ruim daquelas mulheres e daqueles homens indecentes."

(Menino de Engenho, José Lins do Rego)

a margarida

O PC, um dos 3 ou 4 leitores deste blog, leu o que postei sobre Entre les murs e, também indisposto com a visão ilari-lari-lariê da educação no patropi, lembrou de Apareceu a Margarida, de Roberto Athayde. Cáspite, ainda não vi essa peça, que todo o mundo diz ser ducacete pra dizer o mínimo. Crianças, a D. Margarida foi encenada pelo Aderbal-Freire Filho em 1973, doce momento político do meu Brasil varonil, e rodou os palcos do país com Marília Pêra na pele da personagem. Depois, correu mundo, Alemanha e o diabo. Espero que volte logo a Brasília, onde andou pelo CCBB. Na França de Bégaudeau, Madame Marguerite foi vivida por Annie Girardot, que aparece aí na foto mostrado a margarida. Parece que a dona está no elenco do filme Caché, que também não vi. A ignorância é o motor da intentada viagem.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

questão de método (thanks ivi)



entre os muros a gente

"We don't need no education..."

Gostei de Entre os muros da escola, de Laurent Cannet, vencedor da última Palma de Ouro em Cannes. Aliás, simpatizo, em princípio, com todo filme que se digna a abordar temas dramáticos, até pungentes, sem lançar mão do pianinho manipulador. E do seu companheiro contumaz, o enjoado violininho. Entre os muros não vem com um nem com outro: é um filme sem música. Árido movie. Sem o indigesto molho barbecue cobrindo a ação (lembram-se de Bruce Banner pedindo carona?), torna-se mais visível o que me pareceu a grande virtude da obra: o seu impecável naturalismo. Interpretações e direção funcionam tão bem, mas tão bem, que ficamos volta e meia sem saber se estamos diante de um documentário ou de um filme de ficção, e acertou quem chutou ´falso documentário`. Entre os muros deixa-nos a curiosa sensação de que a realidade só é visível na ficção. Abro aqui um parêntese para anotar que mesmo o mais anódino filminho francês - e não faltam anódinos filminhos naquela cinematografia - costuma apresentar esse trunfo, o do elenco uniformemente competente, dos protagonistas ao personagem que só tem um par de falas (a exceção talvez seja o recente Lírios d’água); não se vê o mesmo no cinema espanhol, por exemplo (pensem em Lucía e o sexo, ou mesmo nos almodóvares), nem se via no finado cinema italiano. Alguém me disse que isso se deve ao fato de, na terra de Jacques Tati, os atores serem recrutados preferencialmente nas companhias teatrais. Pode ser. No Brasil, é impossível um ator adquirir experiência cinematográfica, não porque as produções sejam bissextas (já não o são), mas porque todos os filmes são estrelados por Wagner Moura e Lázaro Ramos.

Voltando a Entre les murs, acho que qualquer leitura fica limitada se não se parte do pressuposto de que toda escola é uma prisão (“ainda me lembro / aos 3 anos de idade / meu primeiro contato com as grades”). Quando afirmou que as crianças são prisioneiras políticas, Godard não estava fazendo uso de uma metáfora, mas mostrando a vida como ela é. E antes dele Freud já havia registrado o mal-estar que nos causa a adaptação de nossa selvageria infantil aos constrangimentos da civilização. Sem considerações dessa ordem, cai-se facilmente no maniqueismo em que caiu Flávia Costa, ao escrever para o Valor sobre o livro de François Bégaudeau que deu origem ao filme por ele mesmo protagonizado. Para piorar, a moça ainda aproveitou para, espinafrando o livro e o sistema educacional francês, fazer um panegírico do nosso belsen tropical que beira o inacreditável. Tá bom, basta assistir a uns filmes do Truffaut para não idealizar o modo como se educa e se trata as crianças naquele país (ou como se o fazia há 40, 50 anos), mas também não precisava a jornalista escrever: “Nada mais estranho para o leitor brasileiro que a dinâmica tradicionalista e autoritária das escolas francesas, aqui mostrada como uma exibição de xenofobia”. Leio isso e me vêm flashes dos tempos de Pedro II: a professora de matemática empertigada à entrada da sala, esperando que todos os alunos se levantem para que enfim Sua Majestade se digne a adentrar o recinto; e o grito da tia de ciências para uma aluna: “Recolha-se à sua insignificância!!”. Para não falar do juramento impresso nas cadernetas, herdeiro do regime castrense findo havia pouco. Mudando para uma escola particular, eram os professores quem agora eu via tratados como capachos pela meninada mimada. Ah, Flávia, tradicionalistas pode ser que não sejamos muito, mas autoritários... quem poderia dar lições de autoritarismo a esta casa-grande-e-senzala onde todo transeunte é um legislador em causa própria? Onde, como sabemos, manda quem pode e obedece quem não quer levar cacetada da PM...

A resenhista aponta uma certa “má-vontade” de uma “pedagogia preguiçosa com o diferente” e afirma que “os professores nunca se questionam sobre a eficácia dos métodos que usam”. No caso do filme (não posso falar do livro), é bem verdade que a encenação é perpassada por uma certa letargia, um ar de exaustão dos educadores, que parecem em confronto cotidiano com os próprios limites, mas não se pode negar que, irritação à parte, o professor-protagonista envida esforços para tentar interessar os alunos pelo seu trabalho, e que os auto-questionamentos e mesmo divergências abertas, ainda que pouco frutíferos, são comuns na sala dos professores. O pior, em todo caso, é idealizar negativamente esse modelo europeu para incensar, com o mesmo grau de idealismo mas no sentido contrário, “a inventividade que nos caracteriza”, a nossa “afetividade”, e concluir com chave de ouro, já sem temor do ridículo, afirmando que essa diferença “enfraquece a potência do livro”. Bon dieu! Nesse ponto a crítica à xenofobia européia fica irremediavelmente comprometida, vez que a resenhista condena o autor francês pelo fato de seu livro não ser... brasileiro.

A força desse filme árido reside, a meu ver, no fato de ele pintar o conflito com apreciável honestidade - sem recorrer à estrutura mocinhos x bandidos que talvez tivesse agradado mais à moça do Valor. Emerge na tela um micro-cosmo da sociedade francesa atual (e mais uma vez não se trata de metáfora: a escola é esse micro-cosmo), em que, diante da massa indisposta, sempre à beira do levante, nenhuma fala do poder se sustenta sem passar pelo teste da desconfiança, quando não do escárnio. Assim, da mesma forma como fizeram os brilhantes Dardenne com O filho (Le fils, 2002), Laurent Cantet - possivelmente um discípulo dos belgas - consegue mostrar a tolerância como o que ela é: um desafio. Para fora do enfrentamento desse desafio (que exclui, por óbvio, seus falseamentos), as alternativas são espúrias. Por exemplo, quem mora no Rio pode aplaudir as pirotecnias do xerife Bethlem, criado pelo jornal O Globo para azucrinar a vida das putas pobres, das travestis e dos camelôs, na crença de que “as soluções demandam a imposição da disciplina a um pedaço demonizado da sociedade” (como bem sintetizou Elio Gaspari); pode-se também abraçar o niilismo de jornalistas yuppies deslumbrados que emitem seus programas de TV para o Brasil a partir de NY (alô, mamãe, olha eu aqui!); ou ainda acreditar que a solução seja doar dez reais para o Criança, esperança ou mandar a faxineira pendurar um pano na varanda da cobertura, clamando “Basta!”

Isso visto, saio do cinema lembrando a frase de um técnico inglês, que afirmou que “o futebol não é uma questão de vida ou morte; é muito mais do que isso”.

meninas más


(Adriano: você pediu e aí vão uns trechos de Cassandra, com falatório meu. Ouvi dizer que vovó R. deleitava-se na rede com essas leituras malditas, que lhe chegavam junto com as remessas d'O Cruzeiro, vindas da capital.)

As protagonistas

Em Eu sou uma lésbica, a protagonista é Flávia, mulher adulta que relembra sua iniciação sexual, aos 7 anos, com uma vizinha amiga de sua mãe, seu namoro adolescente com Núcia, aventuras posteriores… até o reencontro final, com seu objeto de desejo. A história de Flávia é, porém, sobretudo o relato de uma incômoda lembrança, de uma perturbadora cena inaugural, o crime cometido na infância, e jamais descoberto: o assassinato de Seu Eduardo, marido de Kênia, visto pela criança como o responsável pelo rompimento abrupto de seu relacionamento clandestino.

A protagonista de Marcella assim se apresenta:

“Sou Anastácia Marques, simples funcionária de medíocre firma. Tenho 26 anos, mas sempre me sinto como se tivesse 18 e às vezes quatro aninhos. Sou morena. Um metro e sessenta e seis de altura. Magra. Esguia. Pacata. E trabalho demais.”

Em romance posterior e quase homônimo, Marcellina (1977), é a colega de trabalho de Anastácia quem tem voz, e a descreve nestes termos:

“[…] senti falta de uma subalterna. De uma empregada. Lembrei de Anastácia. Dos seus sapatos surrados, nos seus primeiros dias ali e ela me olhando, admirando minhas pestanas longas, meus cabelos cor-de-casca de cebola, anelados, sedosos, meus dedos longos passeando pelos tipos da máquina de escrever […] A esquisita Anastácia! […] estava sempre me observando, disfarçando quando eu me mexia. Ela me incomodava. A princípio eu ficara em dúvida quanto à sua natureza, depois, no dia-a-dia, não tive dúvidas de que era uma anormal.”

Interessante artifício dialógico que faz de dois romances simétricos e complementares: em Marcella, Anastácia é atormentada pela onipresença da distante e dominadora personagem-título, a qual no entanto participa de poucos diálogos no decorrer da trama, fazendo-se presente como uma espécie de assombração, uma eminência parda. É a obsessão de Anastácia por Marcella, seu desejo incoercível de conquistá-la, o fio condutor que perpassa a trama. Em Marcellina, é Marcellina Rodrigues Bastos (o verdadeiro nome de Marcella) quem conta sua história, sua sobrevivência como secretária na cidade de São Paulo, após a perda de seu grande amor, prostituindo-se para juntar o dinheiro necessário para uma cirurgia que restaure a visão de sua mãe. Marcella, por sua vez, é assombrada pela obsessão de sua ex-colega de trabalho, lésbica, que no início do romance lhe oferece valor equivalente ao dobro de seu salário por um programa, mas retira-se após o primeiro beijo, deixando-a nua e intrigada: “Anastácia fora embora. Pagara cinco mil cruzeiros por um beijo. […] Ela fora embora para colocar-me em seu lugar, uma desgraçada que tinha que se sujeitar a propostas e ofensas. Teria sido isso ou o quê?”

Crianças assassinas. Essas são as protagonistas de Marcella e Eu sou uma lésbica. No primeiro caso, temos Anastácia, perseguida por uma ‘cena original’ que a domina e lhe desperta um ódio incontrolável pelas mulheres infiéis, assim como a faz sentir-se criança a ponto de se urinar:

“[…] me senti criança, choramingando, esfregando os olhinhos desacostumados da luz, braços me agarrando, erguendo-me no ar, dor de cabeça, xixi escorrendo pelas minhas pernas.
- Doida, o que você fez? Como pode fazer uma coisa dessas? Eu estava despertando para a realidade e a realidade era a cara de espanto de Lilien, que pulava fora da cama molhada. O que eu fizera? Xixi em cima dela.”

Em Flávia, por sua vez, persiste a menina de sete anos, ciosa de seu brinquedo, qual seja, a mulher que com ela estabelecera um pacto clandestino: “Não conte pra ninguém, nunca, viu Flávia? Ninguém pode saber de nossa brincadeira de gatinho, só nós duas. É o nosso segredo, você promete?” No entender da menina, é Eduardo, marido de Kênia, o responsável pela quebra do pacto, ao partir com a esposa rumo à Itália. E ele paga por isso com a vida, num crime perfeito (pois todos acreditam que ele, doente de câncer, havia ingerido vidro moído propositalmente).

As musas

Estes relatos são governados por musas, mulheres inatingíveis que representam algum tipo de amor ideal. Não seriam caracterizações próximas às heroínas de Sacher-Masoch? Destas, afirma Gilles Deleuze: “As heroínas de Masoch têm em comum as formas opulentas e musculosas, um caráter altivo, uma vontade imperiosa, uma certa crueldade, mesmo na ternura ou na ingenuidade.”

Marcella (“inatingível, glacial, dos homens”) a todo momento trata Anastácia com distância, frieza e mesmo maldade, dando-lhe ordens que reafirmam a relação de dominação (“vá”,“lave”, “telefone” etc.):

“Não olhava para mim nem quando tinha de falar comigo. Estava sempre remexendo em alguma coisa e a impressão que me transmitia era que eu só servia mesmo para servicinhos de menino de entrega de supermercado. […] Isso, ela me tratava assim como se eu fosse um ser completamente desprovido de senso e noção do lugar que ocupa no mundo, à disposição de qualquer estranho que tivesse voz ativa.”

Note-se que aqui também temos um acordo tácito. Se entre Flávia e Kênia se estabelece verbalmente o compromisso de manter em segredo as ‘brincadeiras de gatinho’ (o aspecto subentendido, no caso, reside no fato de ambas fingirem não saber que a brincadeira era uma relação sexual), entre Marcella e Anastácia se estabelece automaticamente a relação senhor x escravo, em que uma manda e a outra obedece – e que não exclui uma boa bofetada, como reprimenda por uma ‘ousadia’. E não exclui, tampouco, a “tarefa pedagógica” a ser desempenhada pela escrava, e que Deleuze identifica nos personagens de Masoch . Assim é que Marcella concede, diante de um pedido de perdão por parte de Anastácia (“Pode descontar o prejuízo todo mês do meu ordenado até que dê.”): “-Não é preciso descontar nada. Está bem, esqueça, afinal não podemos trabalhar junto [sic.] sem ter que comunicar-nos uma com a outra, mas tome jeito e deixe de ser tão estabanada e sem educação…”