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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

o alvo


O bicho-preguiça apareceu / Aos meninos num riacho, ou lago; / E não era peludo: era pelado. / Braços compridos, corpo alvo, / Algo de dragão, mas não alado. // Se era hostil, não quedou claro: / Seguiu que o estranho extraordinário / Foi em todo caso apedrejado, / Depois - por prudência - afogado, / Para que se mantivessem imaculados / O nosso real (imaginário), / Os nossos limites do pensável.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

lavadeira


"A rede entre duas mangueiras
balançava no mundo profundo.
O dia era quente, sem vento.
O sol lá em cima,
as folhas no meio,
o dia era quente.

E como eu não tinha nada que fazer vivia
namorando as pernas morenas da lavadeira.

Um dia ela veio para a rede,
se enroscou nos meus braços,
me deu um abraço,
me deu as maminhas
que eram só minhas.
A rede virou,
o mundo afundou.

Depois fui para a cama
febre 40 graus febre.
Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas,
girava no espaço verde."
(Iniciação amorosa, Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 13 de junho de 2009

Flamengo 1 x 2 Internacional

O melhor de mim eu fiz
Estive onde pude:
Veloz, sagaz
Aventureiro
Avancei no campo traiçoeiro
Do inimigo
Obrigando-o a se encolher, contido
Despido, já, do brio de guerreiro.

Andei perto de chegar aonde quis
Saboreei a véspera do êxito
Que almejei, ouvindo o grito irreprimido
De delírio
Dos abnegados que vinham comigo.

Faltou-me, sei, o tiro certeiro
A crueza do infalível
Sobrou-me a sina incorrigível
De escorpião invertido
Entregue em oferenda ao justiceiro.

Ajoelhado, expugnado, combalido
As mãos em concha, sopesando o não-colhido
Eu quase ri de mim
Por não ver senão eu mesmo
No espelho.