domingo, 22 de novembro de 2015

Levante no quartel de Abrantes

Assim como é conversa fiada a história de que um gesto de Fernando Gabeira - gesto meio arrogante, e a meu ver tingido de certo preconceito - apeou Severino Cavalcanti da presidência da Câmara dos Deputados, há uma década, também dista da verdade o conto segundo o qual a deputada Mara Gabrili, com a força de sua voz tíbia, teria sido decisiva para o momentoso esvaziamento do plenário daquela Casa, na tarde da última quinta-feira (19/11) - protesto que vem sendo apontado como o começo do fim da Era Cunha. Ora, o desgaste de Don Cunha não teve início agora. O audacioso político carioca vem dando mostras de desconhecer - ou, em todo o caso, ignorar - uma lição fundamental lapidada nas ruas do Rio de Janeiro, qual seja: "malandro demais se atrapalha"; da qual decorre o sábio conselho: "malandragem, dá um tempo..." 

Demais disso, até a relva da Esplanada sabe que Gabrili era, até outro dia, cupincha de Cosentino Cunha, e que seu partido, o PSDB, liderado na Câmara pelo inefável Carlos Sampaio, engrossava a tropa de il Capo, na esperança (vã), de um impeachment que lhe restituísse a eleição perdida.

Não se pode, porém, negar que Gabrili demonstrou um grande senso de oportunidade, seguindo a re-orientação de sua agremiação partidária, que agora busca aproveitar o vácuo - ético, moral, político - deixado pelo apoio envergonhado e vergonhoso do PT, o PT de Sibá (esse agrupamento amedrontado e constrangido que pouco lembra o aguerrido partido de outrora) à permanência de Cunha et caterva à frente da Casa do Povo.

(Justiça seja feita a deputados petistas que corajosamente rechaçam o opróbrio, como Henrique Fontana, Maria do Rosário, Wadih Damous e Margarida Salomão, entre outros.)

Na sessão de quinta-feira, quando a fala infantil de Gabrili irrompeu pedindo "por favor" que seu querido Cunha se afastasse da presidência, o parlamentar já estava sob o fogo de dezenas de colegas, de quase todo o espectro ideológico, que repeliam sua mais nova manobra inaceitável em causa própria. Mas foi na bela deputada que nossa grande mídia identificou o símbolo ideal desse "Fora, Cunha" que se afigura irreversível: frágil em sua condição de cadeirante, ela é algo assim como Davi contra Golias. 

Musa anódina e inofensiva, Mara simboliza a esperança de que a mudança venha - mas venha como no romance de Lampedusa, deixando as coisas como estão.



terça-feira, 3 de novembro de 2015

No lar de Olugatany

No segundo dia, descemos até o rio, atravessando a densa mata. Junto à margem havia muitas pedras, algumas lisas e escarpadas, e logo adiante uma formação que chamarei ilhota: um aglomerado de capim, raízes e arbustos. Ali sempre havia sombra. Dali, resguardados, observamos com admiração uma família de leões, reunidos na pequena praia, a uma distância de uns 500 metros. Destacavam-se do entorno pela pelagem dourada, que reluzia ao sol. Um ou outro nos terá visto, mas pareceram não nos dar importância. Restaram entretidos consigo mesmos, as crianças mexendo com a água, talvez por haverem avistado algum peixe. Em todo o caso, voltamos.

Na manhã seguinte, ninguém parecia querer se mexer. Eu queria. Desci, sozinho, até o rio. Como era agradável desfrutar daquele silêncio... isto é, o marulho doce da água corrente, os namoros de pássaros, os zumbidos de insetos... Uma camada de som envolvendo, mansa, o ambiente. Banhei-me próximo à ilhota, absorto em meus pensamentos. 

Estava assim quando ouvi um ruído rouco, abafado. Pensei numa pedra rolando sobre outra, embebida n’água. Mas, subindo à ilhota e contornando-a, avistei. Um leão havia atravessado uma boa porção do rio e agora caminhava, vagaroso, sobre pedras submersas (curiosamente, não molhara senão as patas). Não tinha juba: era, portanto, um jovem ou fêmea. O ruído teria sido, eu pensava agora, um seu grunhido, ou de fato uma pedra, deslocada pelo felino em seu périplo. O animal ainda não estava próximo a mim, mas trazia a inconfundível postura e o olhar atento de caçador espreitando a presa – que, no caso, só poderia ser eu. 

Dizem que, em situações assim, não se deve correr, demonstrando medo – dica interessante, mas que equivale a dizer que, em situação de pânico, não se deve entrar em pânico. Segui meu instinto e corri, saltando sobre as pedras semi-submersas. Só olhei para trás para divisar, num átimo, a fera saltando como eu, apenas com maior destreza. Apavorado como estava, era-me dificílimo, impossível quase, fazer aquele trajeto sem me acidentar. Pior: eu descobria que o caminho de volta, normalmente simples, tornava-se, naquela circunstância, um labirinto intransponível.


(Henri Rousseau)



quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Crime na Câmara

Diferentemente do que muitos pensam, a maior parte dos homicídios, no Brasil, não está diretamente relacionada ao crime organizado, ao tráfico de drogas, mas se dá por impulso e motivos fúteis, como brigas em bar, desentendimentos no trânsito, discussões entre vizinhos e todo o tipo de banalidade. Falta-nos, hoje, uma educação para o convívio com o outro, para a resolução de divergências de modo equilibrado.

Estudos sobre o tema, como o Mapa da Violência, têm revelado outros fatores que concorrem para a manutenção desse cenário catastrófico, de violência epidêmica. Um deles é o baixíssimo índice de elucidação de crimes de homicídio em nosso país. Outro fator é o elevado nível de impunidade vigente, que estimula a solução de conflitos pela via violenta. Por fim, temos a farta disponibilidade de armas e munição contribuindo para que a violência homicida, no Brasil, chegue a níveis intoleráveis. Vale lembrar que uma das principais diretrizes das missões de paz da ONU é “desarmar as facções em conflito”.

Nesse quadro, é triste, é até repugnante que a bancada da bala tenha conseguido aprovar, na tarde de hoje (25/10), na Câmara dos Deputados, o texto-base da proposta (o Projeto de Lei 3722/12 e apensados) que revoga o Estatuto do Desarmamento.


Os representantes do atraso, da estupidez e da demagogia colocam em xeque, assim, um instrumento de fundamental importância para a retirada de armas de circulação e de comprovada eficácia para a redução das mortes violentas. "Uma decisão lamentável e de graves consequências", como declarou o deputado Alessandro Molon.

Na próxima semana deverão ser apreciados os destaques, e em seguida o entulho irá para o plenário da Casa. É hora de pressionarmos suas excelências, para que coloquem a mão na consciência e votem pela rejeição da matéria, evitando o agravamento de um quadro já desolador.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Sobre o nojinho da política ou Não basta odiar o Cunha ou Coisas que aprendi quando um taxista me deu uma volta após deitar falação sobre a corrupção nas obras da Copa



Papo que me irrita e entedia: a fastidiosa ladaínha condenatória sobre “os políticos”, “a política”, com as variações que tratam a cidade de Brasília, as edificações do Congresso Nacional, como o Castelo de Drácula, na Transilvânia. Pueril como o medo de vampiro, essa idealização negativa, que torna o símbolo “política” uma espécie de espelho invertido para o Narciso, se me afigura um rosário de engodos. 

Senão, vejamos. 

Em primeiro lugar, ela põe no mesmo balaio pessoas e práticas muito, até radicalmente distintas: há pouquíssima semelhança entre, digamos, um Waldir Maranhão e uma Maria do Rosário (adivinhe quem ganha com a nivelação por baixo). Em segundo, ela parte da suposição de que o chamado “meio político” seja uma absoluta anormalidade, um chorume de vícios contrastante com uma sociedade pautada, rigorosamente, pelas mais altas virtudes. Algo como um chifre de rinoceronte despontando na venta de um tubarão-martelo. Ora, distorções do nosso sistema político à parte, sabemos que não é bem assim, mesmo porque não se conhece deputado ou prefeito eleito sem o apoio de parte do eleitorado (ou seja, sufrágio popular) – e nenhum deles, tanto quanto se saiba, veio de Marte. É curioso, a propósito, o contraste entre o achincalhe do “mundo político” e a louvação ao “mundo empresarial” (veja-se a pletora de lançamentos sobre sucesso empresarial em destaque nas livrarias, em contraste com as capas dos semanários...), tendo em vista que essa distinção contém boa dose de arbítrio, já que muitos parlamentares e ministros ou bem são financiados por empresas, ou bem são empresários eles mesmos.

O terceiro engodo é a noção que o falante, o eu-lírico, esse que tem nojinho da política e dos agentes aí metidos, seja um mero espectador, sem qualquer responsabilidade pelo que acontece ou deixa de acontecer no “mundo da política”. Ora, um aspecto interessantíssimo da política é o fato de ela, a rigor, não admitir exterioridade. Ou seja, na medida em que vivemos na pólis, somos, todos e cada um de nós, políticos. Daí contribuirmos para a conformação do chamado “cenário político” com nossas ações e omissões, nossos acertos e nossas mancadas. Coisa muito bem explicada por Bertold Brecht no celebérrimo poema-manifesto “O analfabeto político.”

Isso dito, temos um problema: nosso sistema político está, de fato, apodrecido (sua reforma não foi feita, nem parece que será, pois as mudanças teriam que ser votadas e aprovadas por muitos que se beneficiam da continuidade). Os partidos, embora fundamentais, são quase todos, hoje, umas massas amorfas que, na sua forma mais visível, mais parecem cartórios de registro de candidaturas. Natural que estejam atraindo pouca gente, sobretudo pouca gente disposta e capaz de representar avanço. Por outro lado, a militância de sofá, centrada no Twitter e Facebook, embora seja uma alternativa bem-vinda e bastante cômoda, tem efeito limitado, insuficiente, às vezes nulo.

Diante disso, como diria Lênin: que fazer?

Para começo de conversa, abandonar, tanto quanto possível, as idealizações (sempre enganosas), o purismo, a nostalgia de uma época em que o poder político emanava da figura mítica de um soberano eivado de direito divino. Para mal, mas decerto também para bem, política é um assunto humano, mano.


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Sob o sol de inverno (anotações sobre futebol e política)

Desde a Copa de 2014, deixei de acompanhar os jogos da seleção brasileira masculina de futebol. A razão para isso é aversão à indignidade. Não apenas a indignidade da corrupção desmedida, mas – em primeiro lugar – a do futebol apresentado em campo. Após a Copa de 1994, com o hiato da conquista de 2002, sofremos uma sequência de derrotas indignas. Foi assim em 98, contra a França; em 2006, de novo contra a França; em 2010, contra a Holanda; culminando no apoteótico vexame contra a Alemanha, o Mineiraço, no ano passado. Indigno não é perder, mas mostrar-se aquém do combate. É, sobretudo, entregar os pontos, perdendo sem lutar – como o escrete canarinho fez em 98, 2006, 2010 e 2014.

Há derrotas dignas, até digníssimas. A Argentina, em 2014, foi valente no confronto com a favorita Alemanha: jogando mais com garra que com técnica, os hermanos lutaram até o fim e perderam na final por apenas 1 x 0. A surpreendente Costa Rica, também aguerrida, bem organizada, perdeu para a Holanda nos pênaltis. De volta à casa, os jogadores desfilaram em carro aberto pelas ruas de San José, aclamados pela multidão. 

Nos anos recentes, duas partidas de futebol me emocionaram especialmente. Na última Copa das Confederações, os japoneses fizeram a melhor partida de sua história, em Recife, contra a poderosa Itália. Dominaram os italianos, colocaram na roda seus experientes jogadores, foram impetuosos, estiveram em vantagem mas... perderam o jogo por 4 x 3. Faltou-lhes um pouco mais de malícia e de brilho individual. Foi um confronto épico: exaustos todos, os europeus saíram de campo aliviados e os asiáticos, inconsoláveis. E na Copa de futebol feminino de 2011, na Alemanha, as brasileiras enfrentaram na final as norte-americanas, para quem haviam perdido na primeira fase. Dominaram o jogo, tiveram mais posse de bola e oportunidades, explorando o talento da Marta... mas esbarraram no próprio nervosismo e na regularidade das gringas, que aguentaram a pressão. Foi uma derrota doída, mas digna.


Saindo do futebol para a política, e para o aparente fim de ciclo do chamado lulopetismo, é triste que os méritos inegáveis do time adversário, a direita, sejam ofuscados pelos erros crassos da esquerda governante: a crença na conciliação permanente; a covardia perante o desafio da comunicação; a leniência com a corrupção; a renúncia ao debate econômico. Contra tudo o que desejaríamos, vemos a economia conduzida pela tacanha ortodoxia liberal e a política, pela fisiologia desabrida do pemedebismo. Nesse quadro de permanente renúncia e envilecido acovardamento, permite-se até que um general torturador seja sepultado com honras militares. E pendura-se no pescoço de hienas famintas o colar da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.

Assim como é bisonho, em jogos da Seleção, reclamar que o adversário joga na retranca ou coisa parecida, não tem cabimento se queixar de que a direita age como direita, de que ela tem noções claras de tática e estratégia e competência para executá-las. A atual administração da Câmara dos Deputados, eivada de maquiavelismo, tem mostrado didaticamente que o choro é livre, mas não adianta espernear. 

Não sei se Beto Guedes tem razão quando diz, naquela antiga canção, que “a lição sabemos de cor.” Mas do arremate, não duvido: “só nos resta aprender”.

(Ilustração: Rubens Gerchman)

sábado, 30 de maio de 2015

O guardanapo


Por vezes, objetos triviais do dia-a-dia são retirados de sua banalidade para revelar significados múltiplos, relações diversas com aqueles que os utilizam... e até poderes ocultos. Isso se dá, em geral, pela mão de criadores de olhar aguçado.

Shakespeare mostrou como um lenço – isso, um simples lenço – pode ser manipulado de modo a alimentar o ciúme mortífero de um homem em relação à esposa. Gógol imortalizou o apego de um funcionário medíocre ao seu velho capote (numa São Petersburgo cujo inverno há de congelar até os espíritos). Menos célebre, o ensaísta britânico Peter Stallybras, em “O casaco de Marx – Roupas, memórias, dor”, explora as diversas dimensões das coisas: como utensílios, como registros de nossa memória, como mercadorias com valor de troca.  E fala, claro, da importância de um casaco na vida e na teoria do pensador alemão. Roland Barthes dedica vários ensaios a captar significados nas coisas – o bife, o plástico, o brinquedo –, surpreendendo nelas verdadeiras mitologias. Nas artes plásticas, o urinol de Duchamp, a lata de sopa de Warhol (e antes, as maçãs de Cézanne) e outras tantas obras realizam operação semelhante, abrindo nossos olhos para a novidade do que estamos cansados de conhecer, objetos banais aos quais não costumamos dar grande importância.

Ultimamente, nos porões da política brasileira, um objeto desses banais tem deixado o anonimato e ocupado manchetes escandalosas do noticiário. Trata-se do bom e velho guardanapo (do francês garde-nappe).



Em ambientes simples ou informais, o guardanapo costuma ser de papel, e descartável. Noutros, mais ajeitados, é de tecido – liso ou estampado –, e aguarda o comensal gentilmente dobrado sobre a mesa – às vezes, até, ornando uma taça, como enfeite. O guardanapo, que pode ser estendido sobre o colo, enquanto comemos, ou pendurado na camisa, à guisa de babador, serve primordialmente para evitar sujeira: ele protege nossas roupas de respingos de molho, de pedaços de comida caídos do garfo; deve ser utilizado para limpar dedos e lábios, após a refeição, o que é também uma forma de preservar nossos companheiros de mesa de uma visão possivelmente incômoda. Nesse sentido, o uso do guardanapo indica delicadeza, polidez, recato.

(Querendo, talvez, dar-se ares distintos, o impertinente freguês de “Conversa de botequim”, de Noel Rosa, requisita ao garçom, entre outras coisas, “um guardanapo e um copo d’água bem gelada”.)

Eis, porém, que o guardanapo surge ressignificado, ornando as cabeças – sim, as cabeças – do governador do Rio de Janeiro e alguns confrades, entre políticos e empresários, numa farra em um restaurante parisiense, até então elegante, em 2012. À volta deles, as esposas exibem, orgulhosas, as solas encarnadas de sapatos adquiridos ao custo de vários salários mínimos, enquanto, provavelmente, tricotam sobre as últimas e as próximas compras nas boutiques mais exclusivas da capital francesa. Os guardanapos, voltemos, enfeitam as cabeças das autoridades, dando um toque carnavalesco à confraternização (e me fazendo lembrar os nerds imberbes de “A mulher nota mil” aguardando, com sutiãs na cabeça, a deliciosa aparição de Kelly LeBrock). Aí, o guardanapo, longe de indicar recato ou comedimento, revela o desejo de extrapolar, de quebrar regras, como aquelas que disciplinam as relações entre o poder público e entes privados – por exemplo, empreiteiras. Somados, os guardanapos-chapéu e os calçados Louboutin compõem um quadro cafona e grotesco da embriaguez com o poder.

Agora ficamos sabendo que José Maria Marin, dirigente notoriamente corrupto da notoriamente corrupta CBF, ora presidiário na Suíça, utilizava guardanapos para grafar as quantias que desejava ver depositadas em sua conta bancária, a título, vamos dizer, de facilitação transacional em contratos firmados pela Confederação. Aqui, a modéstia do meio utilizado – um reles, descartável guardanapo – contrasta com a dimensão vultuosa das propinas. Além, claro, de revelar um cuidado em não produzir provas contra si, digno de um profissional com décadas de labuta no jogo sujo do poder.

Pobre guardanapo, subvertido em sua modéstia franciscana, extraído dos ritos da delicadeza, para servir de adorno ou suporte ao despudor de ‘otoridades’ tupiniquins em suas andanças pelo mundo, na trilha de obscuras transações!


Como diz Arnaldo Antunes, “as coisas não têm paz”...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Questões peripatéticas





Rápida tentativa de apreensão do fenômeno. A nova configuração do parlamento grego pode ser interpretada como uma fotografia de uma onda política que se reflete noutros países do Velho Continente (França, Espanha...) - e pode inspirar lições alhures. Em síntese, trata-se do desprestígio dos tradicionais partidos à esquerda e à direita, e a concomitante ascensão de agremiações de esquerda e direita novas, ditas "radicais" (no caso grego, o Syriza e o partido neonazista).

Por que a esquerda e a direita tradicionais descontentaram seus eleitores e perderam apoio? Uma hipótese: porque ficaram, insossamente, muito parecidas. Parecidas na insuficiente lisura no trato com a coisa pública, e também em seus programas. A esquerda tradicional desagrada ao cidadão progressista, que exige mudanças profundas; a direita tradicional não supre a necessidade de segurança do eleitor conservador. No vácuo de ambas, ascendem (experiência fortuita?) uma esquerda menos aferrada ao leito de Procusto da ortodoxia liberal, e uma direita menos comprometida com os valores democráticos. Faltasse tudo a ambas (consistência, competência...), não lhes faltaria isso: uma identidade clara. Está em xeque o liberalismo? O que surgirá - e se consolidará - como alternativa?

E agora lemos que, para compor o governo, o "furacão" Syriza alia-se ao Gregos Independentes, conservador. Vamos ver o que sairá daí. Cenário facilmente previsível: o novo governo não levará a Grécia ao Olimpo que esperam seus mais entusiasmados apoiadores, nem ao inferno que antevêem as cassandras de direita, como as que sobejam na imprensa tupiniquim. Será algo na linha Brasil 2002?

Alea jacta est! (Opa, isso é latim...)

King Kong, um filme latente


Fiel ao argumento original, King Kong (1976) é um filme sexual, sem sexo. Resgatada seminua de um bote à deriva no Oceano Pacífico, a aspirante a atriz Dwan (Jessica Lange em seu esplendor) torna-se companheira de viagem da tripulação – masculina – de um navio petroleiro em nebulosa expedição. E permanece pouco vestida, pois adapta (customiza, se preferirem) os trajes que lhe são doados pelos marinheiros, adequando-os a uma moda-praia feminina e sexy. Dwan é toda entrega, espontaneidade, saúde e sorriso. A hipótese de estupro parece não passar por sua cabeça, e talvez estivesse mesmo distante, pois, naquele caso específico, os rudes aventureiros confinados em alto mar revelam-se bons samaritanos – ao menos no que tange ao belo esporte. As ambíguas referências que Dwan, divertida, faz a um filme pornô (“Eu fui salva pela garganta profunda!”) produzem em seus companheiros indiferença ou leve embaraço.

Então chegamos à ilha misteriosa. Os ‘selvagens’ tentam intercambiar seis negras pela loira (a carne mais barata do mercado é a carne negra, como canta Elza Soares?), sem sucesso, restando-lhes  raptá-la. Afinal Dwan é apresentada, isto é, ofertada, ao majestoso primata. Os nativos parecem apostar numa hipótese psicanalítica: a agressividade do monstro é um reflexo neurótico de sua frustração sexual; apaziguados seus instintos, a vizinhança haverá de ter sossego.

Gorila antropomorfizado, King Kong move-se ereto e soberbo. Como a dupla do conto A bela e a fera, Kong e Dwan formam um par ao mesmo tempo esdrúxulo  e harmonioso: diferentes em quase tudo, os dois têm o desejo à flor da pele, o que os aproxima entre si e os difere dos homens obcecados por suas quimeras (a ciência, o capital). A cada investida do macaco, Dwan apenas finge resistir, enquanto se deixa agarrar pela mão possante da besta-fera. 


E Jack Prescott, o magnâmimo paleontologista vivido por Jeff Bridges? Ah, Prescott é um homem gentil, bem-intencionado, mas um amante hesitante. Para ele, a moça com brilho nos olhos e peito arfante pode aguardar um pouco, enquanto ele termina de armazenar mantimentos para uma expedição à ilha de Kong – isso, sim, prioritário e urgente. Além disso, Prescott parece querer cercar-se de garantias quanto às perspectivas da vida a dois (“Você precisa de um estilo de vida que eu não posso lhe proporcionar” – lamenta, a certa altura, o mal remunerado professor). Belo estímulo ao impasse. Sim, Prescott é um austero devoto da ciência e Dwan, uma aspirante às luzes da ribalta. Mas a maior dificuldade entre eles talvez seja o fato de os dois terem, na verdade, o mesmo objeto de desejo: o gorila King Kong. Um triângulo amoroso assim inusitado poderia prosperar? Não chegamos a saber.
Ao fim, próxima ao imponente cadáver de Kong, Dwan é cercada por curiosos e câmeras e disparos de flashes. Torna-se, enfim, uma celebridade. Mas como é amargo o sabor dessa conquista!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

reza forte

A reza forte faz parte da nossa cultura, do nosso dia a dia. Rezamos para aquele amor voltar, para o filho chegar ileso em casa, rezamos para as coisas darem certo ou para, pelo menos, não darem muito errado. No futebol, então, a reza corre solta. Os menos crentes mas ainda um pouco supersticiosos, entre os quais me incluo, às vezes cruzam os dedos ou batem na madeira. Chegamos à sofisticação de construir um sistema hidrelétrico de dimensões continentais que, à míngua de reservatórios, depende bastante de orações para São Pedro.


Nesse contexto, era natural que a realização do mundial, à falta de planejamento responsável e eficiente, também dependesse um tanto de um certo esoterismo. Estamos recebendo milhares de pessoas em estádios ainda inacabados, alguns dos quais nem contaram com a indispensável visita dos bombeiros. O mais lógico, agora, o mais razoável, é acendermos velas para São Judas Tadeu, ou para qual seja o santo da nossa devoção. Sem deixar de cruzar os dedos.

(18/07/2014)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O Brasil e o anão de costas quentes

Incomodado com a decisão brasileira de chamar para consultas o embaixador em Tel Aviv, um empregado da chancelaria israelense classificou o Brasil, de modo ofensivo, como “um anão diplomático.” Trata-se, sem dúvida, de gesto ousado, e de uma ousadia algo delirante, um representante de país tão pequeno, com uma população tão pequena (Israel conta com 7.908 milhões de habitantes, quase a metade da população do estado do Rio de Janeiro), adjetivar como “anão” um país tão grande, de população tão numerosa. Claro, o Sr. Palmor não se referia a essas medidas de grandeza, mas sim a uma dimensão, senão intangível, mais difícil de medir, a da influência diplomática.

Bom, acontece que ainda aí a diferença é gritante. Com elegância, além de sublinhar que o Brasil não costuma usar termos pejorativos para se referir a nações amigas, o ministro Figueiredo informou que o Brasil é um dos 11 países que se relacionam com todos os membros da ONU. Poderia ter acrescentado que o país integra um arranjo político-diplomático (o BRICS) que congrega nada menos que 18% do PIB mundial e quase a metade da população do planeta.

O Brasil, decerto, não é uma potência global, mas a dimensão de Israel no concerto das nações tampouco impressiona. Sobrevivendo à margem de resoluções da Assembleia e do Conselho de Segurança da ONU – as quais ignora –, além de desrespeitar a Corte Internacional de Justiça, o Estado de Israel tem sido marginal em relação ao Direito Internacional, e costuma amargar isolamento político nos âmbitos multilaterais. A recente decisão do Conselho de Direitos Humanos da ONU de acatar a solicitação da Autoridade Palestina para que sejam investigados crimes contra a humanidade na Faixa de Gaza certamente não reflete o prestígio do “gigante” Israel. Apoiada por 29 dos 46 membros do Conselho, a medida foi contestada apenas pelos EUA de Barack Hussein Obama (que radicais em Tel Aviv chamam de “árabe anti-judeus”), enquanto os europeus guardaram silêncio embaraçado e embaraçoso. 

Em 2012, a Assembleia Geral da ONU, em peso (138 votos a favor), aprovou o status da Palestina como Estado observador. Abraçados a Israel, do lado derrotado, além de EUA, Canadá e República Tcheca, estiveram atores-chave da cena global como Palau, Nauru e Micronésia.

Ao afirmar que o Brasil “ignora o direito de Israel à autodefesa”, o porta-voz utilizou uma das surradas táticas retóricas sionistas (outra, igualmente bolorenta, é a tentativa de intimidar os críticos das políticas israelenses, tachando-os de “antissemitas”). Trata-se, neste caso, de contestar algo que não foi dito, de modo a ignorar o que de fato está em causa. Poderíamos chamá-la de tática da cegueira, ou cortina de fumaça. Em psicologia, talvez seja uma espécie de fuga dissociativa. Afinal, o Brasil nunca ignorou o direito de Israel se defender dos foguetes do Hamas (inclusive, em nota recente, condenou esses ataques à população israelense): o que critica veementemente é a “desproporcionalidade da resposta” – aliás, um modo suave de abordar o massacre deliberado de civis. 

Contabilidade recente da carnificina em curso registrava 757 palestinos assassinados, dos quais 571 civis (dentre eles, nada menos que 182 crianças e 95 mulheres). Do lado israelense, a incursão bélica pré-eleitoral cobrara a vida de 30 pessoas, quase todas militares. 


Ora, embora sejam conhecidas táticas perversas do Hamas que expõem a população civil (e que constituem, sem dúvida, crime de guerra), ninguém é obrigado a acreditar que esse quadro ilustre um “direito de defesa”. Crianças abatidas numa praia em Gaza, inclusive quando tentavam escapar, em desespero, não podem ser consideradas alvo militar por nenhum ser humano. E o comissário-geral da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina), Pierre Krähenbühl, tem toda a razão de indignar-se com o bombardeio terrorista a uma escola em Beit Hanoun que servia de abrigo a refugiados – e cujas coordenadas haviam sido informadas não menos que 12 vezes às autoridades de Israel, para que, em respeito à lei internacional, a instalação fosse poupada. “Esses palestinos, muitos deles mulheres e crianças, tinham chegado a esta escola em busca de refúgio, acreditando que uma instalação da ONU ofereceria um maior nível de segurança. Essa crença foi baseada no compromisso vinculativo da comunidade internacional. E também na obrigação de ambas as partes de combater sob a lei internacional e respeitar a inviolabilidade das instalações da ONU”, disse ele.

Quando o líder do Hamas, Khaled Meshaal, diz sentir “orgulho” do conflito atual, e o porta-voz da chancelaria israelense se permite tecer comparações entre o massacre e um jogo de futebol, pode-se ter uma ideia do grau de insanidade que alimenta a disputa. Nesse quadro desolador, agravado pela ausência, no cenário internacional, de estadistas dignos do nome, é de louvar o gesto da diplomacia brasileira. Ela resolveu agir, em vez de limitar-se a lançar nobres palavras ao vento.

(25/07/2014)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O máximo togado - arroubos e preconceito


Seria tolo considerar a grosseria reincidente, renitente, d'El Justicero no trato com seus pares do STF, a sua postura intragável de 'vestal do prostíbulo', como uma resposta contundente, em alguma medida eficaz (e, daí, politicamente interessante) a uma sociedade racista. Não vejo a grosseria como outra coisa que grosseria, mera. Da mesma forma, é um tanto grotesca a circunstância de um juiz (e juiz da mais alta Corte!) arrogar-se o papel de promotor, insinuando e até acusando colegas de agir como advogados do crime. E é deplorável alguém, graduado que seja, supor que a sua interpretação do Direito seja a única justa, decente, a única digna de existir.

Isso posto, não dá para não notar a coloração indisfarçavelmente racista da coluna de R. Noblat publicada hoje (19/8/2013) n'O Globo, toda ela um rodeio para dizer: "-Escuta, ô crioulo, é bom você tratar de se comportar, pois é sabido que você chegou aonde está por uma condescendência, mais que por mérito." Recado da casa-grande ao egresso da senzala.

Lembrei-me, imediatamente, do bizarro panegírico escrito pelo imortal Carlos Castelo Branco, o Castelinho, para Raimundo Sousa Dantas, nosso primeiro embaixador negro. Não há como descrevê-lo, é preciso transcrever um trecho. Leiam os de estômago forte:

"No Palácio do Planalto, procedeu como devia: com esforço, dedicação, tato, procurando servir, defendendo quase selvagemente suas prerrogativas (...). Entendeu logo que sua escolha se prendia, em grande parte, à circunstância de ser negro. Comportando-se como um civilizado, um ocidental, a fisionomia enobrecida pela calva e os óculos, a presença física valorizada pela roupa de bom-gosto e limpa, Raimundo Sousa Dantas não vai cometer gafes em Acra. Quando muito, o que persiste nele de primitivo - os impulsos quase assassinos e um certo mas passageiro descontrole nas paixões - temperarão uma ou outra reação, dessas que reajustarão às raízes essa negra flor cartesiana." (Senhor, outubro de 1961)