terça-feira, 23 de abril de 2013

milagres de pyongyang


A Coreia do Norte opera um milagre. Embora seja um país bastante fechado, quase imperscrutável, embora as agências de notícias raramente se ocupem de seus costumes e dia-a-dia (excetuando-se uma caricatura aqui, outra ali), embora a maioria dos jornalistas estrangeiros nunca ande por lá, basta um fato – no caso, a elevação da tensão na Península Coreana – trazer o país ao noticiário para pipocarem, de todos os lados, ´especialistas` cheios de certezas sobre aquela nação asiática.
Um milagre, milagre.
Por esses dias, a Globonews exibiu um Sem Fronteiras enjoativo, tamanho o contraste entre a escassez de informação relevante e a descarga de adjetivos raivosos empregados pelo editorialista para caracterizar aquele regime e o seu líder, Kim-Jong Un. Muita opinião, muita ideologia, pouca análise, pouca investigação, pouca informação: em suma, isso que nos habituamos a chamar de jornalismo (algo na linha Seleções do Reader´s Digest).
Não vi coisa melhor noutros veículos.
Ator estadunidense, Gerard Butler protagoniza um filme que acaba de estrear no Brasil, o qual, por coincidência (coincidência?), dramatiza um ataque de terroristas norte-coreanos à Casa Branca. E ele nos ensina: “(...) no filme eles estão fazendo o que sempre fazem: sendo agressivos. Não estamos dizendo que eles são necessariamente maus. Estamos falando de terroristas” (O Estado de SP, 17/04/2013). Eis uma informação, também ela, inquietante.
Pouco sabemos sobre aquele país, de quase 30 milhões de habitantes e uma História que precede a Era Cristã. É difícil, ao menos para mim, avaliar o grau de compromisso do governo norte-coreano com a paz e a segurança internacionais. Podemos, no entanto, afirmar, pois a História o registra, que aquele país jamais lançou bombas atômicas noutro país. A Coreia do Norte nunca patrocinou a deposição de chefes de Estado estrangeiros, e não se envolve em conflitos bélicos desde a sangrenta guerra fratricida de 60 anos atrás. Uma guerra manipulada, de um lado e de outro, pelas nações que naquele então dividiam entre si a posse da Terra.
Não seria razoável, Mr. Butler, supor que a tensão atual (e a “agressividade” a que o senhor se refere) tenha lastro em feridas deixadas por aquela guerra que ninguém sabe ao certo se terminou?


Nunca andei por aquelas bandas, e não sei quantos dos nossos opinionistas de plantão lá estiveram. Mas, para alívio da nossa ignorância, o contribuinte brasileiro paga um sujeito para representar nossos interesses em Pyongyang, chefiando a embaixada do Brasil. O embaixador Rodrigo Colin, portanto, colhe informações in loco, e concedeu uma ótima entrevista ao Estadão, publicada no último dia 5/04.
Foi uma oportunidade de desconstruir o estereótipo grotesco, preconceituoso, de indisfarçável tonalidade etnocêntrica, que retrata os norte-coreanos como imprevisíveis, irracionais e suicidas.
Segundo o embaixador Colin, o principal objetivo das armas nucleares norte-coreanas é garantir a dissuasão. A legislação do país estabelece que elas só podem ser utilizadas para repelir uma invasão ou retaliar um ataque perpetrado por uma potência nuclear.
Aliás, nesse ponto, é preciso que se diga que a chamada comunidade internacional impediu a Coreia do Norte de obter um reator nuclear para fins pacíficos. O país não vive às escuras, hoje, por opção deliberada de seus líderes.
Mas volto ao embaixador Roberto Colin. Ele nos diz que os norte-coreanos aprenderam com a experiência de países que não puderam se defender, como a Iugoslávia, o Iraque e a Líbia, e não querem seguir o mesmo destino. Na lógica norte-coreana, diz o embaixador, as armas nucleares são a última garantia de que não serão atacados. Ou seja, o seu único instrumento de barganha.
Foi a existência de arsenais nucleares que, na Guerra Fria, tornou inexpugável a China comunista. É a existência de acesso a arsenal atômico que garante Israel, como garante a Índia e o Paquistão. Se os arsenais nucleares norte-americanos garantem a Coreia do Sul, quem garantirá a incolumidade do Irã e da Coreia do Norte? Esses países aprenderam que o Iraque foi devastado, destruído, não porque possuísse armas atômicas, mas por não as possuir.
Segundo o nosso embaixador, “O que eles [os norte-coreanos] desejam é a normalização das relações com os EUA e o reconhecimento do status de potência nuclear, como ocorreu com a Índia e Paquistão”.
Devo dizer que não me parece incompreensível ou inusitado que um regime, simpatizemos ou não com ele, busque a sua própria sobrevivência e a inviolabilidade do seu território. Estranho seria não fazê-lo. Estranho, por exemplo, é o Brasil não considerar, de fato, estratégico dispor de um programa espacial que ajude a garantir a defesa de seu território de mais de 8 mil km².
O representante brasileiro acrescenta que os norte-coreanos têm sinalizado com a disposição de realizar mudanças, mas que isso é muito difícil no cenário atual. Cito mais uma vez o embaixador Colin: “Caso EUA e Coreia do Sul persistam em colocar a condição de que primeiro o Norte tem que se desarmar para depois haver um diálogo, creio que o impasse continuará.”
Habituamo-nos a olhar para outros povos, suas culturas e seus governantes de maneira depreciativa, caricata, reagindo, como cães de laboratório, aos estímulos que nos enviam as agências de notícias do hemisfério Norte. Será que a Coreia do Norte, com as bravatas de seu líder máximo, não poderia operar um novo milagre, aos abrir nossos olhos para essa nossa infeliz condição?

segunda-feira, 15 de abril de 2013

maioridade penal


Todo assassinato é horroroso, e deveria causar indignação. Alguns, contudo – e a legislação reconhece isso – são especialmente horrendos, por envolverem circunstâncias agravantes, como o ‘requinte’ de crueldade ou a motivação torpe, fútil. Quando ganham as páginas e bytes do noticiário, crimes desse tipo costumam suscitar, em muitos de nós, desejo de vingança, e surgem vozes exigindo que o Estado realize, por nós, esse nosso desejo.

O roteiro é conhecido. Quando o criminoso é menor de idade, como nesse caso de latrocínio ocorrido outro dia em SP, o padrão é que vozes reivindiquem a panaceia da ‘redução da maioridade penal’. Ocorre que – dizem entendedores do assunto e digo eu também – esse tiro no crime, se por um lado poderia aliviar um tantinho nosso demônio vingativo, de pouco serviria para aumentar nossa segurança. É certo, ou bem provável, que a perspectiva da impunidade favoreça a prática do crime. No entanto, estão aí os números, a esmagadora maioria dos menores apreendidos não tem envolvimento em homicídio.

E há que se considerar que a maioridade penal terá, sempre, um bom grau de arbitrariedade. É como definir a idade em que as pessoas podem transar (e não esqueçamos: no século XIX as brasileiras eram casadas por volta dos quatorze!). A maioridade atual poderia ser adiada para os 21, coincidindo assim com o antigo marco da capacidade plena, e com um desenvolvimento mais avançado, dizem, do córtex cerebral. Poderia, também, ser reduzida para os 16, a idade a partir da qual podemos votar. Mas nada disso extinguiria a inimputabilidade: abaixo da idade estabelecida, todos estaríamos, por assim dizer, de mãos livres para o desatino. E, em qualquer hipótese, continuaríamos com esse sistema penitenciário que até o ministro da Justiça reconhece ser falido - apenas reduzindo ou aumentando sua exagerada superlotação, conforme o caso.

E então, o que fazer? Talvez apostar em outras medidas que pareçam mais efetivas no combate ao crime, como a redução do apartheid social e o uso de inteligência na repressão. Sem, porém, alimentar a ilusão de que iremos banir o horror de nossas vidas, de uma vez e para sempre.



domingo, 14 de abril de 2013

toda transação é um salto no escuro



Em Brasília não vige o sistema capitalista. Muito menos o socialista. Na verdade, não está claro que haja algum sistema. As coisas são como são e a gente vai levando, tentando fazer o que dá. 
Ou nem tanto.

sábado, 13 de abril de 2013

Espalhafato

Não sei se é impressão, se estou frequentando os lugares errados, mas parece haver, no mercado, uma hegemonia do espalhafatoso. Se você procura uma armação de óculos, se depara com uma pletora de formatos inusitados, tamanhos inverossímeis, tudo adornado por frisos assim e assado, de cores cítricas, às vezes fluorescentes. Isso na seção masculina. Uma vitrine de loja de material esportivo só pode ser contemplada de ouvidos tampados, tantas as cores gritantes. Já vejo o dia em que terei que recorrer a um contrabandista, na calada da noite, para obter, por um valor extraordinário, uma gravata preta.

 

Sobre uma polenta na TV




Se vivêssemos numa cultura em que fosse difundido o respeito ao próximo, o humor tolo e grosseiro do Pânico na TV poderia, na minha opinião, ter um caráter transgressor - e, desse ponto de vista, talvez até interessante (afinal, o contraste é uma bela arma do humor). Mas não é esse o caso. Aqui, na terra do 'farinha pouca, meu pirão primeiro', onde pouco se diz 'por favor', 'obrigado', menos ainda 'desculpe', e os espaços de uso coletivo costumam ser utilizados do jeito que a gente sabe, o que os caras fazem parece apenas uma caricatura do nosso comportamento cotidiano. Uma caricatura tão sutil, isto é, tão próxima do original, que nem passa como tal. Da mesma forma, a contra-intimidação de Gerald Thomas, enfiando a mão por baixo do vestido da menina, longe de transgressora, é apenas uma versão - talvez mais ousada, mas não necessariamente - do comportamento usual de muitos homens na balada. E ilustra, queira ele ou não, a tradicionalíssima noção de que 'se ela tá vestida assim, é porque tá querendo...'. Ou seja, aqui onde a regra é a reivindicação cotidiana do direito ao abuso, o encontro do Pânico com Thomas é simplesmente um espetáculo tedioso, com sabor de dèjá vu.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Apagou?



Uma reflexão sobre o tema. Estamos às portas de uma crise de abastecimento, de consequências lamentáveis para um país que precisa crescer de modo sócio-ambientalmente equilibrado. Entre as causas dessa crise que se avizinha se acham a impossibilidade de construirmos usinas nucleares (em que pese possuirmos valiosas reservas de urânio), e a impossibilidade de construirmos hidrelétricas (em que pesem os nossos invejáveis recursos hídricos). Reflexo disso é que Angra III leva 35 anos de atraso, e o projeto de Belo Monte igualmente se arrasta por décadas (as kafkianas dificuldades enfrentadas pela usina paraense irão certamente inibir a implementação de outras hidrelétricas na região amazônica). Ora, esses atrasos e essas dificuldades são apaixonadamente aplaudidos por boa parte da população mais educada e bem nutrida do país, justamente a parcela que mais consome energia elétrica e usufrui das benesses do desenvolvimento econômico. É uma gente que se comove com o mito arcaico da natureza "pura", intocada, embora se beneficie à larga da mineração, da exploração do petróleo, do produto das térmicas a gás, do consumo desenfreado. Caminhonetes 4x4 movidas a diesel circulam por nossas cidades levando, em regra, apenas um ou dois passageiros e estampando belos adesivos de apoio a "causas ambientais", ou de amor genérico à "natureza". Do outro lado da moeda, isto é, em contraste com os que consomem muito, estão os milhões de brasileiros que mal consomem, aqueles só agora começam a aceder a confortos típicos da segunda metade do século passado, como a geladeira e o aparelho de TV. 

A crise energética tem uma virtude que havemos de aproveitar. Ela traz um choque de realidade que deve nos obrigar a refletir sobre o nosso modelo de desenvolvimento e os valores em que ele se assenta. Ora, se não podemos ter a desfaçatez de tentar dissuadir o agricultor do semi-árido nordestino de aumentar o seu consumo de energia elétrica (de zero para alguma coisa), tampouco podemos deixar de advertir a classe dominante de que seu padrão de consumo - entre compulsivo e alucinado - é insustentável sob qualquer ponto de vista. Nesse contexto, o individualismo é posto em xeque, e assoma a noção de coletividade. A questão é saber se uma sociedade racista e escravocrata, que sempre abraçou o lema "farinha pouca, meu pirão primeiro", e onde até os mais educados exibem aversão ao conhecimento, estará disposta a realizar a primeira revolução voluntária da história, em que o topo da pirâmide altera radicalmente seu padrão de consumo (passando a reduzir, re-utilizar e reciclar) para que os outros 4/5  possam incrementar o seu. E, além disso, a produção industrial possa crescer de modo a gerar empregos, beneficiando-se de uma matriz energética diversificada e integrada - orientada por uma racionalidade que se afaste tanto de um desenvolvimentismo irresponsável e autoritário quanto de um obscurantismo xiita.

A resposta parece ser "não". E então, que fazer?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Ode ao invasor (2009)



Com a epopeia racista O sobrevivente, anuncia-se melancólica a despedida de um grande cineasta

Werner Herzog é um cineasta atraído pelo estranho, pelo não-familiar, como demonstram o tenebroso clássico Nosferatu, a comédia bizarra Também os anões começaram pequenos, e obras como Fata Morgana e O enigma de Kaspar Hausen. É, ainda, um artista interessado pelo confronto do homem com os limites de sua condição, tema abordado em Fitzcarraldo, em Aguirre, a glória dos deuses e no recente O homem urso, documentário sobre o convívio – de trágico desenlace – de um ambientalista norte-americano com os ursos do Alaska. Assim, não é de surpreender que esse bávaro sexagenário se tenha interessado pelo relato de Dieter Dengler[1], piloto estadunidense de origem alemã capturado pelos vietcongues durante a Guerra do Vietnã. É evidente, também, que o cineasta alemão tinha consciência de que, neste caso, a dramatização da experiência individual de confronto com uma situação-limite necessariamente implicaria um posicionamento político. Isto porque, para desgosto de sofisticados críticos e estudiosos de cinema que prefeririam ver a sétima arte a salvo das máculas dessa coisa suja que é a política, a Guerra do Vietnã é um tema incontornavelmente... político.

Isso dito, cabe examinar que efeito político estaria buscando alguém que, em 2006 (praticamente, portanto, no trigésimo aniversário do fim das agressões), se dedica a produzir um longa-metragem sobre aquele conflito armado. Afinal de contas, a Guerra do Vietnã – que pôs fim às vidas de algo como dois milhões de vietnamitas e 58 mil norte-americanos – é hoje um tema relativamente distante até para os nativos daquele país, os quais, sedentos de investimento estrangeiro, receberam o Presidente Clinton no ano 2000 com festa e trêmulas bandeirinhas.  O Vietnã mais próximo do espectador contemporâneo é, portanto, o Iraque, e podemos afirmar sem hesitação que um recado sobre o Vietnã, em 2006 ou em 2009, é um recado sobre o Iraque.

E o Iraque é isso que temos visto: uma invasão imperialista extemporânea, baseada em justificativa fraudulenta, que até o momento já cobrou a vida de mais de três mil soldados estadunidenses (recrutados preferencialmente na classe-média baixa das áreas desindustrializadas daquele país, onde grassa o desemprego e a falta de perspectivas) e mais de meio milhão de iraquianos, entre militares e civis, além da destruição da infra-estrutura local. Um conflito que se prolonga indefinidamente, como se prolongara o Vietnã, sem que os agressores articulem sequer um plano de retirada[2], e gerando subprodutos de triste memória, como as torturas de Abu Ghrabi e o campo de concentração de Guantánamo, erguido em território invadido da República de Cuba. Em suma, uma catástrofe humanitária e um desastre político de tal ordem que nem mesmo o candidato do Partido Republicano ousou defendê-la com todas as letras na última campanha presidencial dos EUA.

Por outro lado, os filmes sobre o Vietnã são uma hoje uma modalidade do cinema hollywoodiano, contando com dezenas de produções entre clássicos e enlatados, de modo que uma nova produção sobre o tema está necessariamente em diálogo com essa tradição. Tradição que, em alguns de seus momentos de maior brilho, esteve distante da apologia à agressão: em M.A.S.H., Robert Altman ridiculariza a guerra, retratando-a como um evento absurdo levado a cabo por militares estúpidos e inconsequentes, destituídos de glória; Nascido para matar e Apocalypse, now, de Stanley Kubrick e Francis Ford Coppola, respectivamente, mostram a guerra como o domínio do horror, o mergulho na insanidade, o aflorar do que existe de pior na natureza humana. Mas talvez a mais emblemática, a mais contundente produção sobre o conflito seja o documentário Corações e mentes (Hearts and Minds, 1974), de Peter Davis. Neste filme, realizado no apagar das luzes do conflito e com imagens colhidas no front, o cineasta desconstrói o discurso triunfalista norte-americano, contrapondo-o à dor dos vitimados pela invasão. Que espectador poderia espancar da memória o plano-sequência em que, ao pranto desconsolado de um menino vietnamita à beira da cova do pai, pranto que se prolonga por longos segundos de dor, contrapõe-se a tranquila empáfia de um militar estadunidense de alta patente, o qual se põe a teorizar sobre a indiferença dos orientais em face da morte? Além de retratar a pobreza e o sofrimento dos vencedores, Corações e mentes dá voz ainda aos militares dos EUA mutilados e traumatizados pelo conflito, e põe em cena o duro aprendizado da distância entre a realidade e o ufanismo belicista.

O mote de O sobrevivente, no entanto, é a solidariedade ao agressor. Sabemos, a história nos conta, que os pilotos norte-americanos invadiam o espaço aéreo do Vietnã para lançar bombas e napalm sobre as tropas resistentes e os plantadores de arroz, e que isso cobrou as vidas de milhares de cidadãos daquela pobre nação asiática. No entanto – pasmem! – é o sofrimento de um desses pilotos e de seus colegas invasores que Herzog escolhe retratar. Cena após cena, somos levados a nos penalizar pelos suplícios que esses infelizes cativos enfrentam nas mãos de seus algozes (como se fossem eles, digamos, turistas em férias apanhados por malfeitores), um dos quais inclusive apelidado de ‘Hitlerzinho’, por sua destacada maldade. Ironia das ironias: sabemos nós e o sabe Herzog que Adolf Hitler foi um invasor, um expansionista cioso de sua crença na supremacia de seu povo, e o apodo recai, aqui, sobre um sujeito que reage violentamente contra aqueles que invadem seu país, convencidos de sua (deles) superioridade.

Pois O sobrevivente é, basicamente, um filme racista. Poucas vezes, desde os velhos filmes de Tarzan, terá o cinema apresentado uma tal dicotomia étnica, sustentada sem vacilo do primeiro ao último fotograma.  Ao longo de todo o filme, as falas dos nativos sequer são traduzidas, restando assim um ruído, uma algaravia sem sentido – claro sinal de que, para o diretor, pouco importa o que aquela gente tem a dizer. Não é assim nos filmes do rei da selva, quando os civilizados ocidentais se deparam com imperscrutáveis línguas tribais, que apenas reforçam o exotismo dos seus falantes? Herzog foi também cuidadoso na distribuição de atributos psicológicos, ficando os norte-americanos com as variações do temor, da coragem, da solidariedade, da tenacidade e da ironia, enquanto os guardiões orientais limitam-se a executar tarefas repressivas e a explodir em risos sádicos e bestiais demonstrações de fúria. Essa humanização de uns e desumanização de outros é sintetizada muito objetivamente na escolha dos nomes dos personagens: de um lado, Dieter, Norman, Farkas; de outro, os apodos ‘Little Hitler’, ‘Crazy Horse’, ‘Jumbo’. Aliás, é este último personagem vietnamita, um anão gracioso em sua obtusidade, quase um animalzinho, que recebe dos norte-americanos esse apelido entre carinhoso e sarcástico por sua pouca estatura e disposição servil, é Jumbo quem melhor oferece um contraste para a heróica caracterização de Little Dieter: este, um líder nato, de inabalável superioridade moral, inatingível em sua astúcia, em seu bom humor frente às adversidades, sua impermeabilidade à reflexão (em algum momento Dieter se pergunta se teria sido acertado lançar-se ao extermínio de plantadores de arroz? Nunca).

A sequência final de O sobrevivente é de tal modo intragável que até mesmo o hebdomadário brasileiro Veja – cujas idiossincrasias, inclusive no que toca à apreciação da produção cultural hegemônica, são bastante conhecidas – teve que reparar-lhe o açucarado triunfalismo.  Já se disse que o passado é imprevisível, e da mesma forma como estadistas aposentados apressam-se em reescrever a História em suas caudalosas memórias (Henry Kissinger, por exemplo, teria conhecido um apego à democracia e aos direitos humanos ao recriar sua vida pregressa), a sétima arte, com eficácia talvez maior, pode dar testemunho convincente do que nunca existiu – como por exemplo, a liberação de Auschwitz por tropas dos EUA, retratada em A vida é bela. Assim, o grotesco ufanismo de empréstimo com que Herzog encerra seu filme oferece àqueles que, como ele, se solidarizam com o intervencionismo norte-americano, o agradável contentamento por uma vitória que jamais ocorreu (o truque é confundir a vitória pessoal do piloto com um triunfo militar de seu país de adoção) – e assim, quem sabe, prepare corações e mentes para a difícil tarefa de chamar de êxito o pântano iraquiano.

Findo o suplício – o de Dieter e o nosso – fica a pergunta: reacionarismo à parte, o que leva um artista de renome a descer tão baixo, no apagar das luzes de sua brilhante carreira? O que justificaria um oportunismo tão rasteiro? E fica ainda a tristeza de ver, à frente de projeto tão abertamente racista, um representante de uma geração alemã que, nascida em plena II Guerra Mundial, conheceu de perto as desastrosas consequências do ódio racial.


[1] Antes de O sobrevivente (Rescue Dawn, 2006), Herzog já havia realizado o documentário Little Dieter Needs to Fly (1997), relatando a proeza do piloto.
[2] Em seu discurso de posse, Barack Obama mostrou-se sensível ao problema dos “americanos valentes que acordam nos desertos do Iraque e nas montanhas do Afeganistão para dar a vida por nós”. É previsível, no entanto, que encontre dificuldades para trazer esses bravos soldados de volta à casa, tendo em vista que eles são em sua maioria mercenários (não voltam, portanto, ao salário da caserna, mas às filas do seguro-desemprego) e o país enfrenta uma crise econômica cuja gravidade o próprio Presidente tem insistido em enfatizar.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Brasil nunca existiu


A tragédia ocorreu na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro.
Tudo começou quando dois policiais militares resolveram, antes de parar para o almoço, circular pelo pilotis de um velho conjunto habitacional aparentemente abandonado (mas não desabitado), e nessa pescaria flagraram dois rapazes vendendo trouxinhas de maconha. Não houve argumentar: um deles garantiu ser menor de idade, mas, não tendo como comprová-lo, e exibindo uma barba por fazer que parecia desmenti-lo, seguiu com o cúmplice para a viatura policial. 
(Justiça seja feita: os homens da lei, diligentes na manutenção da ordem, fizeram uso da força de modo limitado, naquele caso, privando-se dos cascudos habituais.)
A caminho do distrito, na altura de Irajá, avistaram uma pequena maravilha: um Fiat Uno, branco, tão recheado de computadores e outros equipamentos de informática que tinha o banco traseiro rebaixado, para acomodá-los. Não hesitaram, nossos heróis, em estacionar ali mesmo, no meio da pista, para abordar, com grandes esperanças, os dois sujeitos que levavam o veículo suspeito. Ainda verificavam a documentação do condutor quando se deu o inesperado. Um caminhão Mercedez-Benz, circulando em alta velocidade (embora carregado de carne de frango), perdeu o freio e chocou-se violentamente contra a traseira da viatura. Com o choque, os dois soldados foram lançados para a outra pista, e logo colhidos por um ônibus clandestino.
A desgraça levou quatro almas para o céu. Se é que foi esse o seu destino.
Na delegacia, um dos sobreviventes do desastre, que chamaremos de Jorge, parecia ainda não acreditar no ocorrido. Talvez tampouco acreditasse que ainda pudesse estar vivo. Explicou que montara um pequeno negócio de importação com o primo de sua esposa, o qual tinha um cunhado que comprava mercadorias em Ciudad del Este e as remetia, por vias alternativas, através do Paraná. Famílias empreendedoras. Ao seu lado, o citado primo dormitava, dando seguimento ao que fazia no momento da infeliz abordagem. Admitiu que não pregara o olho na noite passada, e afinal confessou o seu vício: católico praticante, costumava varar as madrugadas assistindo aos programas televisivos da Canção Nova. Embora mulher e filha se queixassem do excesso, era algo que ele simplesmente não podia controlar. Sob o olhar incrédulo dos investigadores, regressou afinal à vigilia e, com voz afinada, entoou: “Hoje te trago um recado / Daquele que um dia passou pela dor / Hoje te trago a esperança / Daquele que a morte em vida mudou”.
Nada daquilo pareceu fazer algum sentido.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Olhai por nós - parte I


F., cirurgião-dentista bem–sucedido, vive numa casa de vários quartos no Lago Sul, em Brasília. É casado com uma juíza de Direito, com quem tem um bonito casal de filhos: uma moça de 17 anos que se prepara para o vestibular, e um rapaz de 20 que cursa Administração.
O que poucos sabem é que F. mantém guardado, a sete chaves, um segredo tenebroso. No início dos anos 70, auge da repressão militar, ele era um residente de odontologia, no Rio de Janeiro, ambicioso e disposto a quase tudo para crescer na futura carreira. Assim, encontrou nos porões do DOI-CODI um meio de ganhar experiência, acesso a gente influente e, de quebra, dinheiro para se sustentar por conta própria. Seu trabalho consistia, fundamentalmente, em assistir sessões de tortura de prisioneiros políticos, monitorando-lhes os sinais vitais, para evitar que viessem a expirar antes de revelar os segredos buscados pelos agentes da repressão. Às vezes cabia-lhe, também, reanimar os desfalecidos, para que o interrogatório tivesse prosseguimento.
O sentimento de culpa deixado por essa experiência é matizado, em sua consciência, por racionalizações do tipo “eu fiz o que tinha que fazer / se não fosse eu, seria outro / os militantes de esquerda também cometiam brutalidades / no fundo, contribuí para a causa da democracia” etc. Seu currículo de profissional exemplar é intocado pelas manchas desse passado sombrio. No entanto, F. é um homem intranquilo, que ingere calmantes com frequência. Gritos, gemidos e rostos de vítimas da repressão aparecem-lhe com assiduidade, tanto em sonhos como em horas de vigília. A pior dessas assombrações, a mais presente, é uma jovem professora de História, recém-casada e mãe de uma menina de um ano. Considerada líder de uma célula “terrorista”, a jovem foi seviciada com extremo sadismo e afinal jogada ao mar de um helicóptero, praticamente morta – processo que F. acompanhou, auxiliando-o, do início ao fim.
A jovem professora aparece sobretudo quando F. experimenta momentos prazerosos na vida em família – o sexo com a esposa, uma viagem agradável, o aniversário de um filho – como a cobrar-lhe a felicidade conjugal de que foi privada. Por vezes, F. vê no rosto de uma desconhecida qualquer os traços daquela professorinha, quarenta anos passados. Teria ela sobrevivido, contrariando toda lógica?
As aparições misteriosas, os pressentimentos incômodos e a sensação de perseguição se intensificam à medida que F. se informa, pelo noticiário, da intenção do governo de instalar uma Comissão da Verdade, que irá identificar (e punir, ele assim o entende) os agentes da repressão dos anos de chumbo, a exemplo do ocorrido na Argentina e no Uruguai. O fato de não ser militar não o tranquiliza: F. sente que é questão de tempo para que o desmascaramento afinal ocorra, fazendo ruir sua vida conjugal, profissional – sua vida, enfim. O noticiário sobre a Comissão se amplifica em sua cabeça, o obseda, e pessoas na rua, no trabalho, parecem fitá-lo de modo malicioso, ou hostil, como se já soubessem de tudo.  

Olhai por nós - parte II


F. está aterrorizado, e precisa agir. Quer encontrar a professora de História, explicar-se e pedir perdão. Quer fazê-la ver que ele não é mais aquele jovem inconsequente, e sim um homem maduro, ciente de seus deveres, bom pai de família, que se comove com o sofrimento alheio e se arrepende do mal que causou. Pode inclusive ajudá-la financeiramente, como forma de compensação. Viaja ao Rio atrás de seus rastos, imaginando poder encontrá-la viva. Localiza-lhe a filha, com quem chega a trocar algumas palavras, sem se identificar. Procura generais reformados, inquire-os sobre o paradeiro da infeliz: tudo leva a crer que ela, como seria de esperar, está de fato morta há muitos anos, havendo seus restos virado repasto da fauna marinha.
De volta à capital, F. tem dificuldade em se concentrar no trabalho e aparentar normalidade aos olhos da família. Esquece-se de coisas importantes, atrapalha-se com tarefas cotidianas, demonstra ansiedade: todos notam que está diferente, esquisito. Sem sucesso nas tentativas de fazê-lo se abrir, a juíza insinua que ele deveria buscar o auxílio de um psiquiatra. Ele, porém, resiste à ideia de se confidenciar com alguém da área médica, sempre temendo a delação. E sente, por meio de pequenos sinais misteriosos (vozes, vultos, objetos que somem e reaparecem), que há uma presença estranha, sobrenatural em sua vida: os aflitos do DOI-CODI, a professora à frente deles.
Pressionado pelo desespero, vendo-se sem saída, F. deixa de lado o racionalismo, que não lhe traz sossego, e procura uma vidente de quem ouvira falar. A mulher lê sua sorte numa borra de café, diagnostica que ele vive um momento de retorno do passado, escreve num guardanapo e entrega-lhe um aforismo de Heráclito de Éfeso, sobre a necessidade de “se livrar dos mortos”. Por vias tortuosas, F. chega, em seguida, a um médium que atende numa espécie de choupana, em Águas Lindas de Goiás (nome que sempre lhe pareceu grotescamente irônico). Mestre Raimundo, como é chamado aquele mulato alto, de traços rudes, promete-lhe entrar em contato com a “entidade” que o assombra. Ao fim de um ritual que, aos olhos de F., combina charlatanismo descarado com fenômenos verdadeiramente inquietantes, o Mestre lhe fala, com expressão enigmática e voz feminina: “Você não dorme enquanto eu não dormir”.
F. volta para casa, deita-se ao lado da esposa que ressona e, de fato, não consegue conciliar o sono até o raiar do dia, quando enfim cochila, não muito antes de o despertador arrancá-lo da cama para mais um dia de trabalho. A insônia se repete à noite. No noticiário, F. vê que o projeto da Comissão da Verdade ainda se arrasta, atacado por setores conservadores – sobretudo militares da reserva – e visto com desconfiança pela grande imprensa. O presidente da República defende a instalação da Comissão, a necessidade de investigar o paradeiro das vítimas da ditadura, porém assegura que em seu governo “não há lugar para revanchismo”. Isso, porém, não tranquiliza F., e na realidade tampouco aumenta sua aflição: desde o início da insônia (ele dorme cada vez menos, até passar a atravessar todas as noites e dias em vigília) o cirurgião se vê tomado de uma modorra irresistível, o raciocínio torna-se lento e decresce sua vontade de interagir com o mundo.
O que segue é o declínio acelerado da vida de F.: a saúde o abandona progressivamente; o casamento não sobrevive; os filhos se distanciam, horrorizados com sua situação e comprometidos com a própria felicidade; as investigações dos neurologistas sobre sua patologia se revelam infrutíferas e ele, mais e mais debilitado física e psicologicamente pela falta de sono, é afastado do trabalho e afinal aposentado por invalidez. Passa os últimos dias num sala-e-quarto pouco mobiliado, prostrado numa cama da qual nunca se levanta, assistido por enfermeiros que se revezam por turnos.
Numa noite em que se acha sozinho, diante de uma TV a que assiste quase sem decifrar o que é exibido, F. percebe a luz do banheiro acesa. Os sons provindos de lá, e uma sombra em movimento projetada na parede, certificam-lhe de que há alguém ali dentro. Ele nada faz, pois nada pode fazer. Sequer chega a se inquietar, realmente. Afinal, sai do banheiro e adentra a suíte uma mulher, vestida de camisola e enxugando o cabelo com movimentos agitados. O doutor a reconhece sem dificuldade: é a professora de História, conservada em plena juventude, apesar dos anos passados. Ela exala um perfume agradável, de banho. Apanha o controle e desliga a TV, dizendo: “-Já chega de TV, né...”. Então se senta à beira da cama e programa o despertador. Em seguida se deita sob as cobertas, abraça-o e beija-o no rosto, dizendo docemente: “-Boa noite, querido...” Apreciando, com o que lhe resta de sensibilidade, aquele aconchego, F. fica olhando para o teto, inerte, por alguns minutos, até adormecer para sempre. 

(Ilustração: Lupin)

sábado, 7 de maio de 2011

A glória de Osama, o fim de Obama (Ou: a batalha de Abbottabad e seus despojos)



Conhecido por sua oposição a Roma, o rei Pirro, comandante dos Épiros e da Macedônia, enfrentou, em 279 a.C., na região do Ásculo (hoje Ascoli Satriano, na Itália), as legiões comandadas por Publius Decius. Ao cabo de dois dias de batalha encarniçada, as forças de Pirro lograram obrigar os romanos – subtraídos em 6000 homens – a bater em retirada. No entanto, a vitória lhes custaria, aos epirotas, nada menos que 3500 baixas, dentre elas muitos de seus oficiais. O doloroso feito teria levado o rei Pirro a pronunciar uma frase que atravessou os séculos: “Mais uma vitória destas e estou perdido!”

A passagem célebre me veio à lembrança no último dia 5 de maio, quando os EUA, comandados por Barack Obama, anunciaram ao mundo o assassinato de Osama Bin Laden (aliás, no dia seguinte a um ataque que teria por alvo o líder líbio Muammar Kadhafi, e que eliminou um filho e três netos seus). Diferentemente do que sugerem os porta-vozes da White House, não terá sido esta uma vitória como a de Pirro, a cobrar um preço alto demais? Ou ainda, não terá Barack Hussein Obama, 44º presidente dos EUA, com esse feito, concluído um processo de desconstrução de si mesmo iniciado pouco após sua momentosa investidura no cargo, que causou comoção nos quatro cantos do globo? Assim me parece. Senão, vejamos.

Se o fracasso do também democrata Jimmy Carter na tomada (bem mais arriscada, é verdade) da embaixada dos EUA em Teerã, em 1978, fez a glória do aiatolá Khomeini, o êxito de Obama em Abbottabad glorificou, e eternizou, o facínora Osama Bin Laden – como, aliás, já se começa a observar (“O fim de Bin Laden muito provavelmente não vai diminuir o carisma do homem ou da ideologia que ele representava”, opina o professor Nyan Chanda, de Yale. “Ele pode estar morto, mas, de certa forma, ele venceu”, diz o cineasta Michael Moore). Afinal, que destino poderia desejar ou esperar o xeque saudita? Em face das atrocidades que perpetrou (ou se gabava de haver perpetrado), e das inimizades que, por conseguinte, angariou, a carreira de Chefe de Estado estava certamente vedada ao seu ingresso. Pelos mesmos motivos, uma pós-graduação na prestigiosa London School of Economics, ao lado de um dos filhos do coronel Kadhafi, seria igualmente improvável. As mudanças ocorridas nos últimos anos no cenário do terrorismo não-estatal e na Al Qaeda em particular – com a ampliação e pulverização das redes, à semelhança do sistema de franchising, a ascensão de novas lideranças etc. – pareciam trazer sua aposentadoria para um horizonte próximo. Mais que isso, a recente ‘primavera’ do Oriente Médio (de floração modesta, talvez furtiva), avessa ou em todo caso distanciada do fundamentalismo religioso, acenava com um cenário em que o seu discurso, suas teses (a restauração do califado muçulmano, por exemplo) e seu método (o terror) tenderiam a encontrar menos eco no coração da juventude árabe ou islâmica – e os seus vídeos, menor audiência. Assim, uma morte por pneumonia, febre tifóide ou outra causa natural, ou mesmo por assassinato pela mão de algum inimigo menor, um correligionário descontente, provavelmente colheria um Bin Laden, senão esquecido, ao menos relegado a um papel secundário, já no seio de sua organização de futuro incerto.

Mas não: Bin Laden morreu por obra de seu maior algoz, do seu Golias, e a sua execução, em circunstâncias ainda um tanto nebulosas, reafirma alguns elementos básicos de suas incansáveis invectivas anti-Ocidente, anti-EUA em particular. Prepotência, arrogância, brutalidade, menosprezo pela lei (a ONU agora se vê no constrangedor papel de ‘pedir informações’ a respeito da empreitada), tortura de preso político (ou "técnicas aprimoradas de interrogatório", na criativa formulação de Mr. Panetta, diretor da CIA), desrespeito a país de maioria islâmica, bem como aos ritos dessa religião... tudo isso foi ingrediente do desembarque dos Seals, unidade criada após o fiasco em Teerã, na misteriosa ‘mansão’ de Abbottabad. Tudo isso, portanto, ajudará a manter viva a palavra do xeque em corações e mentes de homens e mulheres oprimidos por governos ineptos, corruptos, fiéis a Washington e à sua sede de petróleo. Não sem razão, entenderão que o mártir se foi pela mão dos ‘novos cruzados’. Como sintetiza um seu aliado, o xeque sírio Omar Bakri Muhammad: “Osama sempre buscou o martírio. Ele sempre quis morrer como um mártir. Bin Laden teve o que desejava.”

A sequência de desmentidos das autoridades norte-americanas, apresentando versões distintas, desencontradas para o justiçamento (Osama estava/não estava desarmado; estava desarmado mas ainda assim resistiu; usou/não usou mulheres como escudo etc.), numa espécie de enredo à Mel Brooks, pôs a nu um império envergonhado, hesitante, receoso de exibir todo o esplendor de sua prepotência – algo só comparável, pelo inusitado, ao que testemunhamos quando as tropas de Bush Jr. invadiram o Afeganistão despejando bombas e... mantimentos. Não deixa de ser irônico, nesse contexto, que a nota expedida pela chancelaria venezuelana prime, de modo mais conspícuo, pela defesa de valores caros ao ‘Ocidente’, à humanidade em geral: respeito à dignidade e à soberania dos povos; recusa ao combate ao terror pelo terror; condenação da ilegalidade; e ainda a exigência de que se retirem as tropas estadunidenses do Afeganistão, aonde teriam ido – não foi isso? – à caça de Bin Laden. O Itamaraty, decerto pouco à vontade, guardou silêncio (ou preferiu se exprimir de modo sub-reptício, reproduzindo em seu site um belo artigo de José Miguel Wisnik).

Republicano à outrance, Bush Jr., todos vimos, levou o excepcionalismo norte-americano às raias do gangsterismo vulgar, perfazendo uma administração tão desastrosa, sobretudo no plano internacional – com seu unilateralismo isolacionista, sua estrambótica ‘guerra ao terror’ – que desagradou até mesmo à direita tupiniquim, ou parte dela. Estavam dadas, assim, as condições para o fascínio de dimensões globais com a candidatura e a vitória de Obama sobre o escolhido de Bush. Antes de mais, Obama representava concretamente a ascensão do negro ao poder político dos EUA (mais de meio século após o início do movimento pelos direitos civis!), enquanto os Bush, a esse respeito, não haviam podido ir além de alçar Collin Powell e Condoleeza Ricce à chefia do Departamento de Estado. Mas Obama trazia outras vantagens evidentes em relação a seu antecessor: além do charme pessoal, da retórica admirável (contrastante com a jocosa dislexia de Bush), uma biografia e uma bagagem cultural que acenavam para um cosmopolitismo ausente no texano (cuja experiência internacional, ao assumir o governo, se resumia a pernoites no México e na Jordânia, acompanhando o pai presidente), e um nome de batismo que, se causava urticária no tea party, parecia sintetizar sua capacidade de criar pontes entre mundos, especialmente entre um Islã e um Ocidente supostamente apartados. Em tudo, Obama era um príncipe iluminista que emergia, encantador, após uma era de trevas, reacendendo a esperança. “Hope”, aliás, era uma das legendas (além de “change” e “progress”) de pôsters hoje icônicos do democrata, produzidos por Shepard Fairey sobre uma imagem da Associated Press. Eleito, Obama soube reforçar essas expectativas por meio de uma retórica adornada por elegante prosódia, seja no discurso de posse, em que matizou referências belicistas com convites ao diálogo, seja no impactante discurso proferido na Universidade do Cairo (no Egito então comandado pelo ‘exemplo de árabe moderado’ Hosni Mubarak), em que combinou citações do Alcorão com menções aos 7 milhões de muçulmanos vivendo nos EUA e frases do tipo “devemos nos focar no que nos aproxima, e não no que nos separa”. Sucesso estrondoso.

A trajetória do presidente de lá para cá, no entanto, talvez com o interstício da reforma do sistema de saúde, segue uma lógica de desconstrução desse Obama emerso das urnas (desconstrução acelerada, é possível, após a perda de maioria na Câmara, e enfraquecimento no Senado): o generoso pacote de resgate financeiro das instituições que levaram a economia à bancarrota, arrastando mercados no mundo todo; a manutenção do abono tributário às grandes fortunas; o distanciamento em relação a sindicatos e movimentos sociais que ajudaram a elegê-lo (“É como se Obama estivesse fazendo campanha contra si mesmo”, resumiu o economista Michael Hudson no artigo “A rendição de Obama aos super-ricos”); o recuo em relação à extinção do campo de concentração de Guantánamo e, last but no least, a manutenção das ocupações do Iraque e do Afeganistão, o bombardeio à Líbia e a benevolência com o governo do Bahrein, a invasão do Paquistão para a execução de Bin Laden, que reforça a insegurança e a incerteza no cenário global. Diferenças à parte, fica hoje claro que Bush Jr. e Obama se igualam em pontos fundamentais, inclusive a obediência, com maior ou menor entusiasmo, à estrutura que o presidente Eisenhower batizou de complexo-industrial-militar (aliás, que mandatário romperá com ela?).

Entre o Obama original e este que aí está, o lema “Yes, we can” (“sim, nós podemos”) parece haver sofrido uma drástica metamorfose: antes, simbolizava a ascensão do ‘povo’, das massas, a auto-afirmação de uma população (estadunidense, global) excluída ou marginalizada no jogo do poder. A negritude do candidato e o recurso às redes sociais para angariar votos e fundos (embora a sua fosse uma campanha milionária, massivamente apoiada por corporações gigantescas) reforçariam essa ideia. Hoje, “Yes, we can” se mostra tradução da prepotência tradicional, apoiada no destino-manifesto: sim, nós podemos invadir, torturar, executar extra-judicialmente quem bem entendermos, se assim quisermos fazer. Nada nos impedirá. We won’t change.

Pesquisas já refletem o crescimento, pós-assassinato, da popularidade do ex-Obama ('o homem que matou o facínora`), evidente favorito às eleições do próximo ano, inclusive devido à ausência de adversários expressivos, no seu partido ou fora dele. Na internet circulam charges em que Obama diz a Donald Trump que demorou para responder sobre sua certidão de nascimento porque estava ocupado matando Bin Laden. O ex-iluminista agora exorta, em discurso para seus militares (e para o eleitorado, por suposto): “Nós cortamos a cabeça deles!”; “Nós ainda somos a América que faz as coisas difíceis, que faz coisas grandes!” Ou seja, embora ainda não tenhamos resposta concreta para o alto desemprego, embora o ritmo de recuperação da economia ainda se mostre dolorosamente lento (muito em função dos desacertos de nossas políticas), o sangue do assassino é prova irrefutável da nossa grandeza. O Nobel da Paz agora pode encarar de frente os conservadores que o vinham acossando, impiedosos, e dizer-lhes: ‘Vocês não podem me derrotar, simplesmente porque eu sou um de vocês, partilho dos mesmos valores, aplico – com maior sucesso, diga-se de passagem – as mesmas táticas; eu sou, afinal, o seu melhor representante. Derrotar a mim é derrotar a si mesmos’.

(Dado curioso, nesses dias em que Obama afinal se veste de Superman, é a informação de que, na edição nº 900, recém-lançada, da revista Action Comics, o super-herói renuncia à cidadania estadunidense, afirmando: “Estou cansado de ver minhas ações servirem de instrumento da política dos EUA.”)

Mais inquietante, no entanto, é perceber que a quase homonímia de Osama-Obama abriga outras similitudes: ambos são líderes de organizações que utilizam o terror como instrumento político (uma à margem da lei, outra acima dela), ambos frustraram as expectativas que os alçaram ao estrelato e, juntos, chegam a uma hora decisiva, em que o primeiro conhece a morte biológica, enquanto o outro padece simbolicamente.

E sob a vigência da lei de talião, entre a jihad e a ‘guerra ao terror’, nossas vidas continuarão, tudo o indica, permeadas de som e fúria, cheias de sentidos desencontrados e analogias desconcertantes.