terça-feira, 23 de abril de 2013
milagres de pyongyang
segunda-feira, 15 de abril de 2013
maioridade penal
E há que se considerar que a maioridade penal terá, sempre, um bom grau de arbitrariedade. É como definir a idade em que as pessoas podem transar (e não esqueçamos: no século XIX as brasileiras eram casadas por volta dos quatorze!). A maioridade atual poderia ser adiada para os 21, coincidindo assim com o antigo marco da capacidade plena, e com um desenvolvimento mais avançado, dizem, do córtex cerebral. Poderia, também, ser reduzida para os 16, a idade a partir da qual podemos votar. Mas nada disso extinguiria a inimputabilidade: abaixo da idade estabelecida, todos estaríamos, por assim dizer, de mãos livres para o desatino. E, em qualquer hipótese, continuaríamos com esse sistema penitenciário que até o ministro da Justiça reconhece ser falido - apenas reduzindo ou aumentando sua exagerada superlotação, conforme o caso.
E então, o que fazer? Talvez apostar em outras medidas que pareçam mais efetivas no combate ao crime, como a redução do apartheid social e o uso de inteligência na repressão. Sem, porém, alimentar a ilusão de que iremos banir o horror de nossas vidas, de uma vez e para sempre.
domingo, 14 de abril de 2013
toda transação é um salto no escuro
sábado, 13 de abril de 2013
Espalhafato
Sobre uma polenta na TV
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Apagou?
A resposta parece ser "não". E então, que fazer?
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Ode ao invasor (2009)
Isso dito, cabe examinar que efeito político estaria buscando alguém que, em 2006 (praticamente, portanto, no trigésimo aniversário do fim das agressões), se dedica a produzir um longa-metragem sobre aquele conflito armado. Afinal de contas, a Guerra do Vietnã – que pôs fim às vidas de algo como dois milhões de vietnamitas e 58 mil norte-americanos – é hoje um tema relativamente distante até para os nativos daquele país, os quais, sedentos de investimento estrangeiro, receberam o Presidente Clinton no ano 2000 com festa e trêmulas bandeirinhas. O Vietnã mais próximo do espectador contemporâneo é, portanto, o Iraque, e podemos afirmar sem hesitação que um recado sobre o Vietnã, em 2006 ou em 2009, é um recado sobre o Iraque.
E o Iraque é isso que temos visto: uma invasão imperialista extemporânea, baseada em justificativa fraudulenta, que até o momento já cobrou a vida de mais de três mil soldados estadunidenses (recrutados preferencialmente na classe-média baixa das áreas desindustrializadas daquele país, onde grassa o desemprego e a falta de perspectivas) e mais de meio milhão de iraquianos, entre militares e civis, além da destruição da infra-estrutura local. Um conflito que se prolonga indefinidamente, como se prolongara o Vietnã, sem que os agressores articulem sequer um plano de retirada[2], e gerando subprodutos de triste memória, como as torturas de Abu Ghrabi e o campo de concentração de Guantánamo, erguido em território invadido da República de Cuba. Em suma, uma catástrofe humanitária e um desastre político de tal ordem que nem mesmo o candidato do Partido Republicano ousou defendê-la com todas as letras na última campanha presidencial dos EUA.
Por outro lado, os filmes sobre o Vietnã são uma hoje uma modalidade do cinema hollywoodiano, contando com dezenas de produções entre clássicos e enlatados, de modo que uma nova produção sobre o tema está necessariamente em diálogo com essa tradição. Tradição que, em alguns de seus momentos de maior brilho, esteve distante da apologia à agressão: em M.A.S.H., Robert Altman ridiculariza a guerra, retratando-a como um evento absurdo levado a cabo por militares estúpidos e inconsequentes, destituídos de glória; Nascido para matar e Apocalypse, now, de Stanley Kubrick e Francis Ford Coppola, respectivamente, mostram a guerra como o domínio do horror, o mergulho na insanidade, o aflorar do que existe de pior na natureza humana. Mas talvez a mais emblemática, a mais contundente produção sobre o conflito seja o documentário Corações e mentes (Hearts and Minds, 1974), de Peter Davis. Neste filme, realizado no apagar das luzes do conflito e com imagens colhidas no front, o cineasta desconstrói o discurso triunfalista norte-americano, contrapondo-o à dor dos vitimados pela invasão. Que espectador poderia espancar da memória o plano-sequência em que, ao pranto desconsolado de um menino vietnamita à beira da cova do pai, pranto que se prolonga por longos segundos de dor, contrapõe-se a tranquila empáfia de um militar estadunidense de alta patente, o qual se põe a teorizar sobre a indiferença dos orientais em face da morte? Além de retratar a pobreza e o sofrimento dos vencedores, Corações e mentes dá voz ainda aos militares dos EUA mutilados e traumatizados pelo conflito, e põe em cena o duro aprendizado da distância entre a realidade e o ufanismo belicista.
O mote de O sobrevivente, no entanto, é a solidariedade ao agressor. Sabemos, a história nos conta, que os pilotos norte-americanos invadiam o espaço aéreo do Vietnã para lançar bombas e napalm sobre as tropas resistentes e os plantadores de arroz, e que isso cobrou as vidas de milhares de cidadãos daquela pobre nação asiática. No entanto – pasmem! – é o sofrimento de um desses pilotos e de seus colegas invasores que Herzog escolhe retratar. Cena após cena, somos levados a nos penalizar pelos suplícios que esses infelizes cativos enfrentam nas mãos de seus algozes (como se fossem eles, digamos, turistas em férias apanhados por malfeitores), um dos quais inclusive apelidado de ‘Hitlerzinho’, por sua destacada maldade. Ironia das ironias: sabemos nós e o sabe Herzog que Adolf Hitler foi um invasor, um expansionista cioso de sua crença na supremacia de seu povo, e o apodo recai, aqui, sobre um sujeito que reage violentamente contra aqueles que invadem seu país, convencidos de sua (deles) superioridade.
Pois O sobrevivente é, basicamente, um filme racista. Poucas vezes, desde os velhos filmes de Tarzan, terá o cinema apresentado uma tal dicotomia étnica, sustentada sem vacilo do primeiro ao último fotograma. Ao longo de todo o filme, as falas dos nativos sequer são traduzidas, restando assim um ruído, uma algaravia sem sentido – claro sinal de que, para o diretor, pouco importa o que aquela gente tem a dizer. Não é assim nos filmes do rei da selva, quando os civilizados ocidentais se deparam com imperscrutáveis línguas tribais, que apenas reforçam o exotismo dos seus falantes? Herzog foi também cuidadoso na distribuição de atributos psicológicos, ficando os norte-americanos com as variações do temor, da coragem, da solidariedade, da tenacidade e da ironia, enquanto os guardiões orientais limitam-se a executar tarefas repressivas e a explodir em risos sádicos e bestiais demonstrações de fúria. Essa humanização de uns e desumanização de outros é sintetizada muito objetivamente na escolha dos nomes dos personagens: de um lado, Dieter, Norman, Farkas; de outro, os apodos ‘Little Hitler’, ‘Crazy Horse’, ‘Jumbo’. Aliás, é este último personagem vietnamita, um anão gracioso em sua obtusidade, quase um animalzinho, que recebe dos norte-americanos esse apelido entre carinhoso e sarcástico por sua pouca estatura e disposição servil, é Jumbo quem melhor oferece um contraste para a heróica caracterização de Little Dieter: este, um líder nato, de inabalável superioridade moral, inatingível em sua astúcia, em seu bom humor frente às adversidades, sua impermeabilidade à reflexão (em algum momento Dieter se pergunta se teria sido acertado lançar-se ao extermínio de plantadores de arroz? Nunca).
A sequência final de O sobrevivente é de tal modo intragável que até mesmo o hebdomadário brasileiro Veja – cujas idiossincrasias, inclusive no que toca à apreciação da produção cultural hegemônica, são bastante conhecidas – teve que reparar-lhe o açucarado triunfalismo. Já se disse que o passado é imprevisível, e da mesma forma como estadistas aposentados apressam-se em reescrever a História em suas caudalosas memórias (Henry Kissinger, por exemplo, teria conhecido um apego à democracia e aos direitos humanos ao recriar sua vida pregressa), a sétima arte, com eficácia talvez maior, pode dar testemunho convincente do que nunca existiu – como por exemplo, a liberação de Auschwitz por tropas dos EUA, retratada em A vida é bela. Assim, o grotesco ufanismo de empréstimo com que Herzog encerra seu filme oferece àqueles que, como ele, se solidarizam com o intervencionismo norte-americano, o agradável contentamento por uma vitória que jamais ocorreu (o truque é confundir a vitória pessoal do piloto com um triunfo militar de seu país de adoção) – e assim, quem sabe, prepare corações e mentes para a difícil tarefa de chamar de êxito o pântano iraquiano.
Findo o suplício – o de Dieter e o nosso – fica a pergunta: reacionarismo à parte, o que leva um artista de renome a descer tão baixo, no apagar das luzes de sua brilhante carreira? O que justificaria um oportunismo tão rasteiro? E fica ainda a tristeza de ver, à frente de projeto tão abertamente racista, um representante de uma geração alemã que, nascida em plena II Guerra Mundial, conheceu de perto as desastrosas consequências do ódio racial.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Brasil nunca existiu
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Olhai por nós - parte I
Olhai por nós - parte II
sábado, 7 de maio de 2011
A glória de Osama, o fim de Obama (Ou: a batalha de Abbottabad e seus despojos)

Conhecido por sua oposição a Roma, o rei Pirro, comandante dos Épiros e da Macedônia, enfrentou, em 279 a.C., na região do Ásculo (hoje Ascoli Satriano, na Itália), as legiões comandadas por Publius Decius. Ao cabo de dois dias de batalha encarniçada, as forças de Pirro lograram obrigar os romanos – subtraídos em 6000 homens – a bater em retirada. No entanto, a vitória lhes custaria, aos epirotas, nada menos que 3500 baixas, dentre elas muitos de seus oficiais. O doloroso feito teria levado o rei Pirro a pronunciar uma frase que atravessou os séculos: “Mais uma vitória destas e estou perdido!”
A passagem célebre me veio à lembrança no último dia 5 de maio, quando os EUA, comandados por Barack Obama, anunciaram ao mundo o assassinato de Osama Bin Laden (aliás, no dia seguinte a um ataque que teria por alvo o líder líbio Muammar Kadhafi, e que eliminou um filho e três netos seus). Diferentemente do que sugerem os porta-vozes da White House, não terá sido esta uma vitória como a de Pirro, a cobrar um preço alto demais? Ou ainda, não terá Barack Hussein Obama, 44º presidente dos EUA, com esse feito, concluído um processo de desconstrução de si mesmo iniciado pouco após sua momentosa investidura no cargo, que causou comoção nos quatro cantos do globo? Assim me parece. Senão, vejamos.
Se o fracasso do também democrata Jimmy Carter na tomada (bem mais arriscada, é verdade) da embaixada dos EUA em Teerã, em 1978, fez a glória do aiatolá Khomeini, o êxito de Obama em Abbottabad glorificou, e eternizou, o facínora Osama Bin Laden – como, aliás, já se começa a observar (“O fim de Bin Laden muito provavelmente não vai diminuir o carisma do homem ou da ideologia que ele representava”, opina o professor Nyan Chanda, de Yale. “Ele pode estar morto, mas, de certa forma, ele venceu”, diz o cineasta Michael Moore). Afinal, que destino poderia desejar ou esperar o xeque saudita? Em face das atrocidades que perpetrou (ou se gabava de haver perpetrado), e das inimizades que, por conseguinte, angariou, a carreira de Chefe de Estado estava certamente vedada ao seu ingresso. Pelos mesmos motivos, uma pós-graduação na prestigiosa London School of Economics, ao lado de um dos filhos do coronel Kadhafi, seria igualmente improvável. As mudanças ocorridas nos últimos anos no cenário do terrorismo não-estatal e na Al Qaeda em particular – com a ampliação e pulverização das redes, à semelhança do sistema de franchising, a ascensão de novas lideranças etc. – pareciam trazer sua aposentadoria para um horizonte próximo. Mais que isso, a recente ‘primavera’ do Oriente Médio (de floração modesta, talvez furtiva), avessa ou em todo caso distanciada do fundamentalismo religioso, acenava com um cenário em que o seu discurso, suas teses (a restauração do califado muçulmano, por exemplo) e seu método (o terror) tenderiam a encontrar menos eco no coração da juventude árabe ou islâmica – e os seus vídeos, menor audiência. Assim, uma morte por pneumonia, febre tifóide ou outra causa natural, ou mesmo por assassinato pela mão de algum inimigo menor, um correligionário descontente, provavelmente colheria um Bin Laden, senão esquecido, ao menos relegado a um papel secundário, já no seio de sua organização de futuro incerto.
Mas não: Bin Laden morreu por obra de seu maior algoz, do seu Golias, e a sua execução, em circunstâncias ainda um tanto nebulosas, reafirma alguns elementos básicos de suas incansáveis invectivas anti-Ocidente, anti-EUA em particular. Prepotência, arrogância, brutalidade, menosprezo pela lei (a ONU agora se vê no constrangedor papel de ‘pedir informações’ a respeito da empreitada), tortura de preso político (ou "técnicas aprimoradas de interrogatório", na criativa formulação de Mr. Panetta, diretor da CIA), desrespeito a país de maioria islâmica, bem como aos ritos dessa religião... tudo isso foi ingrediente do desembarque dos Seals, unidade criada após o fiasco em Teerã, na misteriosa ‘mansão’ de Abbottabad. Tudo isso, portanto, ajudará a manter viva a palavra do xeque em corações e mentes de homens e mulheres oprimidos por governos ineptos, corruptos, fiéis a Washington e à sua sede de petróleo. Não sem razão, entenderão que o mártir se foi pela mão dos ‘novos cruzados’. Como sintetiza um seu aliado, o xeque sírio Omar Bakri Muhammad: “Osama sempre buscou o martírio. Ele sempre quis morrer como um mártir. Bin Laden teve o que desejava.”
A sequência de desmentidos das autoridades norte-americanas, apresentando versões distintas, desencontradas para o justiçamento (Osama estava/não estava desarmado; estava desarmado mas ainda assim resistiu; usou/não usou mulheres como escudo etc.), numa espécie de enredo à Mel Brooks, pôs a nu um império envergonhado, hesitante, receoso de exibir todo o esplendor de sua prepotência – algo só comparável, pelo inusitado, ao que testemunhamos quando as tropas de Bush Jr. invadiram o Afeganistão despejando bombas e... mantimentos. Não deixa de ser irônico, nesse contexto, que a nota expedida pela chancelaria venezuelana prime, de modo mais conspícuo, pela defesa de valores caros ao ‘Ocidente’, à humanidade em geral: respeito à dignidade e à soberania dos povos; recusa ao combate ao terror pelo terror; condenação da ilegalidade; e ainda a exigência de que se retirem as tropas estadunidenses do Afeganistão, aonde teriam ido – não foi isso? – à caça de Bin Laden. O Itamaraty, decerto pouco à vontade, guardou silêncio (ou preferiu se exprimir de modo sub-reptício, reproduzindo em seu site um belo artigo de José Miguel Wisnik).
Republicano à outrance, Bush Jr., todos vimos, levou o excepcionalismo norte-americano às raias do gangsterismo vulgar, perfazendo uma administração tão desastrosa, sobretudo no plano internacional – com seu unilateralismo isolacionista, sua estrambótica ‘guerra ao terror’ – que desagradou até mesmo à direita tupiniquim, ou parte dela. Estavam dadas, assim, as condições para o fascínio de dimensões globais com a candidatura e a vitória de Obama sobre o escolhido de Bush. Antes de mais, Obama representava concretamente a ascensão do negro ao poder político dos EUA (mais de meio século após o início do movimento pelos direitos civis!), enquanto os Bush, a esse respeito, não haviam podido ir além de alçar Collin Powell e Condoleeza Ricce à chefia do Departamento de Estado. Mas Obama trazia outras vantagens evidentes em relação a seu antecessor: além do charme pessoal, da retórica admirável (contrastante com a jocosa dislexia de Bush), uma biografia e uma bagagem cultural que acenavam para um cosmopolitismo ausente no texano (cuja experiência internacional, ao assumir o governo, se resumia a pernoites no México e na Jordânia, acompanhando o pai presidente), e um nome de batismo que, se causava urticária no tea party, parecia sintetizar sua capacidade de criar pontes entre mundos, especialmente entre um Islã e um Ocidente supostamente apartados. Em tudo, Obama era um príncipe iluminista que emergia, encantador, após uma era de trevas, reacendendo a esperança. “Hope”, aliás, era uma das legendas (além de “change” e “progress”) de pôsters hoje icônicos do democrata, produzidos por Shepard Fairey sobre uma imagem da Associated Press. Eleito, Obama soube reforçar essas expectativas por meio de uma retórica adornada por elegante prosódia, seja no discurso de posse, em que matizou referências belicistas com convites ao diálogo, seja no impactante discurso proferido na Universidade do Cairo (no Egito então comandado pelo ‘exemplo de árabe moderado’ Hosni Mubarak), em que combinou citações do Alcorão com menções aos 7 milhões de muçulmanos vivendo nos EUA e frases do tipo “devemos nos focar no que nos aproxima, e não no que nos separa”. Sucesso estrondoso.
A trajetória do presidente de lá para cá, no entanto, talvez com o interstício da reforma do sistema de saúde, segue uma lógica de desconstrução desse Obama emerso das urnas (desconstrução acelerada, é possível, após a perda de maioria na Câmara, e enfraquecimento no Senado): o generoso pacote de resgate financeiro das instituições que levaram a economia à bancarrota, arrastando mercados no mundo todo; a manutenção do abono tributário às grandes fortunas; o distanciamento em relação a sindicatos e movimentos sociais que ajudaram a elegê-lo (“É como se Obama estivesse fazendo campanha contra si mesmo”, resumiu o economista Michael Hudson no artigo “A rendição de Obama aos super-ricos”); o recuo em relação à extinção do campo de concentração de Guantánamo e, last but no least, a manutenção das ocupações do Iraque e do Afeganistão, o bombardeio à Líbia e a benevolência com o governo do Bahrein, a invasão do Paquistão para a execução de Bin Laden, que reforça a insegurança e a incerteza no cenário global. Diferenças à parte, fica hoje claro que Bush Jr. e Obama se igualam em pontos fundamentais, inclusive a obediência, com maior ou menor entusiasmo, à estrutura que o presidente Eisenhower batizou de complexo-industrial-militar (aliás, que mandatário romperá com ela?).
Entre o Obama original e este que aí está, o lema “Yes, we can” (“sim, nós podemos”) parece haver sofrido uma drástica metamorfose: antes, simbolizava a ascensão do ‘povo’, das massas, a auto-afirmação de uma população (estadunidense, global) excluída ou marginalizada no jogo do poder. A negritude do candidato e o recurso às redes sociais para angariar votos e fundos (embora a sua fosse uma campanha milionária, massivamente apoiada por corporações gigantescas) reforçariam essa ideia. Hoje, “Yes, we can” se mostra tradução da prepotência tradicional, apoiada no destino-manifesto: sim, nós podemos invadir, torturar, executar extra-judicialmente quem bem entendermos, se assim quisermos fazer. Nada nos impedirá. We won’t change.
Pesquisas já refletem o crescimento, pós-assassinato, da popularidade do ex-Obama ('o homem que matou o facínora`), evidente favorito às eleições do próximo ano, inclusive devido à ausência de adversários expressivos, no seu partido ou fora dele. Na internet circulam charges em que Obama diz a Donald Trump que demorou para responder sobre sua certidão de nascimento porque estava ocupado matando Bin Laden. O ex-iluminista agora exorta, em discurso para seus militares (e para o eleitorado, por suposto): “Nós cortamos a cabeça deles!”; “Nós ainda somos a América que faz as coisas difíceis, que faz coisas grandes!” Ou seja, embora ainda não tenhamos resposta concreta para o alto desemprego, embora o ritmo de recuperação da economia ainda se mostre dolorosamente lento (muito em função dos desacertos de nossas políticas), o sangue do assassino é prova irrefutável da nossa grandeza. O Nobel da Paz agora pode encarar de frente os conservadores que o vinham acossando, impiedosos, e dizer-lhes: ‘Vocês não podem me derrotar, simplesmente porque eu sou um de vocês, partilho dos mesmos valores, aplico – com maior sucesso, diga-se de passagem – as mesmas táticas; eu sou, afinal, o seu melhor representante. Derrotar a mim é derrotar a si mesmos’.
(Dado curioso, nesses dias em que Obama afinal se veste de Superman, é a informação de que, na edição nº 900, recém-lançada, da revista Action Comics, o super-herói renuncia à cidadania estadunidense, afirmando: “Estou cansado de ver minhas ações servirem de instrumento da política dos EUA.”)
Mais inquietante, no entanto, é perceber que a quase homonímia de Osama-Obama abriga outras similitudes: ambos são líderes de organizações que utilizam o terror como instrumento político (uma à margem da lei, outra acima dela), ambos frustraram as expectativas que os alçaram ao estrelato e, juntos, chegam a uma hora decisiva, em que o primeiro conhece a morte biológica, enquanto o outro padece simbolicamente.
E sob a vigência da lei de talião, entre a jihad e a ‘guerra ao terror’, nossas vidas continuarão, tudo o indica, permeadas de som e fúria, cheias de sentidos desencontrados e analogias desconcertantes.








