segunda-feira, 22 de junho de 2015

Sob o sol de inverno (anotações sobre futebol e política)

Desde a Copa de 2014, deixei de acompanhar os jogos da seleção brasileira masculina de futebol. A razão para isso é aversão à indignidade. Não apenas a indignidade da corrupção desmedida, mas – em primeiro lugar – a do futebol apresentado em campo. Após a Copa de 1994, com o hiato da conquista de 2002, sofremos uma sequência de derrotas indignas. Foi assim em 98, contra a França; em 2006, de novo contra a França; em 2010, contra a Holanda; culminando no apoteótico vexame contra a Alemanha, o Mineiraço, no ano passado. Indigno não é perder, mas mostrar-se aquém do combate. É, sobretudo, entregar os pontos, perdendo sem lutar – como o escrete canarinho fez em 98, 2006, 2010 e 2014.

Há derrotas dignas, até digníssimas. A Argentina, em 2014, foi valente no confronto com a favorita Alemanha: jogando mais com garra que com técnica, os hermanos lutaram até o fim e perderam na final por apenas 1 x 0. A surpreendente Costa Rica, também aguerrida, bem organizada, perdeu para a Holanda nos pênaltis. De volta à casa, os jogadores desfilaram em carro aberto pelas ruas de San José, aclamados pela multidão. 

Nos anos recentes, duas partidas de futebol me emocionaram especialmente. Na última Copa das Confederações, os japoneses fizeram a melhor partida de sua história, em Recife, contra a poderosa Itália. Dominaram os italianos, colocaram na roda seus experientes jogadores, foram impetuosos, estiveram em vantagem mas... perderam o jogo por 4 x 3. Faltou-lhes um pouco mais de malícia e de brilho individual. Foi um confronto épico: exaustos todos, os europeus saíram de campo aliviados e os asiáticos, inconsoláveis. E na Copa de futebol feminino de 2011, na Alemanha, as brasileiras enfrentaram na final as norte-americanas, para quem haviam perdido na primeira fase. Dominaram o jogo, tiveram mais posse de bola e oportunidades, explorando o talento da Marta... mas esbarraram no próprio nervosismo e na regularidade das gringas, que aguentaram a pressão. Foi uma derrota doída, mas digna.


Saindo do futebol para a política, e para o aparente fim de ciclo do chamado lulopetismo, é triste que os méritos inegáveis do time adversário, a direita, sejam ofuscados pelos erros crassos da esquerda governante: a crença na conciliação permanente; a covardia perante o desafio da comunicação; a leniência com a corrupção; a renúncia ao debate econômico. Contra tudo o que desejaríamos, vemos a economia conduzida pela tacanha ortodoxia liberal e a política, pela fisiologia desabrida do pemedebismo. Nesse quadro de permanente renúncia e envilecido acovardamento, permite-se até que um general torturador seja sepultado com honras militares. E pendura-se no pescoço de hienas famintas o colar da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.

Assim como é bisonho, em jogos da Seleção, reclamar que o adversário joga na retranca ou coisa parecida, não tem cabimento se queixar de que a direita age como direita, de que ela tem noções claras de tática e estratégia e competência para executá-las. A atual administração da Câmara dos Deputados, eivada de maquiavelismo, tem mostrado didaticamente que o choro é livre, mas não adianta espernear. 

Não sei se Beto Guedes tem razão quando diz, naquela antiga canção, que “a lição sabemos de cor.” Mas do arremate, não duvido: “só nos resta aprender”.

(Ilustração: Rubens Gerchman)

sábado, 30 de maio de 2015

O guardanapo


Por vezes, objetos triviais do dia-a-dia são retirados de sua banalidade para revelar significados múltiplos, relações diversas com aqueles que os utilizam... e até poderes ocultos. Isso se dá, em geral, pela mão de criadores de olhar aguçado.

Shakespeare mostrou como um lenço – isso, um simples lenço – pode ser manipulado de modo a alimentar o ciúme mortífero de um homem em relação à esposa. Gógol imortalizou o apego de um funcionário medíocre ao seu velho capote (numa São Petersburgo cujo inverno há de congelar até os espíritos). Menos célebre, o ensaísta britânico Peter Stallybras, em “O casaco de Marx – Roupas, memórias, dor”, explora as diversas dimensões das coisas: como utensílios, como registros de nossa memória, como mercadorias com valor de troca.  E fala, claro, da importância de um casaco na vida e na teoria do pensador alemão. Roland Barthes dedica vários ensaios a captar significados nas coisas – o bife, o plástico, o brinquedo –, surpreendendo nelas verdadeiras mitologias. Nas artes plásticas, o urinol de Duchamp, a lata de sopa de Warhol (e antes, as maçãs de Cézanne) e outras tantas obras realizam operação semelhante, abrindo nossos olhos para a novidade do que estamos cansados de conhecer, objetos banais aos quais não costumamos dar grande importância.

Ultimamente, nos porões da política brasileira, um objeto desses banais tem deixado o anonimato e ocupado manchetes escandalosas do noticiário. Trata-se do bom e velho guardanapo (do francês garde-nappe).



Em ambientes simples ou informais, o guardanapo costuma ser de papel, e descartável. Noutros, mais ajeitados, é de tecido – liso ou estampado –, e aguarda o comensal gentilmente dobrado sobre a mesa – às vezes, até, ornando uma taça, como enfeite. O guardanapo, que pode ser estendido sobre o colo, enquanto comemos, ou pendurado na camisa, à guisa de babador, serve primordialmente para evitar sujeira: ele protege nossas roupas de respingos de molho, de pedaços de comida caídos do garfo; deve ser utilizado para limpar dedos e lábios, após a refeição, o que é também uma forma de preservar nossos companheiros de mesa de uma visão possivelmente incômoda. Nesse sentido, o uso do guardanapo indica delicadeza, polidez, recato.

(Querendo, talvez, dar-se ares distintos, o impertinente freguês de “Conversa de botequim”, de Noel Rosa, requisita ao garçom, entre outras coisas, “um guardanapo e um copo d’água bem gelada”.)

Eis, porém, que o guardanapo surge ressignificado, ornando as cabeças – sim, as cabeças – do governador do Rio de Janeiro e alguns confrades, entre políticos e empresários, numa farra em um restaurante parisiense, até então elegante, em 2012. À volta deles, as esposas exibem, orgulhosas, as solas encarnadas de sapatos adquiridos ao custo de vários salários mínimos, enquanto, provavelmente, tricotam sobre as últimas e as próximas compras nas boutiques mais exclusivas da capital francesa. Os guardanapos, voltemos, enfeitam as cabeças das autoridades, dando um toque carnavalesco à confraternização (e me fazendo lembrar os nerds imberbes de “A mulher nota mil” aguardando, com sutiãs na cabeça, a deliciosa aparição de Kelly LeBrock). Aí, o guardanapo, longe de indicar recato ou comedimento, revela o desejo de extrapolar, de quebrar regras, como aquelas que disciplinam as relações entre o poder público e entes privados – por exemplo, empreiteiras. Somados, os guardanapos-chapéu e os calçados Louboutin compõem um quadro cafona e grotesco da embriaguez com o poder.

Agora ficamos sabendo que José Maria Marin, dirigente notoriamente corrupto da notoriamente corrupta CBF, ora presidiário na Suíça, utilizava guardanapos para grafar as quantias que desejava ver depositadas em sua conta bancária, a título, vamos dizer, de facilitação transacional em contratos firmados pela Confederação. Aqui, a modéstia do meio utilizado – um reles, descartável guardanapo – contrasta com a dimensão vultuosa das propinas. Além, claro, de revelar um cuidado em não produzir provas contra si, digno de um profissional com décadas de labuta no jogo sujo do poder.

Pobre guardanapo, subvertido em sua modéstia franciscana, extraído dos ritos da delicadeza, para servir de adorno ou suporte ao despudor de ‘otoridades’ tupiniquins em suas andanças pelo mundo, na trilha de obscuras transações!


Como diz Arnaldo Antunes, “as coisas não têm paz”...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Questões peripatéticas





Rápida tentativa de apreensão do fenômeno. A nova configuração do parlamento grego pode ser interpretada como uma fotografia de uma onda política que se reflete noutros países do Velho Continente (França, Espanha...) - e pode inspirar lições alhures. Em síntese, trata-se do desprestígio dos tradicionais partidos à esquerda e à direita, e a concomitante ascensão de agremiações de esquerda e direita novas, ditas "radicais" (no caso grego, o Syriza e o partido neonazista).

Por que a esquerda e a direita tradicionais descontentaram seus eleitores e perderam apoio? Uma hipótese: porque ficaram, insossamente, muito parecidas. Parecidas na insuficiente lisura no trato com a coisa pública, e também em seus programas. A esquerda tradicional desagrada ao cidadão progressista, que exige mudanças profundas; a direita tradicional não supre a necessidade de segurança do eleitor conservador. No vácuo de ambas, ascendem (experiência fortuita?) uma esquerda menos aferrada ao leito de Procusto da ortodoxia liberal, e uma direita menos comprometida com os valores democráticos. Faltasse tudo a ambas (consistência, competência...), não lhes faltaria isso: uma identidade clara. Está em xeque o liberalismo? O que surgirá - e se consolidará - como alternativa?

E agora lemos que, para compor o governo, o "furacão" Syriza alia-se ao Gregos Independentes, conservador. Vamos ver o que sairá daí. Cenário facilmente previsível: o novo governo não levará a Grécia ao Olimpo que esperam seus mais entusiasmados apoiadores, nem ao inferno que antevêem as cassandras de direita, como as que sobejam na imprensa tupiniquim. Será algo na linha Brasil 2002?

Alea jacta est! (Opa, isso é latim...)

King Kong, um filme latente


Fiel ao argumento original, King Kong (1976) é um filme sexual, sem sexo. Resgatada seminua de um bote à deriva no Oceano Pacífico, a aspirante a atriz Dwan (Jessica Lange em seu esplendor) torna-se companheira de viagem da tripulação – masculina – de um navio petroleiro em nebulosa expedição. E permanece pouco vestida, pois adapta (customiza, se preferirem) os trajes que lhe são doados pelos marinheiros, adequando-os a uma moda-praia feminina e sexy. Dwan é toda entrega, espontaneidade, saúde e sorriso. A hipótese de estupro parece não passar por sua cabeça, e talvez estivesse mesmo distante, pois, naquele caso específico, os rudes aventureiros confinados em alto mar revelam-se bons samaritanos – ao menos no que tange ao belo esporte. As ambíguas referências que Dwan, divertida, faz a um filme pornô (“Eu fui salva pela garganta profunda!”) produzem em seus companheiros indiferença ou leve embaraço.

Então chegamos à ilha misteriosa. Os ‘selvagens’ tentam intercambiar seis negras pela loira (a carne mais barata do mercado é a carne negra, como canta Elza Soares?), sem sucesso, restando-lhes  raptá-la. Afinal Dwan é apresentada, isto é, ofertada, ao majestoso primata. Os nativos parecem apostar numa hipótese psicanalítica: a agressividade do monstro é um reflexo neurótico de sua frustração sexual; apaziguados seus instintos, a vizinhança haverá de ter sossego.

Gorila antropomorfizado, King Kong move-se ereto e soberbo. Como a dupla do conto A bela e a fera, Kong e Dwan formam um par ao mesmo tempo esdrúxulo  e harmonioso: diferentes em quase tudo, os dois têm o desejo à flor da pele, o que os aproxima entre si e os difere dos homens obcecados por suas quimeras (a ciência, o capital). A cada investida do macaco, Dwan apenas finge resistir, enquanto se deixa agarrar pela mão possante da besta-fera. 


E Jack Prescott, o magnâmimo paleontologista vivido por Jeff Bridges? Ah, Prescott é um homem gentil, bem-intencionado, mas um amante hesitante. Para ele, a moça com brilho nos olhos e peito arfante pode aguardar um pouco, enquanto ele termina de armazenar mantimentos para uma expedição à ilha de Kong – isso, sim, prioritário e urgente. Além disso, Prescott parece querer cercar-se de garantias quanto às perspectivas da vida a dois (“Você precisa de um estilo de vida que eu não posso lhe proporcionar” – lamenta, a certa altura, o mal remunerado professor). Belo estímulo ao impasse. Sim, Prescott é um austero devoto da ciência e Dwan, uma aspirante às luzes da ribalta. Mas a maior dificuldade entre eles talvez seja o fato de os dois terem, na verdade, o mesmo objeto de desejo: o gorila King Kong. Um triângulo amoroso assim inusitado poderia prosperar? Não chegamos a saber.
Ao fim, próxima ao imponente cadáver de Kong, Dwan é cercada por curiosos e câmeras e disparos de flashes. Torna-se, enfim, uma celebridade. Mas como é amargo o sabor dessa conquista!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

reza forte

A reza forte faz parte da nossa cultura, do nosso dia a dia. Rezamos para aquele amor voltar, para o filho chegar ileso em casa, rezamos para as coisas darem certo ou para, pelo menos, não darem muito errado. No futebol, então, a reza corre solta. Os menos crentes mas ainda um pouco supersticiosos, entre os quais me incluo, às vezes cruzam os dedos ou batem na madeira. Chegamos à sofisticação de construir um sistema hidrelétrico de dimensões continentais que, à míngua de reservatórios, depende bastante de orações para São Pedro.


Nesse contexto, era natural que a realização do mundial, à falta de planejamento responsável e eficiente, também dependesse um tanto de um certo esoterismo. Estamos recebendo milhares de pessoas em estádios ainda inacabados, alguns dos quais nem contaram com a indispensável visita dos bombeiros. O mais lógico, agora, o mais razoável, é acendermos velas para São Judas Tadeu, ou para qual seja o santo da nossa devoção. Sem deixar de cruzar os dedos.

(18/07/2014)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O Brasil e o anão de costas quentes

Incomodado com a decisão brasileira de chamar para consultas o embaixador em Tel Aviv, um empregado da chancelaria israelense classificou o Brasil, de modo ofensivo, como “um anão diplomático.” Trata-se, sem dúvida, de gesto ousado, e de uma ousadia algo delirante, um representante de país tão pequeno, com uma população tão pequena (Israel conta com 7.908 milhões de habitantes, quase a metade da população do estado do Rio de Janeiro), adjetivar como “anão” um país tão grande, de população tão numerosa. Claro, o Sr. Palmor não se referia a essas medidas de grandeza, mas sim a uma dimensão, senão intangível, mais difícil de medir, a da influência diplomática.

Bom, acontece que ainda aí a diferença é gritante. Com elegância, além de sublinhar que o Brasil não costuma usar termos pejorativos para se referir a nações amigas, o ministro Figueiredo informou que o Brasil é um dos 11 países que se relacionam com todos os membros da ONU. Poderia ter acrescentado que o país integra um arranjo político-diplomático (o BRICS) que congrega nada menos que 18% do PIB mundial e quase a metade da população do planeta.

O Brasil, decerto, não é uma potência global, mas a dimensão de Israel no concerto das nações tampouco impressiona. Sobrevivendo à margem de resoluções da Assembleia e do Conselho de Segurança da ONU – as quais ignora –, além de desrespeitar a Corte Internacional de Justiça, o Estado de Israel tem sido marginal em relação ao Direito Internacional, e costuma amargar isolamento político nos âmbitos multilaterais. A recente decisão do Conselho de Direitos Humanos da ONU de acatar a solicitação da Autoridade Palestina para que sejam investigados crimes contra a humanidade na Faixa de Gaza certamente não reflete o prestígio do “gigante” Israel. Apoiada por 29 dos 46 membros do Conselho, a medida foi contestada apenas pelos EUA de Barack Hussein Obama (que radicais em Tel Aviv chamam de “árabe anti-judeus”), enquanto os europeus guardaram silêncio embaraçado e embaraçoso. 

Em 2012, a Assembleia Geral da ONU, em peso (138 votos a favor), aprovou o status da Palestina como Estado observador. Abraçados a Israel, do lado derrotado, além de EUA, Canadá e República Tcheca, estiveram atores-chave da cena global como Palau, Nauru e Micronésia.

Ao afirmar que o Brasil “ignora o direito de Israel à autodefesa”, o porta-voz utilizou uma das surradas táticas retóricas sionistas (outra, igualmente bolorenta, é a tentativa de intimidar os críticos das políticas israelenses, tachando-os de “antissemitas”). Trata-se, neste caso, de contestar algo que não foi dito, de modo a ignorar o que de fato está em causa. Poderíamos chamá-la de tática da cegueira, ou cortina de fumaça. Em psicologia, talvez seja uma espécie de fuga dissociativa. Afinal, o Brasil nunca ignorou o direito de Israel se defender dos foguetes do Hamas (inclusive, em nota recente, condenou esses ataques à população israelense): o que critica veementemente é a “desproporcionalidade da resposta” – aliás, um modo suave de abordar o massacre deliberado de civis. 

Contabilidade recente da carnificina em curso registrava 757 palestinos assassinados, dos quais 571 civis (dentre eles, nada menos que 182 crianças e 95 mulheres). Do lado israelense, a incursão bélica pré-eleitoral cobrara a vida de 30 pessoas, quase todas militares. 


Ora, embora sejam conhecidas táticas perversas do Hamas que expõem a população civil (e que constituem, sem dúvida, crime de guerra), ninguém é obrigado a acreditar que esse quadro ilustre um “direito de defesa”. Crianças abatidas numa praia em Gaza, inclusive quando tentavam escapar, em desespero, não podem ser consideradas alvo militar por nenhum ser humano. E o comissário-geral da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina), Pierre Krähenbühl, tem toda a razão de indignar-se com o bombardeio terrorista a uma escola em Beit Hanoun que servia de abrigo a refugiados – e cujas coordenadas haviam sido informadas não menos que 12 vezes às autoridades de Israel, para que, em respeito à lei internacional, a instalação fosse poupada. “Esses palestinos, muitos deles mulheres e crianças, tinham chegado a esta escola em busca de refúgio, acreditando que uma instalação da ONU ofereceria um maior nível de segurança. Essa crença foi baseada no compromisso vinculativo da comunidade internacional. E também na obrigação de ambas as partes de combater sob a lei internacional e respeitar a inviolabilidade das instalações da ONU”, disse ele.

Quando o líder do Hamas, Khaled Meshaal, diz sentir “orgulho” do conflito atual, e o porta-voz da chancelaria israelense se permite tecer comparações entre o massacre e um jogo de futebol, pode-se ter uma ideia do grau de insanidade que alimenta a disputa. Nesse quadro desolador, agravado pela ausência, no cenário internacional, de estadistas dignos do nome, é de louvar o gesto da diplomacia brasileira. Ela resolveu agir, em vez de limitar-se a lançar nobres palavras ao vento.

(25/07/2014)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O máximo togado - arroubos e preconceito


Seria tolo considerar a grosseria reincidente, renitente, d'El Justicero no trato com seus pares do STF, a sua postura intragável de 'vestal do prostíbulo', como uma resposta contundente, em alguma medida eficaz (e, daí, politicamente interessante) a uma sociedade racista. Não vejo a grosseria como outra coisa que grosseria, mera. Da mesma forma, é um tanto grotesca a circunstância de um juiz (e juiz da mais alta Corte!) arrogar-se o papel de promotor, insinuando e até acusando colegas de agir como advogados do crime. E é deplorável alguém, graduado que seja, supor que a sua interpretação do Direito seja a única justa, decente, a única digna de existir.

Isso posto, não dá para não notar a coloração indisfarçavelmente racista da coluna de R. Noblat publicada hoje (19/8/2013) n'O Globo, toda ela um rodeio para dizer: "-Escuta, ô crioulo, é bom você tratar de se comportar, pois é sabido que você chegou aonde está por uma condescendência, mais que por mérito." Recado da casa-grande ao egresso da senzala.

Lembrei-me, imediatamente, do bizarro panegírico escrito pelo imortal Carlos Castelo Branco, o Castelinho, para Raimundo Sousa Dantas, nosso primeiro embaixador negro. Não há como descrevê-lo, é preciso transcrever um trecho. Leiam os de estômago forte:

"No Palácio do Planalto, procedeu como devia: com esforço, dedicação, tato, procurando servir, defendendo quase selvagemente suas prerrogativas (...). Entendeu logo que sua escolha se prendia, em grande parte, à circunstância de ser negro. Comportando-se como um civilizado, um ocidental, a fisionomia enobrecida pela calva e os óculos, a presença física valorizada pela roupa de bom-gosto e limpa, Raimundo Sousa Dantas não vai cometer gafes em Acra. Quando muito, o que persiste nele de primitivo - os impulsos quase assassinos e um certo mas passageiro descontrole nas paixões - temperarão uma ou outra reação, dessas que reajustarão às raízes essa negra flor cartesiana." (Senhor, outubro de 1961)







terça-feira, 23 de abril de 2013

milagres de pyongyang


A Coreia do Norte opera um milagre. Embora seja um país bastante fechado, quase imperscrutável, embora as agências de notícias raramente se ocupem de seus costumes e dia-a-dia (excetuando-se uma caricatura aqui, outra ali), embora a maioria dos jornalistas estrangeiros nunca ande por lá, basta um fato – no caso, a elevação da tensão na Península Coreana – trazer o país ao noticiário para pipocarem, de todos os lados, ´especialistas` cheios de certezas sobre aquela nação asiática.
Um milagre, milagre.
Por esses dias, a Globonews exibiu um Sem Fronteiras enjoativo, tamanho o contraste entre a escassez de informação relevante e a descarga de adjetivos raivosos empregados pelo editorialista para caracterizar aquele regime e o seu líder, Kim-Jong Un. Muita opinião, muita ideologia, pouca análise, pouca investigação, pouca informação: em suma, isso que nos habituamos a chamar de jornalismo (algo na linha Seleções do Reader´s Digest).
Não vi coisa melhor noutros veículos.
Ator estadunidense, Gerard Butler protagoniza um filme que acaba de estrear no Brasil, o qual, por coincidência (coincidência?), dramatiza um ataque de terroristas norte-coreanos à Casa Branca. E ele nos ensina: “(...) no filme eles estão fazendo o que sempre fazem: sendo agressivos. Não estamos dizendo que eles são necessariamente maus. Estamos falando de terroristas” (O Estado de SP, 17/04/2013). Eis uma informação, também ela, inquietante.
Pouco sabemos sobre aquele país, de quase 30 milhões de habitantes e uma História que precede a Era Cristã. É difícil, ao menos para mim, avaliar o grau de compromisso do governo norte-coreano com a paz e a segurança internacionais. Podemos, no entanto, afirmar, pois a História o registra, que aquele país jamais lançou bombas atômicas noutro país. A Coreia do Norte nunca patrocinou a deposição de chefes de Estado estrangeiros, e não se envolve em conflitos bélicos desde a sangrenta guerra fratricida de 60 anos atrás. Uma guerra manipulada, de um lado e de outro, pelas nações que naquele então dividiam entre si a posse da Terra.
Não seria razoável, Mr. Butler, supor que a tensão atual (e a “agressividade” a que o senhor se refere) tenha lastro em feridas deixadas por aquela guerra que ninguém sabe ao certo se terminou?


Nunca andei por aquelas bandas, e não sei quantos dos nossos opinionistas de plantão lá estiveram. Mas, para alívio da nossa ignorância, o contribuinte brasileiro paga um sujeito para representar nossos interesses em Pyongyang, chefiando a embaixada do Brasil. O embaixador Rodrigo Colin, portanto, colhe informações in loco, e concedeu uma ótima entrevista ao Estadão, publicada no último dia 5/04.
Foi uma oportunidade de desconstruir o estereótipo grotesco, preconceituoso, de indisfarçável tonalidade etnocêntrica, que retrata os norte-coreanos como imprevisíveis, irracionais e suicidas.
Segundo o embaixador Colin, o principal objetivo das armas nucleares norte-coreanas é garantir a dissuasão. A legislação do país estabelece que elas só podem ser utilizadas para repelir uma invasão ou retaliar um ataque perpetrado por uma potência nuclear.
Aliás, nesse ponto, é preciso que se diga que a chamada comunidade internacional impediu a Coreia do Norte de obter um reator nuclear para fins pacíficos. O país não vive às escuras, hoje, por opção deliberada de seus líderes.
Mas volto ao embaixador Roberto Colin. Ele nos diz que os norte-coreanos aprenderam com a experiência de países que não puderam se defender, como a Iugoslávia, o Iraque e a Líbia, e não querem seguir o mesmo destino. Na lógica norte-coreana, diz o embaixador, as armas nucleares são a última garantia de que não serão atacados. Ou seja, o seu único instrumento de barganha.
Foi a existência de arsenais nucleares que, na Guerra Fria, tornou inexpugável a China comunista. É a existência de acesso a arsenal atômico que garante Israel, como garante a Índia e o Paquistão. Se os arsenais nucleares norte-americanos garantem a Coreia do Sul, quem garantirá a incolumidade do Irã e da Coreia do Norte? Esses países aprenderam que o Iraque foi devastado, destruído, não porque possuísse armas atômicas, mas por não as possuir.
Segundo o nosso embaixador, “O que eles [os norte-coreanos] desejam é a normalização das relações com os EUA e o reconhecimento do status de potência nuclear, como ocorreu com a Índia e Paquistão”.
Devo dizer que não me parece incompreensível ou inusitado que um regime, simpatizemos ou não com ele, busque a sua própria sobrevivência e a inviolabilidade do seu território. Estranho seria não fazê-lo. Estranho, por exemplo, é o Brasil não considerar, de fato, estratégico dispor de um programa espacial que ajude a garantir a defesa de seu território de mais de 8 mil km².
O representante brasileiro acrescenta que os norte-coreanos têm sinalizado com a disposição de realizar mudanças, mas que isso é muito difícil no cenário atual. Cito mais uma vez o embaixador Colin: “Caso EUA e Coreia do Sul persistam em colocar a condição de que primeiro o Norte tem que se desarmar para depois haver um diálogo, creio que o impasse continuará.”
Habituamo-nos a olhar para outros povos, suas culturas e seus governantes de maneira depreciativa, caricata, reagindo, como cães de laboratório, aos estímulos que nos enviam as agências de notícias do hemisfério Norte. Será que a Coreia do Norte, com as bravatas de seu líder máximo, não poderia operar um novo milagre, aos abrir nossos olhos para essa nossa infeliz condição?

segunda-feira, 15 de abril de 2013

maioridade penal


Todo assassinato é horroroso, e deveria causar indignação. Alguns, contudo – e a legislação reconhece isso – são especialmente horrendos, por envolverem circunstâncias agravantes, como o ‘requinte’ de crueldade ou a motivação torpe, fútil. Quando ganham as páginas e bytes do noticiário, crimes desse tipo costumam suscitar, em muitos de nós, desejo de vingança, e surgem vozes exigindo que o Estado realize, por nós, esse nosso desejo.

O roteiro é conhecido. Quando o criminoso é menor de idade, como nesse caso de latrocínio ocorrido outro dia em SP, o padrão é que vozes reivindiquem a panaceia da ‘redução da maioridade penal’. Ocorre que – dizem entendedores do assunto e digo eu também – esse tiro no crime, se por um lado poderia aliviar um tantinho nosso demônio vingativo, de pouco serviria para aumentar nossa segurança. É certo, ou bem provável, que a perspectiva da impunidade favoreça a prática do crime. No entanto, estão aí os números, a esmagadora maioria dos menores apreendidos não tem envolvimento em homicídio.

E há que se considerar que a maioridade penal terá, sempre, um bom grau de arbitrariedade. É como definir a idade em que as pessoas podem transar (e não esqueçamos: no século XIX as brasileiras eram casadas por volta dos quatorze!). A maioridade atual poderia ser adiada para os 21, coincidindo assim com o antigo marco da capacidade plena, e com um desenvolvimento mais avançado, dizem, do córtex cerebral. Poderia, também, ser reduzida para os 16, a idade a partir da qual podemos votar. Mas nada disso extinguiria a inimputabilidade: abaixo da idade estabelecida, todos estaríamos, por assim dizer, de mãos livres para o desatino. E, em qualquer hipótese, continuaríamos com esse sistema penitenciário que até o ministro da Justiça reconhece ser falido - apenas reduzindo ou aumentando sua exagerada superlotação, conforme o caso.

E então, o que fazer? Talvez apostar em outras medidas que pareçam mais efetivas no combate ao crime, como a redução do apartheid social e o uso de inteligência na repressão. Sem, porém, alimentar a ilusão de que iremos banir o horror de nossas vidas, de uma vez e para sempre.



domingo, 14 de abril de 2013

toda transação é um salto no escuro



Em Brasília não vige o sistema capitalista. Muito menos o socialista. Na verdade, não está claro que haja algum sistema. As coisas são como são e a gente vai levando, tentando fazer o que dá. 
Ou nem tanto.

sábado, 13 de abril de 2013

Espalhafato

Não sei se é impressão, se estou frequentando os lugares errados, mas parece haver, no mercado, uma hegemonia do espalhafatoso. Se você procura uma armação de óculos, se depara com uma pletora de formatos inusitados, tamanhos inverossímeis, tudo adornado por frisos assim e assado, de cores cítricas, às vezes fluorescentes. Isso na seção masculina. Uma vitrine de loja de material esportivo só pode ser contemplada de ouvidos tampados, tantas as cores gritantes. Já vejo o dia em que terei que recorrer a um contrabandista, na calada da noite, para obter, por um valor extraordinário, uma gravata preta.