segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Olhai por nós - parte I


F., cirurgião-dentista bem–sucedido, vive numa casa de vários quartos no Lago Sul, em Brasília. É casado com uma juíza de Direito, com quem tem um bonito casal de filhos: uma moça de 17 anos que se prepara para o vestibular, e um rapaz de 20 que cursa Administração.
O que poucos sabem é que F. mantém guardado, a sete chaves, um segredo tenebroso. No início dos anos 70, auge da repressão militar, ele era um residente de odontologia, no Rio de Janeiro, ambicioso e disposto a quase tudo para crescer na futura carreira. Assim, encontrou nos porões do DOI-CODI um meio de ganhar experiência, acesso a gente influente e, de quebra, dinheiro para se sustentar por conta própria. Seu trabalho consistia, fundamentalmente, em assistir sessões de tortura de prisioneiros políticos, monitorando-lhes os sinais vitais, para evitar que viessem a expirar antes de revelar os segredos buscados pelos agentes da repressão. Às vezes cabia-lhe, também, reanimar os desfalecidos, para que o interrogatório tivesse prosseguimento.
O sentimento de culpa deixado por essa experiência é matizado, em sua consciência, por racionalizações do tipo “eu fiz o que tinha que fazer / se não fosse eu, seria outro / os militantes de esquerda também cometiam brutalidades / no fundo, contribuí para a causa da democracia” etc. Seu currículo de profissional exemplar é intocado pelas manchas desse passado sombrio. No entanto, F. é um homem intranquilo, que ingere calmantes com frequência. Gritos, gemidos e rostos de vítimas da repressão aparecem-lhe com assiduidade, tanto em sonhos como em horas de vigília. A pior dessas assombrações, a mais presente, é uma jovem professora de História, recém-casada e mãe de uma menina de um ano. Considerada líder de uma célula “terrorista”, a jovem foi seviciada com extremo sadismo e afinal jogada ao mar de um helicóptero, praticamente morta – processo que F. acompanhou, auxiliando-o, do início ao fim.
A jovem professora aparece sobretudo quando F. experimenta momentos prazerosos na vida em família – o sexo com a esposa, uma viagem agradável, o aniversário de um filho – como a cobrar-lhe a felicidade conjugal de que foi privada. Por vezes, F. vê no rosto de uma desconhecida qualquer os traços daquela professorinha, quarenta anos passados. Teria ela sobrevivido, contrariando toda lógica?
As aparições misteriosas, os pressentimentos incômodos e a sensação de perseguição se intensificam à medida que F. se informa, pelo noticiário, da intenção do governo de instalar uma Comissão da Verdade, que irá identificar (e punir, ele assim o entende) os agentes da repressão dos anos de chumbo, a exemplo do ocorrido na Argentina e no Uruguai. O fato de não ser militar não o tranquiliza: F. sente que é questão de tempo para que o desmascaramento afinal ocorra, fazendo ruir sua vida conjugal, profissional – sua vida, enfim. O noticiário sobre a Comissão se amplifica em sua cabeça, o obseda, e pessoas na rua, no trabalho, parecem fitá-lo de modo malicioso, ou hostil, como se já soubessem de tudo.  

Olhai por nós - parte II


F. está aterrorizado, e precisa agir. Quer encontrar a professora de História, explicar-se e pedir perdão. Quer fazê-la ver que ele não é mais aquele jovem inconsequente, e sim um homem maduro, ciente de seus deveres, bom pai de família, que se comove com o sofrimento alheio e se arrepende do mal que causou. Pode inclusive ajudá-la financeiramente, como forma de compensação. Viaja ao Rio atrás de seus rastos, imaginando poder encontrá-la viva. Localiza-lhe a filha, com quem chega a trocar algumas palavras, sem se identificar. Procura generais reformados, inquire-os sobre o paradeiro da infeliz: tudo leva a crer que ela, como seria de esperar, está de fato morta há muitos anos, havendo seus restos virado repasto da fauna marinha.
De volta à capital, F. tem dificuldade em se concentrar no trabalho e aparentar normalidade aos olhos da família. Esquece-se de coisas importantes, atrapalha-se com tarefas cotidianas, demonstra ansiedade: todos notam que está diferente, esquisito. Sem sucesso nas tentativas de fazê-lo se abrir, a juíza insinua que ele deveria buscar o auxílio de um psiquiatra. Ele, porém, resiste à ideia de se confidenciar com alguém da área médica, sempre temendo a delação. E sente, por meio de pequenos sinais misteriosos (vozes, vultos, objetos que somem e reaparecem), que há uma presença estranha, sobrenatural em sua vida: os aflitos do DOI-CODI, a professora à frente deles.
Pressionado pelo desespero, vendo-se sem saída, F. deixa de lado o racionalismo, que não lhe traz sossego, e procura uma vidente de quem ouvira falar. A mulher lê sua sorte numa borra de café, diagnostica que ele vive um momento de retorno do passado, escreve num guardanapo e entrega-lhe um aforismo de Heráclito de Éfeso, sobre a necessidade de “se livrar dos mortos”. Por vias tortuosas, F. chega, em seguida, a um médium que atende numa espécie de choupana, em Águas Lindas de Goiás (nome que sempre lhe pareceu grotescamente irônico). Mestre Raimundo, como é chamado aquele mulato alto, de traços rudes, promete-lhe entrar em contato com a “entidade” que o assombra. Ao fim de um ritual que, aos olhos de F., combina charlatanismo descarado com fenômenos verdadeiramente inquietantes, o Mestre lhe fala, com expressão enigmática e voz feminina: “Você não dorme enquanto eu não dormir”.
F. volta para casa, deita-se ao lado da esposa que ressona e, de fato, não consegue conciliar o sono até o raiar do dia, quando enfim cochila, não muito antes de o despertador arrancá-lo da cama para mais um dia de trabalho. A insônia se repete à noite. No noticiário, F. vê que o projeto da Comissão da Verdade ainda se arrasta, atacado por setores conservadores – sobretudo militares da reserva – e visto com desconfiança pela grande imprensa. O presidente da República defende a instalação da Comissão, a necessidade de investigar o paradeiro das vítimas da ditadura, porém assegura que em seu governo “não há lugar para revanchismo”. Isso, porém, não tranquiliza F., e na realidade tampouco aumenta sua aflição: desde o início da insônia (ele dorme cada vez menos, até passar a atravessar todas as noites e dias em vigília) o cirurgião se vê tomado de uma modorra irresistível, o raciocínio torna-se lento e decresce sua vontade de interagir com o mundo.
O que segue é o declínio acelerado da vida de F.: a saúde o abandona progressivamente; o casamento não sobrevive; os filhos se distanciam, horrorizados com sua situação e comprometidos com a própria felicidade; as investigações dos neurologistas sobre sua patologia se revelam infrutíferas e ele, mais e mais debilitado física e psicologicamente pela falta de sono, é afastado do trabalho e afinal aposentado por invalidez. Passa os últimos dias num sala-e-quarto pouco mobiliado, prostrado numa cama da qual nunca se levanta, assistido por enfermeiros que se revezam por turnos.
Numa noite em que se acha sozinho, diante de uma TV a que assiste quase sem decifrar o que é exibido, F. percebe a luz do banheiro acesa. Os sons provindos de lá, e uma sombra em movimento projetada na parede, certificam-lhe de que há alguém ali dentro. Ele nada faz, pois nada pode fazer. Sequer chega a se inquietar, realmente. Afinal, sai do banheiro e adentra a suíte uma mulher, vestida de camisola e enxugando o cabelo com movimentos agitados. O doutor a reconhece sem dificuldade: é a professora de História, conservada em plena juventude, apesar dos anos passados. Ela exala um perfume agradável, de banho. Apanha o controle e desliga a TV, dizendo: “-Já chega de TV, né...”. Então se senta à beira da cama e programa o despertador. Em seguida se deita sob as cobertas, abraça-o e beija-o no rosto, dizendo docemente: “-Boa noite, querido...” Apreciando, com o que lhe resta de sensibilidade, aquele aconchego, F. fica olhando para o teto, inerte, por alguns minutos, até adormecer para sempre. 

(Ilustração: Lupin)

sábado, 7 de maio de 2011

A glória de Osama, o fim de Obama (Ou: a batalha de Abbottabad e seus despojos)



Conhecido por sua oposição a Roma, o rei Pirro, comandante dos Épiros e da Macedônia, enfrentou, em 279 a.C., na região do Ásculo (hoje Ascoli Satriano, na Itália), as legiões comandadas por Publius Decius. Ao cabo de dois dias de batalha encarniçada, as forças de Pirro lograram obrigar os romanos – subtraídos em 6000 homens – a bater em retirada. No entanto, a vitória lhes custaria, aos epirotas, nada menos que 3500 baixas, dentre elas muitos de seus oficiais. O doloroso feito teria levado o rei Pirro a pronunciar uma frase que atravessou os séculos: “Mais uma vitória destas e estou perdido!”

A passagem célebre me veio à lembrança no último dia 5 de maio, quando os EUA, comandados por Barack Obama, anunciaram ao mundo o assassinato de Osama Bin Laden (aliás, no dia seguinte a um ataque que teria por alvo o líder líbio Muammar Kadhafi, e que eliminou um filho e três netos seus). Diferentemente do que sugerem os porta-vozes da White House, não terá sido esta uma vitória como a de Pirro, a cobrar um preço alto demais? Ou ainda, não terá Barack Hussein Obama, 44º presidente dos EUA, com esse feito, concluído um processo de desconstrução de si mesmo iniciado pouco após sua momentosa investidura no cargo, que causou comoção nos quatro cantos do globo? Assim me parece. Senão, vejamos.

Se o fracasso do também democrata Jimmy Carter na tomada (bem mais arriscada, é verdade) da embaixada dos EUA em Teerã, em 1978, fez a glória do aiatolá Khomeini, o êxito de Obama em Abbottabad glorificou, e eternizou, o facínora Osama Bin Laden – como, aliás, já se começa a observar (“O fim de Bin Laden muito provavelmente não vai diminuir o carisma do homem ou da ideologia que ele representava”, opina o professor Nyan Chanda, de Yale. “Ele pode estar morto, mas, de certa forma, ele venceu”, diz o cineasta Michael Moore). Afinal, que destino poderia desejar ou esperar o xeque saudita? Em face das atrocidades que perpetrou (ou se gabava de haver perpetrado), e das inimizades que, por conseguinte, angariou, a carreira de Chefe de Estado estava certamente vedada ao seu ingresso. Pelos mesmos motivos, uma pós-graduação na prestigiosa London School of Economics, ao lado de um dos filhos do coronel Kadhafi, seria igualmente improvável. As mudanças ocorridas nos últimos anos no cenário do terrorismo não-estatal e na Al Qaeda em particular – com a ampliação e pulverização das redes, à semelhança do sistema de franchising, a ascensão de novas lideranças etc. – pareciam trazer sua aposentadoria para um horizonte próximo. Mais que isso, a recente ‘primavera’ do Oriente Médio (de floração modesta, talvez furtiva), avessa ou em todo caso distanciada do fundamentalismo religioso, acenava com um cenário em que o seu discurso, suas teses (a restauração do califado muçulmano, por exemplo) e seu método (o terror) tenderiam a encontrar menos eco no coração da juventude árabe ou islâmica – e os seus vídeos, menor audiência. Assim, uma morte por pneumonia, febre tifóide ou outra causa natural, ou mesmo por assassinato pela mão de algum inimigo menor, um correligionário descontente, provavelmente colheria um Bin Laden, senão esquecido, ao menos relegado a um papel secundário, já no seio de sua organização de futuro incerto.

Mas não: Bin Laden morreu por obra de seu maior algoz, do seu Golias, e a sua execução, em circunstâncias ainda um tanto nebulosas, reafirma alguns elementos básicos de suas incansáveis invectivas anti-Ocidente, anti-EUA em particular. Prepotência, arrogância, brutalidade, menosprezo pela lei (a ONU agora se vê no constrangedor papel de ‘pedir informações’ a respeito da empreitada), tortura de preso político (ou "técnicas aprimoradas de interrogatório", na criativa formulação de Mr. Panetta, diretor da CIA), desrespeito a país de maioria islâmica, bem como aos ritos dessa religião... tudo isso foi ingrediente do desembarque dos Seals, unidade criada após o fiasco em Teerã, na misteriosa ‘mansão’ de Abbottabad. Tudo isso, portanto, ajudará a manter viva a palavra do xeque em corações e mentes de homens e mulheres oprimidos por governos ineptos, corruptos, fiéis a Washington e à sua sede de petróleo. Não sem razão, entenderão que o mártir se foi pela mão dos ‘novos cruzados’. Como sintetiza um seu aliado, o xeque sírio Omar Bakri Muhammad: “Osama sempre buscou o martírio. Ele sempre quis morrer como um mártir. Bin Laden teve o que desejava.”

A sequência de desmentidos das autoridades norte-americanas, apresentando versões distintas, desencontradas para o justiçamento (Osama estava/não estava desarmado; estava desarmado mas ainda assim resistiu; usou/não usou mulheres como escudo etc.), numa espécie de enredo à Mel Brooks, pôs a nu um império envergonhado, hesitante, receoso de exibir todo o esplendor de sua prepotência – algo só comparável, pelo inusitado, ao que testemunhamos quando as tropas de Bush Jr. invadiram o Afeganistão despejando bombas e... mantimentos. Não deixa de ser irônico, nesse contexto, que a nota expedida pela chancelaria venezuelana prime, de modo mais conspícuo, pela defesa de valores caros ao ‘Ocidente’, à humanidade em geral: respeito à dignidade e à soberania dos povos; recusa ao combate ao terror pelo terror; condenação da ilegalidade; e ainda a exigência de que se retirem as tropas estadunidenses do Afeganistão, aonde teriam ido – não foi isso? – à caça de Bin Laden. O Itamaraty, decerto pouco à vontade, guardou silêncio (ou preferiu se exprimir de modo sub-reptício, reproduzindo em seu site um belo artigo de José Miguel Wisnik).

Republicano à outrance, Bush Jr., todos vimos, levou o excepcionalismo norte-americano às raias do gangsterismo vulgar, perfazendo uma administração tão desastrosa, sobretudo no plano internacional – com seu unilateralismo isolacionista, sua estrambótica ‘guerra ao terror’ – que desagradou até mesmo à direita tupiniquim, ou parte dela. Estavam dadas, assim, as condições para o fascínio de dimensões globais com a candidatura e a vitória de Obama sobre o escolhido de Bush. Antes de mais, Obama representava concretamente a ascensão do negro ao poder político dos EUA (mais de meio século após o início do movimento pelos direitos civis!), enquanto os Bush, a esse respeito, não haviam podido ir além de alçar Collin Powell e Condoleeza Ricce à chefia do Departamento de Estado. Mas Obama trazia outras vantagens evidentes em relação a seu antecessor: além do charme pessoal, da retórica admirável (contrastante com a jocosa dislexia de Bush), uma biografia e uma bagagem cultural que acenavam para um cosmopolitismo ausente no texano (cuja experiência internacional, ao assumir o governo, se resumia a pernoites no México e na Jordânia, acompanhando o pai presidente), e um nome de batismo que, se causava urticária no tea party, parecia sintetizar sua capacidade de criar pontes entre mundos, especialmente entre um Islã e um Ocidente supostamente apartados. Em tudo, Obama era um príncipe iluminista que emergia, encantador, após uma era de trevas, reacendendo a esperança. “Hope”, aliás, era uma das legendas (além de “change” e “progress”) de pôsters hoje icônicos do democrata, produzidos por Shepard Fairey sobre uma imagem da Associated Press. Eleito, Obama soube reforçar essas expectativas por meio de uma retórica adornada por elegante prosódia, seja no discurso de posse, em que matizou referências belicistas com convites ao diálogo, seja no impactante discurso proferido na Universidade do Cairo (no Egito então comandado pelo ‘exemplo de árabe moderado’ Hosni Mubarak), em que combinou citações do Alcorão com menções aos 7 milhões de muçulmanos vivendo nos EUA e frases do tipo “devemos nos focar no que nos aproxima, e não no que nos separa”. Sucesso estrondoso.

A trajetória do presidente de lá para cá, no entanto, talvez com o interstício da reforma do sistema de saúde, segue uma lógica de desconstrução desse Obama emerso das urnas (desconstrução acelerada, é possível, após a perda de maioria na Câmara, e enfraquecimento no Senado): o generoso pacote de resgate financeiro das instituições que levaram a economia à bancarrota, arrastando mercados no mundo todo; a manutenção do abono tributário às grandes fortunas; o distanciamento em relação a sindicatos e movimentos sociais que ajudaram a elegê-lo (“É como se Obama estivesse fazendo campanha contra si mesmo”, resumiu o economista Michael Hudson no artigo “A rendição de Obama aos super-ricos”); o recuo em relação à extinção do campo de concentração de Guantánamo e, last but no least, a manutenção das ocupações do Iraque e do Afeganistão, o bombardeio à Líbia e a benevolência com o governo do Bahrein, a invasão do Paquistão para a execução de Bin Laden, que reforça a insegurança e a incerteza no cenário global. Diferenças à parte, fica hoje claro que Bush Jr. e Obama se igualam em pontos fundamentais, inclusive a obediência, com maior ou menor entusiasmo, à estrutura que o presidente Eisenhower batizou de complexo-industrial-militar (aliás, que mandatário romperá com ela?).

Entre o Obama original e este que aí está, o lema “Yes, we can” (“sim, nós podemos”) parece haver sofrido uma drástica metamorfose: antes, simbolizava a ascensão do ‘povo’, das massas, a auto-afirmação de uma população (estadunidense, global) excluída ou marginalizada no jogo do poder. A negritude do candidato e o recurso às redes sociais para angariar votos e fundos (embora a sua fosse uma campanha milionária, massivamente apoiada por corporações gigantescas) reforçariam essa ideia. Hoje, “Yes, we can” se mostra tradução da prepotência tradicional, apoiada no destino-manifesto: sim, nós podemos invadir, torturar, executar extra-judicialmente quem bem entendermos, se assim quisermos fazer. Nada nos impedirá. We won’t change.

Pesquisas já refletem o crescimento, pós-assassinato, da popularidade do ex-Obama ('o homem que matou o facínora`), evidente favorito às eleições do próximo ano, inclusive devido à ausência de adversários expressivos, no seu partido ou fora dele. Na internet circulam charges em que Obama diz a Donald Trump que demorou para responder sobre sua certidão de nascimento porque estava ocupado matando Bin Laden. O ex-iluminista agora exorta, em discurso para seus militares (e para o eleitorado, por suposto): “Nós cortamos a cabeça deles!”; “Nós ainda somos a América que faz as coisas difíceis, que faz coisas grandes!” Ou seja, embora ainda não tenhamos resposta concreta para o alto desemprego, embora o ritmo de recuperação da economia ainda se mostre dolorosamente lento (muito em função dos desacertos de nossas políticas), o sangue do assassino é prova irrefutável da nossa grandeza. O Nobel da Paz agora pode encarar de frente os conservadores que o vinham acossando, impiedosos, e dizer-lhes: ‘Vocês não podem me derrotar, simplesmente porque eu sou um de vocês, partilho dos mesmos valores, aplico – com maior sucesso, diga-se de passagem – as mesmas táticas; eu sou, afinal, o seu melhor representante. Derrotar a mim é derrotar a si mesmos’.

(Dado curioso, nesses dias em que Obama afinal se veste de Superman, é a informação de que, na edição nº 900, recém-lançada, da revista Action Comics, o super-herói renuncia à cidadania estadunidense, afirmando: “Estou cansado de ver minhas ações servirem de instrumento da política dos EUA.”)

Mais inquietante, no entanto, é perceber que a quase homonímia de Osama-Obama abriga outras similitudes: ambos são líderes de organizações que utilizam o terror como instrumento político (uma à margem da lei, outra acima dela), ambos frustraram as expectativas que os alçaram ao estrelato e, juntos, chegam a uma hora decisiva, em que o primeiro conhece a morte biológica, enquanto o outro padece simbolicamente.

E sob a vigência da lei de talião, entre a jihad e a ‘guerra ao terror’, nossas vidas continuarão, tudo o indica, permeadas de som e fúria, cheias de sentidos desencontrados e analogias desconcertantes.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

sem deus


“Frequentemente penso que a religião, como o Sol, extinguiu as estrelas com menos fulgor, mas não menos beleza, que brilham sobre nós das trevas de um universo sem deus. O esplendor da vida humana, tenho certeza, é maior para aqueles que não se deixam ofuscar pela irradiação divina; e o congraçamento humano parece se tornar mais íntimo e terno com o sentimento de que somos todos exilados numa mesma praia inóspita.”

(Bertrand Russel, citado por George Steiner, citado por LF Veríssimo, que cito.)

domingo, 11 de julho de 2010

Ocaso Bruno: um país no espelho (parte II)


Deslizes à parte, a crônica tem dito e continuará a dizer, possivelmente com carradas de razão, que a trama macabra reflete uma crise de valores: assim, o encontro de trágico desenlace entre o valentão novo-rico e a maria-chuteira, tendo como coadjuvantes uma esposa possessiva e um punhado de desqualificados dispostos a matar por dois dinheiros, daria a ver o espírito de um tempo no qual (tanto mais nesse vazio de quase tudo que é, no geral, a cultura brasileira massificada) o ser humano se coisifica, torna-se um bem descartável, e nessa coisificação nossa esmaecem – desmancham no ar, diria Marx – valores de importância capital, como o respeito à vida, a compaixão, a solidariedade etc. Uma comparação, na frieza dos números, entre a bancarrota financeira que se projeta para o ex-atleta, em face da tragédia, e a despesa que lhe poderia advir de um hipotético acordo com a mãe da criança, dá cores de absurdo ao enredo, esse enredo em que o dinheiro seria o Astro-Rei, e somos afinal levados a indagar, como a policial grávida do filme Fargo, pelo sentido dessa merda toda.

Nessa linha da crise de valores, aponta-se agora a coincidência, nas biografias da morta e do algoz (para além da sinistra complementaridade entre seus tipos psicológicos), residente no fato de ambos serem fruto de
famílias disfuncionais. Verdade que há considerável vagueza em relação ao que seria uma família ‘funcional’, mas é provável que um círculo onde um em cada dois tem passagem pela polícia, com implicação em crimes como estupro e tentativa de homicídio, forneça pouco esteio para uma existência socialmente aceita. Resta saber, de todo modo, o que a sapiência científica de fato explica.

Mais que a escassez de valores, chamam-me a atenção precisamente os valores que afloram, não exatamente na trama, mas na sua repercussão. A atuação de Eliza como profissional do sexo (fato cuja ocultação, no início da divulgação do caso, terá facilitado a ampla identificação com a vítima: ela era ‘a jovem’, ‘a estudante’) divide as arquibancadas. Há aqueles, e também aquelas (não esqueçamos que no Brasil é comum as mulheres ecoarem os conceitos machistas mais primitivos) que condenam inapelavelmente a prostituta e, discretamente ou nem tanto, opinam que ela teve o que mereceu, de modo que os rapazes de Minas fizeram um bom trabalho. Diga-se de passagem que o encantador paraíso mineiro – sede do entendimento, do acordo e da malícia, fonte da nossa melhor poesia – já encabeçou as macabras estatísticas de assassinatos de mulheres por seus companheiros. A maior parte do público, contudo, parece abraçar, hesitante, a proposição “ela era uma vagabunda,
mas isso não justifica o que fizeram, né...” É o que se ouve nas esquinas, nas barbearias, nas aglomerações em frente às bancas de jornais, nos papos entre colegas de trabalho. Formulação curiosa, que chama a atenção por dar voz àquilo que nega, ou seja: justamente porque pondera não ser a prostituição razão suficiente para uma condenação à morte, reconhece como concebível uma tal condenação (ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, já diziam da Geni). Seguindo a mesma lógica, temos o sujeito que “é preto, mas é honesto”, e aquele que “é pobre, mas é limpinho”...

A brutalização de Eliza Samudio, em suma, é um crime singular porque nos oferece, aos brasileiros, um espelho. O país cresce, hoje, a olhos vistos, acumula feitos no combate à pobreza, e no plano material, indicam os estudiosos, descortina-se à nossa frente um período de prosperidade como
nunca visto na História desta República. É no plano imaterial, onde se acha uma coisa intangível e no entanto onipresente como os valores, que pairam as incertezas mais desconcertantes.

Em que Brasil crescerá o filho da puta?


(Ilustrações: Lupin)

Ocaso Bruno: um país no espelho (parte I)


“A gente pensou que fosse uma prostituta”

(Justificativa apresentada à policia pelos agressores da empregada doméstica Syrlei Dias, no Rio de Janeiro, em junho de 2007)

“Homem feliz, mulher carente / A linda rosa perdeu pro cravo”

(“Linda Rosa”, Maria Gadú)



Para aqueles que acompanham, entre excitados e estarrecidos, a trama macabra em que se vai convertendo o ‘Caso Bruno’, à medida em que se o deslinda, e andam já fartos de comentários aparvalhados de especialistas improvisados, de linhas mal-traçadas por leigos em sobressalto, a pontuar esta nova experiência de exorcismo coletivo... aqui vai mais uma contribuição não-solicitada.

Começo aclarando que, rubro-negro de berço, jamais nutri simpatia pelo ex-defensor de nossas redes. Achava-o, antes de mais, inadequado para a função que, em todo caso, exercia geralmente muito bem – o que em mais de uma ocasião reconheci, juntando-me, na arquibancada, ao coro dos que o celebravam como “o melhor goleiro do Brasil”. Isso com aquela ponderação e comedimento comuns no calor da refrega. Explico a inadequação com base numa tese que muitas mesas de bar já ouviram: há no futebol uma lei não-escrita (e não-escritas são as leis que de fato regem o futebol e a vida) segundo a qual, para cada posição num time, corresponde idealmente um tipo de personalidade. Daí o zagueiro que não tem olhos nem ouvidos para poesia, preferindo resolver os lances com uma prosa enxuta, até desavergonhadamente crua; o meio-campo armador, cerebral e criativo, cabeça erguida, capaz de antever jogadas e distribuir a bola como uma espécie de regente (e que é também, muitas vezes, o primeiro-violino); o centroavante imprevisível, escorregadio, traiçoeiro como um predador, explosivo no temperamento como nas arrancadas rumo ao gol adversário. Daí, também, a inconveniência de ter sob as traves, último guardião das redes que queremos imaculadas, não um gigante de nervos inquebrantáveis, todo ele equilíbrio e serenidade, mas um sujeito insolente, arrogante, genioso.

E era genioso, nervosinho, o nosso guarda-metas – como, inclusive, o queixo de um colega de time teve a infelicidade de testemunhar.

Era, porém, algo mais que isso, coisa que os feitos, os fatos aos poucos vão evidenciando. Com sua postura e expressão que pouco modulavam (variava quase que só do casmurro ao indiferente), transmitindo a auto-confiança de algum tipo de iluminado (embora uma e outra derrota tenham-lhe arrancado um choro infantil), o famigerado goleiro era uma espécie de estrangeiro num mundo permeado de afetos. A expressão “tô me lixando”, ainda que possivelmente colhida de modo malicioso por uma imprensa sempre afeita ao sensacionalismo, após uma partida infeliz, torna-se agora, à luz da tragédia, o seu leitmotiv (celebrizou-se, também, sua declaração sobre a naturalidade de bater em mulher). Bruno estava – e ao que parece, ainda está – se lixando. Para a vida de uma pessoa, para o rumo da sua própria, para a opinião de quantos opinem. Teria chegado a dizer que um dia iria rir de tudo isso.

Essa indiferença, que no romance de Camus incita a indignação do júri contra o personagem Meursault – o qual, além de assassinar um desconhecido que nada lhe fizera, sequer se emocionara no enterro da própria mãe – é também o traço que instila, compreensivelmente, a revolta popular (alimentada, ainda, pelo vedetismo de um delegado e o tom amarronzado de quase toda a cobertura da imprensa) que hoje faz da penitenciária, ao que parece, a morada mais segura para o nosso ex-ídolo decapitado.

Curiosa ou tragicamente, no entanto, tudo indica haver sido a impossibilidade de ser indiferente, e não a sua tendência contumaz a sê-lo, um dos erros capitais do presumido assassino, que lhe privaram (e à sua turma) da impunidade. Vejamos: um dos deslizes da trupe de delinquentes foi o envolvimento de muitos cúmplices, um dos quais, o ‘de menor’, absolutamente despreparado para emoções tão escabrosas. Faltou-lhe estômago para a barbárie, e o seu apavoramento o fez dar com a língua nos dentes, causando a reviravolta conclusiva num inquérito que talvez caminhasse para o arquivamento, como tantos outros desprovidos de apelo midiático, ou manipulados por advogados nutridos de quantias persuasivas. Este, portanto, um dos erros. O enredo, porém, padecia já de uma falha na origem, e esta era a existência do recém-nascido. O bebê desmamado era, desde o início, a evidência – suficiente para açular a intuição de qualquer detetive – de que algo grave havia acontecido à mãe. Há mães que abandonam neonatos, verdade, mas a grande maioria não o faz, e é ainda menos provável que o faça uma mãe que a tudo se expõe para ver reconhecida a paternidade de seu filho, paternidade a qual significaria, também, outras conquistas menos sentimentais e mais objetivas para o seu pequeno mundo. Tampouco parece crível que depositasse justo nas mãos de sua rival, a esposa do pai da criança, a prenda de que dependiam todos os seus projetos. Eliza Samudio, portanto, deveria estar morta, assassinada; restava encontrar-lhe o corpo e desvendar a trama, ligando os pontos.

Se Bruno esteve, de fato, presente à cena do sacrifício e intercedeu pela criança – fazendo lembrar, de certa forma, aquela passagem do Rei Salomão –, então esse lapso de afeição o driblou, ao produzir uma das mais significativas evidências do crime. Afinal, Eliza era puta (mais uma de tantas alugadas para tantos festins comemorativos), e puta, no quadro de valores que ele compartilhava com boa parte da população brasileira, inclusive com muitos dos que o hoje o xingam, é uma espécie de subcategoria de uma categoria já de si inferior, desprezível, a das mulheres (lembremos o postulado sobre a naturalidade de agredi-las); era ainda, na sua percepção, uma chantagista. Assim, não custava muito, não custaria nada, aliás, à sua mente já moldada para a crueldade pela indiferença, decretar a depredação física de Elisa-Geni, e enfim a extinção de sua vida. Puni-la exemplarmente era mesmo um dever, mais até que um direito. No entanto, repetir a dose com o bebê, provavelmente seu (dele) filho, entregando-o à lâmina de açougueiro do ex-policial, marginal escolado (e condecorado), era um mister da lógica criminosa ao qual o goleiro não soube ou não pôde obedecer.

“Se acontecer alguma coisa comigo, você já sabe quem foi”, escreveu Eliza para uma amiga, informando o seu – último – paradeiro. A frase expõe a consciência, pela vítima, do risco a que se expunha: algo grave poderia lhe acontecer, e ela poderia não estar mais por aqui para apontar o culpado (ou seja, poderia estar morta), desta forma avisava a uma amiga enquanto ainda podia. Ela já havia sido surrada por Bruno, conhecia-lhe a índole, o ódio, e podia prever que a próxima peia seria fatal. Curioso é que nada faça para impedi-lo: ela prefere ir ao encontro do algoz a deixar, por exemplo, a cargo de advogados a intermediação dos contatos. Como se pressentisse que aquele capítulo fosse um desenlace natural de sua vida.

Explico: nos filmes em que atuou, nunca como estrela principal, Eliza viveu uma espécie de ritualização, se bem que muito mais leve, do sacrifício que enfrentaria na gleba do goleiro: era estapeada, xingada, penetrada com fúria, sodomizada com evidente sadismo, enquanto gritava de dor – para deleite de um público que decerto abaixava o som para não se denunciar aos vizinhos, assim como Bruno e seus amigos ligavam um som alto de festa para abafar-lhe os gritos, ao espancá-la. A ironia cruel na trajetória de Eliza é que apenas a brutalização real de seu corpo, ao preço de sua vida, daria visibilidade àquela brutalização encenada na pornografia, transformando em sucesso as fitas em que atuou, e fazendo dela, enfim, uma celebridade.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

o alvo


O bicho-preguiça apareceu / Aos meninos num riacho, ou lago; / E não era peludo: era pelado. / Braços compridos, corpo alvo, / Algo de dragão, mas não alado. // Se era hostil, não quedou claro: / Seguiu que o estranho extraordinário / Foi em todo caso apedrejado, / Depois - por prudência - afogado, / Para que se mantivessem imaculados / O nosso real (imaginário), / Os nossos limites do pensável.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

lavadeira


"A rede entre duas mangueiras
balançava no mundo profundo.
O dia era quente, sem vento.
O sol lá em cima,
as folhas no meio,
o dia era quente.

E como eu não tinha nada que fazer vivia
namorando as pernas morenas da lavadeira.

Um dia ela veio para a rede,
se enroscou nos meus braços,
me deu um abraço,
me deu as maminhas
que eram só minhas.
A rede virou,
o mundo afundou.

Depois fui para a cama
febre 40 graus febre.
Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas,
girava no espaço verde."
(Iniciação amorosa, Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

sumido bigodón


Belchior / É o quê? / É um curió? / Um beija-flor? / É dor? / É um menino / Num homenzarrão / A desrazão, ou então / Um pranto por amor? // É a crônica do chão / Do sal, o luto no jornal / Um anjo e seus / Demônios que não cessam de falar, cantar / É o castelo no ar / É a nação num sonho / Que não dá / Já foi / É o desesperar / Como o de nossos pais / Mas é também / O canto que se faz / Aqui / E nunca no jamais

sexta-feira, 10 de julho de 2009

perdido tempo


Ela me apareceu na sala metida numa blusinha justa, estampando uma fotografia indescritível da Banda Calypso. Desfilou cantarolando não sei que sobre meu jeito louco de dizer amo você.  Para piorar, o troço era baby-look, e os pneus de caminhão que lhe sobravam dos lados, bem como o barril frontal, davam clara notícia de que a única academia que aquela dona prezava era a academia do chopp. Ela não sabia o quanto estava ridícula; ou, se sabia, o que menos fazia era se importar. Olhou-me com o ar afetado de superioridade que o lúmpen por vezes assume perante o intelectual, fantasiando que o hábito de ler e refletir seja sinônimo de pusilanimidade. Com isso perdi de todo o apetite – embora o aroma chegado da cozinha anunciasse um guisado fenomenal. Sentei-me ou prostrei-me no sofá, e apanhei desolado, ao acaso, um LP de Chico Buarque. Na capa de Vida, o artista de olhos de ardósia devolvia-me u’a mirada enigmática, quase severa, de indisfarçável melancolia. Entendi que me dizia ser hora de partir em busca do tempo perdido. Assenti e desabafei – inutilmente, por suposto – com a imagem do jovem compositor: “– E dizer que estraguei anos de minha vida, que eu quis morrer, que tive meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não fazia o meu gênero!”