segunda-feira, 27 de abril de 2009

quarta-feira, 15 de abril de 2009

bitch!

carta ao the globe

"Acho que o que eles querem é o meu silêncio, mas até a minha morte isso não vai acontecer."
- Edward Said

No dia 4 de novembro último, violando um cessar-fogo, o Estado de Israel dava início a uma ofensiva militar sobre a população palestina da Faixa de Gaza, que se intensificaria na virada do ano. Ao final da carnificina, sem haver atingido seus objetivos declarados, Israel acrescentou à sua extensa lista de crimes contra a humanidade as cifras de cerca de 1500 palestinos assassinados (em sua maioria civis) e pelo menos 5000 feridos (do seu lado teria havido 13 baixas). Além disso, os feitos da Ocupação incluíram o desmantelamento da infra-estrutura de Gaza; a destruição de mantimentos enviados por diversos países (Brasil inclusive); ataques a funcionários da ONU e da Cruz Vermelha e uso de fósforo branco, entre outras violações de acordos internacionais.

Diante desse quadro aterrador, e da postura desafiadora e desrespeitosa de Israel face à comunidade internacional, traduzida no descumprimento das resoluções 181, 194, 242, 252 e 446 da ONU, ativistas israelenses como Ilan Pappé e Ury Avnery têm depositado suas esperanças numa pressão vinda do exterior, sobretudo na forma de boicotes.

No mesmo espírito, o Comitê Nacional Palestino de Boicote, Desinvestimento e Sanções publicou recentemente um apelo aos brasileiros [vejam apelo palestino neste blog] para que impedíssemos a participação, na feira bélica em curso no Riocentro (LAAD 2009), de autoridades e indústrias militares israelenses responsáveis por sucessivos massacres de civis, como aquele que atingiu uma mesquita no Norte de Gaza, em 3 de janeiro, matando 15 e ferindo 30 pessoas. Não obstante, encontram-se neste momento na Cidade Maravilhosa representantes de IMI, IWI, Rafael, Elbit Systems e das forças da Ocupação.

Nesse contexto, é estarrecedora a notícia veiculada hoje (15/04/2009) pelo Extra Online, de que a Secretaria de Segurança do Rio teria firmado acordo para a compra de viaturas e coletes da norte-americana Oshkosh Trucks e da Plasan de Israel (“fornecedora das forças armadas israelenses”), tornando-se assim cúmplice - não há como negá-lo - do terrorismo estatal.

Tem razão Marcelo Yuka: essa feira é lamentável. E torna-se ainda mais lamentável em face da atitude deplorável de nossos governantes.
Vejam (nas Vejas, não vemos):
http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=854
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/outros/2009/01/15/ult586u605.jhtm
http://www.rollingstone.com.br/edicoes/20/textos/2475/
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM945351-7823-QUAL+E+A+CHAVE+DO+CONFLITO+ENTRE+PALESTINOS+E+ISRAELENSES+,00.html
http://www.idelberavelar.com/archives/palestina_ocupada/

dos cadernos de gramsci


"Intelectual: Por intelectuais deve-se entender não só as camadas comumente referidas com esta denominação, mas em geral toda a massa social que exerce funções organizativas em sentido lato, seja no campo da produção, seja no campo da cultura, seja no campo administrativo-político. O autor diferencia intelectual , intelectual orgânico e intelectual tradicional. O intelectual, no sentido gramsciano, é todo aquele que cumpre uma função organizadora na sociedade e é elaborado por uma classe em seu desenvolvimento histórico, desde um tecnólogo ou um administrador de empresas até um dirigente sindical ou partidário. Os intelectuais tradicionais podem ser membros do clero ou academia, e podem tanto vincular-se às classes dominadas quanto às dominantes, adquirindo autonomia em relação aos interesses imediatos das classes sociais. Para Gramsci, cada grupo social fundamental, com papel decisivo na produção, engendra seus próprios intelectuais, ditos ´orgânicos` a este mesmo grupo social. Assim, a classe burguesa, ao desenvolver-se no seio do antigo regime, traz consigo não apenas o capitalista, mas também uma série de figuras intelectuais mais ou menos distantes dele: o técnico da indústria, o administrador, o economista, o advogado, o organizador das mais distintas esferas do Estado . Tais intelectuais são os responsáveis pela nova forma do Estado e da sociedade, são os ´funcionários da superestrutura`, que terminam por moldar o mundo à imagem e semelhança da classe fundamental. Hegemonia: O conceito de hegemonia no pensamento gramsciano compreende direção e domínio, isto é, conquista, através da persuasão e do consenso, não atuando apenas no âmbito econômico e político da sociedade, mas também sobre o modo de pensar, sobre as orientações ideológicas e inclusive sobre o modo de conhecer. A hegemonia é a capacidade de unificar através da ideologia e conservar unido um bloco social, não se restringindo ao aspecto político, mas compreendendo um fato cultural, moral, de concepção do mundo."
(Fonte: Wikipédia etc.)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

hora do horla


“Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, causa em nós, em nossos órgãos, e por meio destes, em nossas ideias, e até em nosso coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis?”
[...]
“Deito-me e espero o sono como esperaria o carrasco.”
[...]
“Várias pessoas a quem contei esta aventura zombaram de mim. Não sei mais o que pensar. O sábio diz: Quem sabe?”
[...]
“Nada, mas tenho medo.”
[...]
“Chega-nos do Rio de Janeiro uma notícia bastante curiosa. Uma loucura, uma epidemia de loucura, comparável às demências contagiosas que atingiram os povos da Europa na Idade Média, alastra-se neste momento na província de São Paulo. Os habitantes alucinados deixam suas casas, fogem das aldeias, abandonam suas plantações, dizendo-se perseguidos, possuídos, governados como um rebanho humano por seres invisíveis, embora tangíveis, espécies de vampiros que se alimentam de suas vidas durante o sono e que bebem além disso água e leite sem parecer tocar em nenhum outro alimento.”
(O Horla, Guy de Maupassant)

domingo, 12 de abril de 2009

sexta-feira, 10 de abril de 2009

sim não (o quarto do tio)


(O Adriano foi na mosca, ou numa das moscas pelo menos, ao apontar a ambiguidade entre atração e repulsa em trechos de Cassandra que postei aqui. O tema dá pano pra manga; sempre deu. Ilustro isso com excerto de um clássico de Zélins, rubro-negro de escol, com itálicos por minha conta. Adriano, lembre as estantes do Lupin - inside joke familiar para deixar os outros 3 encafifados.)

"O quarto do meu tio Juca vivia trancado de chave o dia inteiro. Ali só entrava a negra que lhe fazia limpeza e mudava as roupas da cama. Mas quando aos domingos descansava na sua grande rede do Ceará, de varandas arrastando no chão, eu ia ter com ele. O meu tio me punha ao seu lado, fazia brincadeiras comigo. Era o único sobrinho com quem se dava de intimidade. Ele tinha muita coisa para me mostrar: os seus álbuns de fotografias, os seus livros de muitas gravuras, O Malho, que assinava, cheio de gente de cara virada pelo avesso. Lia as histórias todas d'O Malho, com retratos dos políticos e com um Zé-Povo que tinha resposta para tudo.

- Ali não bula, me dizia, quando eu tocava por acaso num pacote embrulhado em cima da cômoda.

Num dia em que ele me deixou sozinho, corri sôfrego para o objeto da proibição; uma coleção de mulheres nuas, de postais em todas as posições da obscenidade. Não sei para que meu tio guardava aquela nojenta exposição de porcarias. Sempre que sucedia ficar sem ele no quarto, era para os postais imundos que me botava. Sentia uma atração irresistível por aquelas figuras descaradas de meu tio Juca.

Uma vez em que ele se demorou mais tempo, por não sei onde, entretive-me com as gravuras muito tempo. O meu tio pegou-me de surpresa com o pacote na mão. Botou-me para fora do seu quarto. Eu não era digno da sua intimidade, dos segredos de sua alcova. Mas ficava-me de seus aposentos uma saudade ruim daquelas mulheres e daqueles homens indecentes."

(Menino de Engenho, José Lins do Rego)

a margarida

O PC, um dos 3 ou 4 leitores deste blog, leu o que postei sobre Entre les murs e, também indisposto com a visão ilari-lari-lariê da educação no patropi, lembrou de Apareceu a Margarida, de Roberto Athayde. Cáspite, ainda não vi essa peça, que todo o mundo diz ser ducacete pra dizer o mínimo. Crianças, a D. Margarida foi encenada pelo Aderbal-Freire Filho em 1973, doce momento político do meu Brasil varonil, e rodou os palcos do país com Marília Pêra na pele da personagem. Depois, correu mundo, Alemanha e o diabo. Espero que volte logo a Brasília, onde andou pelo CCBB. Na França de Bégaudeau, Madame Marguerite foi vivida por Annie Girardot, que aparece aí na foto mostrado a margarida. Parece que a dona está no elenco do filme Caché, que também não vi. A ignorância é o motor da intentada viagem.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

questão de método (thanks ivi)



entre os muros a gente

"We don't need no education..."

Gostei de Entre os muros da escola, de Laurent Cannet, vencedor da última Palma de Ouro em Cannes. Aliás, simpatizo, em princípio, com todo filme que se digna a abordar temas dramáticos, até pungentes, sem lançar mão do pianinho manipulador. E do seu companheiro contumaz, o enjoado violininho. Entre os muros não vem com um nem com outro: é um filme sem música. Árido movie. Sem o indigesto molho barbecue cobrindo a ação (lembram-se de Bruce Banner pedindo carona?), torna-se mais visível o que me pareceu a grande virtude da obra: o seu impecável naturalismo. Interpretações e direção funcionam tão bem, mas tão bem, que ficamos volta e meia sem saber se estamos diante de um documentário ou de um filme de ficção, e acertou quem chutou ´falso documentário`. Entre os muros deixa-nos a curiosa sensação de que a realidade só é visível na ficção. Abro aqui um parêntese para anotar que mesmo o mais anódino filminho francês - e não faltam anódinos filminhos naquela cinematografia - costuma apresentar esse trunfo, o do elenco uniformemente competente, dos protagonistas ao personagem que só tem um par de falas (a exceção talvez seja o recente Lírios d’água); não se vê o mesmo no cinema espanhol, por exemplo (pensem em Lucía e o sexo, ou mesmo nos almodóvares), nem se via no finado cinema italiano. Alguém me disse que isso se deve ao fato de, na terra de Jacques Tati, os atores serem recrutados preferencialmente nas companhias teatrais. Pode ser. No Brasil, é impossível um ator adquirir experiência cinematográfica, não porque as produções sejam bissextas (já não o são), mas porque todos os filmes são estrelados por Wagner Moura e Lázaro Ramos.

Voltando a Entre les murs, acho que qualquer leitura fica limitada se não se parte do pressuposto de que toda escola é uma prisão (“ainda me lembro / aos 3 anos de idade / meu primeiro contato com as grades”). Quando afirmou que as crianças são prisioneiras políticas, Godard não estava fazendo uso de uma metáfora, mas mostrando a vida como ela é. E antes dele Freud já havia registrado o mal-estar que nos causa a adaptação de nossa selvageria infantil aos constrangimentos da civilização. Sem considerações dessa ordem, cai-se facilmente no maniqueismo em que caiu Flávia Costa, ao escrever para o Valor sobre o livro de François Bégaudeau que deu origem ao filme por ele mesmo protagonizado. Para piorar, a moça ainda aproveitou para, espinafrando o livro e o sistema educacional francês, fazer um panegírico do nosso belsen tropical que beira o inacreditável. Tá bom, basta assistir a uns filmes do Truffaut para não idealizar o modo como se educa e se trata as crianças naquele país (ou como se o fazia há 40, 50 anos), mas também não precisava a jornalista escrever: “Nada mais estranho para o leitor brasileiro que a dinâmica tradicionalista e autoritária das escolas francesas, aqui mostrada como uma exibição de xenofobia”. Leio isso e me vêm flashes dos tempos de Pedro II: a professora de matemática empertigada à entrada da sala, esperando que todos os alunos se levantem para que enfim Sua Majestade se digne a adentrar o recinto; e o grito da tia de ciências para uma aluna: “Recolha-se à sua insignificância!!”. Para não falar do juramento impresso nas cadernetas, herdeiro do regime castrense findo havia pouco. Mudando para uma escola particular, eram os professores quem agora eu via tratados como capachos pela meninada mimada. Ah, Flávia, tradicionalistas pode ser que não sejamos muito, mas autoritários... quem poderia dar lições de autoritarismo a esta casa-grande-e-senzala onde todo transeunte é um legislador em causa própria? Onde, como sabemos, manda quem pode e obedece quem não quer levar cacetada da PM...

A resenhista aponta uma certa “má-vontade” de uma “pedagogia preguiçosa com o diferente” e afirma que “os professores nunca se questionam sobre a eficácia dos métodos que usam”. No caso do filme (não posso falar do livro), é bem verdade que a encenação é perpassada por uma certa letargia, um ar de exaustão dos educadores, que parecem em confronto cotidiano com os próprios limites, mas não se pode negar que, irritação à parte, o professor-protagonista envida esforços para tentar interessar os alunos pelo seu trabalho, e que os auto-questionamentos e mesmo divergências abertas, ainda que pouco frutíferos, são comuns na sala dos professores. O pior, em todo caso, é idealizar negativamente esse modelo europeu para incensar, com o mesmo grau de idealismo mas no sentido contrário, “a inventividade que nos caracteriza”, a nossa “afetividade”, e concluir com chave de ouro, já sem temor do ridículo, afirmando que essa diferença “enfraquece a potência do livro”. Bon dieu! Nesse ponto a crítica à xenofobia européia fica irremediavelmente comprometida, vez que a resenhista condena o autor francês pelo fato de seu livro não ser... brasileiro.

A força desse filme árido reside, a meu ver, no fato de ele pintar o conflito com apreciável honestidade - sem recorrer à estrutura mocinhos x bandidos que talvez tivesse agradado mais à moça do Valor. Emerge na tela um micro-cosmo da sociedade francesa atual (e mais uma vez não se trata de metáfora: a escola é esse micro-cosmo), em que, diante da massa indisposta, sempre à beira do levante, nenhuma fala do poder se sustenta sem passar pelo teste da desconfiança, quando não do escárnio. Assim, da mesma forma como fizeram os brilhantes Dardenne com O filho (Le fils, 2002), Laurent Cantet - possivelmente um discípulo dos belgas - consegue mostrar a tolerância como o que ela é: um desafio. Para fora do enfrentamento desse desafio (que exclui, por óbvio, seus falseamentos), as alternativas são espúrias. Por exemplo, quem mora no Rio pode aplaudir as pirotecnias do xerife Bethlem, criado pelo jornal O Globo para azucrinar a vida das putas pobres, das travestis e dos camelôs, na crença de que “as soluções demandam a imposição da disciplina a um pedaço demonizado da sociedade” (como bem sintetizou Elio Gaspari); pode-se também abraçar o niilismo de jornalistas yuppies deslumbrados que emitem seus programas de TV para o Brasil a partir de NY (alô, mamãe, olha eu aqui!); ou ainda acreditar que a solução seja doar dez reais para o Criança, esperança ou mandar a faxineira pendurar um pano na varanda da cobertura, clamando “Basta!”

Isso visto, saio do cinema lembrando a frase de um técnico inglês, que afirmou que “o futebol não é uma questão de vida ou morte; é muito mais do que isso”.

meninas más


(Adriano: você pediu e aí vão uns trechos de Cassandra, com falatório meu. Ouvi dizer que vovó R. deleitava-se na rede com essas leituras malditas, que lhe chegavam junto com as remessas d'O Cruzeiro, vindas da capital.)

As protagonistas

Em Eu sou uma lésbica, a protagonista é Flávia, mulher adulta que relembra sua iniciação sexual, aos 7 anos, com uma vizinha amiga de sua mãe, seu namoro adolescente com Núcia, aventuras posteriores… até o reencontro final, com seu objeto de desejo. A história de Flávia é, porém, sobretudo o relato de uma incômoda lembrança, de uma perturbadora cena inaugural, o crime cometido na infância, e jamais descoberto: o assassinato de Seu Eduardo, marido de Kênia, visto pela criança como o responsável pelo rompimento abrupto de seu relacionamento clandestino.

A protagonista de Marcella assim se apresenta:

“Sou Anastácia Marques, simples funcionária de medíocre firma. Tenho 26 anos, mas sempre me sinto como se tivesse 18 e às vezes quatro aninhos. Sou morena. Um metro e sessenta e seis de altura. Magra. Esguia. Pacata. E trabalho demais.”

Em romance posterior e quase homônimo, Marcellina (1977), é a colega de trabalho de Anastácia quem tem voz, e a descreve nestes termos:

“[…] senti falta de uma subalterna. De uma empregada. Lembrei de Anastácia. Dos seus sapatos surrados, nos seus primeiros dias ali e ela me olhando, admirando minhas pestanas longas, meus cabelos cor-de-casca de cebola, anelados, sedosos, meus dedos longos passeando pelos tipos da máquina de escrever […] A esquisita Anastácia! […] estava sempre me observando, disfarçando quando eu me mexia. Ela me incomodava. A princípio eu ficara em dúvida quanto à sua natureza, depois, no dia-a-dia, não tive dúvidas de que era uma anormal.”

Interessante artifício dialógico que faz de dois romances simétricos e complementares: em Marcella, Anastácia é atormentada pela onipresença da distante e dominadora personagem-título, a qual no entanto participa de poucos diálogos no decorrer da trama, fazendo-se presente como uma espécie de assombração, uma eminência parda. É a obsessão de Anastácia por Marcella, seu desejo incoercível de conquistá-la, o fio condutor que perpassa a trama. Em Marcellina, é Marcellina Rodrigues Bastos (o verdadeiro nome de Marcella) quem conta sua história, sua sobrevivência como secretária na cidade de São Paulo, após a perda de seu grande amor, prostituindo-se para juntar o dinheiro necessário para uma cirurgia que restaure a visão de sua mãe. Marcella, por sua vez, é assombrada pela obsessão de sua ex-colega de trabalho, lésbica, que no início do romance lhe oferece valor equivalente ao dobro de seu salário por um programa, mas retira-se após o primeiro beijo, deixando-a nua e intrigada: “Anastácia fora embora. Pagara cinco mil cruzeiros por um beijo. […] Ela fora embora para colocar-me em seu lugar, uma desgraçada que tinha que se sujeitar a propostas e ofensas. Teria sido isso ou o quê?”

Crianças assassinas. Essas são as protagonistas de Marcella e Eu sou uma lésbica. No primeiro caso, temos Anastácia, perseguida por uma ‘cena original’ que a domina e lhe desperta um ódio incontrolável pelas mulheres infiéis, assim como a faz sentir-se criança a ponto de se urinar:

“[…] me senti criança, choramingando, esfregando os olhinhos desacostumados da luz, braços me agarrando, erguendo-me no ar, dor de cabeça, xixi escorrendo pelas minhas pernas.
- Doida, o que você fez? Como pode fazer uma coisa dessas? Eu estava despertando para a realidade e a realidade era a cara de espanto de Lilien, que pulava fora da cama molhada. O que eu fizera? Xixi em cima dela.”

Em Flávia, por sua vez, persiste a menina de sete anos, ciosa de seu brinquedo, qual seja, a mulher que com ela estabelecera um pacto clandestino: “Não conte pra ninguém, nunca, viu Flávia? Ninguém pode saber de nossa brincadeira de gatinho, só nós duas. É o nosso segredo, você promete?” No entender da menina, é Eduardo, marido de Kênia, o responsável pela quebra do pacto, ao partir com a esposa rumo à Itália. E ele paga por isso com a vida, num crime perfeito (pois todos acreditam que ele, doente de câncer, havia ingerido vidro moído propositalmente).

As musas

Estes relatos são governados por musas, mulheres inatingíveis que representam algum tipo de amor ideal. Não seriam caracterizações próximas às heroínas de Sacher-Masoch? Destas, afirma Gilles Deleuze: “As heroínas de Masoch têm em comum as formas opulentas e musculosas, um caráter altivo, uma vontade imperiosa, uma certa crueldade, mesmo na ternura ou na ingenuidade.”

Marcella (“inatingível, glacial, dos homens”) a todo momento trata Anastácia com distância, frieza e mesmo maldade, dando-lhe ordens que reafirmam a relação de dominação (“vá”,“lave”, “telefone” etc.):

“Não olhava para mim nem quando tinha de falar comigo. Estava sempre remexendo em alguma coisa e a impressão que me transmitia era que eu só servia mesmo para servicinhos de menino de entrega de supermercado. […] Isso, ela me tratava assim como se eu fosse um ser completamente desprovido de senso e noção do lugar que ocupa no mundo, à disposição de qualquer estranho que tivesse voz ativa.”

Note-se que aqui também temos um acordo tácito. Se entre Flávia e Kênia se estabelece verbalmente o compromisso de manter em segredo as ‘brincadeiras de gatinho’ (o aspecto subentendido, no caso, reside no fato de ambas fingirem não saber que a brincadeira era uma relação sexual), entre Marcella e Anastácia se estabelece automaticamente a relação senhor x escravo, em que uma manda e a outra obedece – e que não exclui uma boa bofetada, como reprimenda por uma ‘ousadia’. E não exclui, tampouco, a “tarefa pedagógica” a ser desempenhada pela escrava, e que Deleuze identifica nos personagens de Masoch . Assim é que Marcella concede, diante de um pedido de perdão por parte de Anastácia (“Pode descontar o prejuízo todo mês do meu ordenado até que dê.”): “-Não é preciso descontar nada. Está bem, esqueça, afinal não podemos trabalhar junto [sic.] sem ter que comunicar-nos uma com a outra, mas tome jeito e deixe de ser tão estabanada e sem educação…”

quarta-feira, 8 de abril de 2009

water


"that blue eyed girl / she said, 'no more' / & that blue eye girl / became blue eyed whore / [...] down by the water / i took her hand / [...] little fish / big fish / swimming in the water" (pj harvey)

terça-feira, 7 de abril de 2009

para estellita (corrigido)



apelo palestino


"A LAAD 2009 – Latin America Aero & Defence acontecerá entre 14 e 17 de abril, no Riocentro, Rio de Janeiro. A feira irá receber e promover os mais renomados comerciantes e produtores de guerra, repressão, tortura e massacres de todo o mundo. Destacam-se entre eles os criminosos de guerra israelenses. Praticamente todas as fábricas militares privadas e estatais de Israel estarão representadas, bem como o Ministro da Defesa daquele país.

Entre as empresas convidadas estão Elbit Systems Group, Rafael, Israel Military Industries Ltd. (IMI) e a Israel Weapon Industries Ltd. (IWI) Essas firmas são fornecedores-chave para as guerras contra os palestinos que se arrastam por décadas, beneficiando-se não apenas do consumo de armas e munição pelas Forças Armadas israelenses, como também do uso da Cisjordânia e da Faixa de Gaza como área de testes dos novos equipamentos e tecnologia militares.

·
IMI é uma empresa estatal que produz chapas blindadas para a escavadeira Caterpillar D-9, usada quase exclusivamente para a demolição de lares palestinos;

·
IWI é o principal produtor e fornecedor de armas leves para as forças de infantaria da Ocupação;

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Rafael, outra empresa estatal, é um fornecedor-chave de mísseis, sistemas de mira e tecnologia para os tanques da Ocupação;

·
Elbit Systems é uma das maiores empresas privadas de tecnologia militar de Israel, responsável pelos trechos do Muro do Apartheid que circundam Jerusalém e o assentamento Ariel, bem como pelo suprimento das Forças Armadas da Ocupação com equipamentos diversos, inclusive drones (Veículos Aéreos Não-Tripulados - UAVs) .

Receber essas empresas e o ministério da guerra israelense torna-se ainda mais ultrajante após os massacres ocorridos em Gaza, ocasião em que esses atores dirigiram e apoiaram o esforço de guerra. Drones fornecidos por essas empresas, por exemplo, estiveram diretamente envolvidos no assassinato de aproximadamente 100 pessoas nos últimos ataques. Para citar apenas uma das atrocidades perpetradas em Gaza, no dia 3 de janeiro último um drone lançou um míssel contra palestinos que oravam na mesquita Martyr Ibrahim AL-Magadma, em Jabaliya, no Norte de Gaza, matando 15 e ferindo 30 pessoas. Foram mortos mais de 1450 palestinos nessa última ofensiva, e é intolerável que os criminosos de guerra possam lucrar no Brasil.

A feira de comércio como um todo, trazendo aliados dessa indústria como a Blackwater (EUA) e dezenas de empresas que prosperam com a guerra, o conflito e a ocupação sem fim, não deveria realizar-se no Brasil. De todo modo, nós do Comitê Nacional Palestino de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BNC) pedimos ao povo brasileiro e seus representantes governamentais que impeçam pelo menos a participação do Ministro da Defesa e da indústria bélica de Israel.

É URGENTE um embargo total à indústria bélica israelense! Isso pode pôr fim à mais longa ocupação em vigor no mundo, bem como à limpeza étnica do povo palestino."


“Alguma vez te passou pela cabeça, um instante curto que fosse, suspender o tampo do cesto de roupas no banheiro? Alguma vez te ocorreu afundar as mãos precárias e trazer cada peça ali jogada?”- pergunta-se, a certa altura, o protagonista do romance Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. A imagem do cesto de roupas sujas que revela os segredos, a intimidade da família é sugestiva para imaginar o lugar que certos autores ocupam na literatura de seus países. Digamos, por exemplo, que a literatura brasileira fosse uma casa. Na sala de jantar, nos cômodos principais, toparíamos com um bom número de autores acima de qualquer suspeita, presença segura em todo cânone: Machado, Graciliano, Rosa, Cecília, Clarice, os mais destacados poetas da geração pós-45 etc. Noutros cômodos franqueados à visitação (a casa, suburbana, periférica, não é pequena), outros tantos escritores se aglomerariam, alguns indo e vindo, dentre eles até alguns irremediáveis ‘marginais’.

E se, saturados por um instante dos deleites proporcionados pelos inquilinos mais ilustres, ou simplesmente levados pela curiosidade, resolvêssemos escapulir em direção à cozinha, à área de serviço, aos exíguos cômodos dos subalternos – banheiros inclusive? O que encontraríamos? Decerto um número não menor de escritores e escritoras, alguns autores de vasta obra apreciada por imensa legião de leitores apaixonados, mas ausentes das conversações da ala principal (excetuando-se algum comentário jocoso ou uma rara condescendência). Dentre eles certamente se destacaria Cassandra Rios. Pseudônimo de Odete Rios, paulistana do bairro de Perdizes, filha de espanhóis, Cassandra publica seu primeiro livro, Volúpia do pecado, em 1948, com apenas 16 anos (na época, Nélson Rodrigues assinava como Suzana Flag suas histórias de folhetim). No centro da trama, a descoberta do amor e do desejo sexual entre duas mulheres, temática que se faria presente em boa parte dos mais de 30 títulos que iriam compor sua obra. Na década de 1960, Cassandra bateria recordes de vendas, chegando à marca, pelo que consta, de 300.000 exemplares vendidos. Era, pois, na atmosfera de um Brasil conservador, repressor (na vigência do infame AI-5 a autora teria muitos de seus livros censurados), hipócrita em relação a quase tudo relacionado a sexo, que os livros de Cassandra –com sua linguagem simples e capas atraentes, quase sempre retratando uma mulher seminua- circulavam, consumidos por leitores ávidos, disseminando-se feito um vírus, como que promovendo um permanente carnaval, subterrâneo e silencioso, na intimidade do país cinzento. Nessa espécie de freqüência AM da nossa literatura, que deliciava secretárias, empregadas domésticas, donas de casa, operários, comerciários, toda uma legião de brasileiros beneficiados por campanhas massivas de alfabetização (e muita gente douta que talvez preferisse não se identificar…), vibravam também os escritos de Adelaide Carraro (Eu e o governador, Os padres também amam), que dividiria com Cassandra o posto de grande pornógrafa brasileira – colhendo os louros e óbices correspondentes a essa distinção.

Em Eu sou uma lésbica –publicado como folhetim na saudosa revista Status, entre janeiro e abril de 1980- o leitor encontrará a crença apaixonada no poder revelador da palavra que caracteriza a literatura de Cassandra. Some-se a ela uma objetividade tomada de empréstimo do flagrante jornalístico (nela, mais que nas aventuras pela teoria psicanalítica, reside a força expressiva da autora) e um interesse em lançar luz sobre tabus, e pode-se ter uma idéia do porquê de Cassandra haver envolvido e deleitado tantos leitores através dos anos. Pode-se gostar ou não dessa história da iniciação amorosa da pequena Flávia com Dona Kênia (ou, mais exatamente, com os seios e os pés de Kênia), do amadurecimento afetivo de Flávia, hesitante na busca de sua identidade homossexual… mas dificilmente, uma vez iniciada a leitura, o leitor ou a leitora poderá abandoná-la antes do desfecho trágico. Assim é a literatura de Cassandra, prenhe (volto à lavoura de Raduan), “da energia encaracolada e reprimida do mais meigo cabelo do púbis”.

todos a gênova!


Em Gênova, a diversidade humana, social, salta aos olhos no primeiro passeio da estação ao porto. Não mais aquela homogeneidade que encontro em Turim e sobretudo em Veneza, onde os estrangeiros mais visíveis, mesmo aqueles do Hemisfério Sul, são em geral oriundos das classes privilegiadas.
Aqui a chapa esquenta, como talvez em todo grande porto.
Noto a má-vontade do casal vendedor de kebab (mas eu não devia ter pedido cerveja!); a custo me comunico com o bengalês que administra o café Internet, seu italiano é pior que o meu, improvisado e tentativo.
Anotando essas coisas sou interrompido por uma menina loira de olhos azuis, magra e muito branca, que me pede esmola com a expressão constrita que lhe impõe o oficio. Deposito-lhe 20 centavos nas mãos em concha, e ela já vai longe quando me ocorre confirmar se é italiana. Comunque, já está feito o estrago em minha incipiente sociologia.

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Discreto charme do ‘français de base’. No convés de uma caravela, a turista francesa observa as instalações para prisioneiros, onde se destaca – adereço de gosto duvidoso – um esqueleto algemado, atado a um barril. E comenta: “-Naquele tempo eles sabiam fazer as coisas…”

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Turim foi palco das olimpíadas de inverno no ano passado [2006], e recebeu, segundo contam, injeções consideráveis de dinheiro público, o que explicaria o ótimo estado de conservação das praças, monumentos, de tudo o que é visível ao turista. Gênova não recebe há tempos eventos do tipo, e o dono do quiosque onde parei para uma spina reclamava que, nos últimos anos, a cidade não recebeu nem mesmo inverno digno do nome.

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Gênova respira política, ou em todo caso as tensões políticas saltam aos olhos (e ouvidos) do visitante. Cartazes sobrepostos nos muros mobilizam organizações proletárias e outros agrupamentos de resistência. Uma militante predica a dois africanos sobre o direito ao aborto e outros temas relativos à defesa da mulher. Ao que um deles reclama: “-Só da mulher!?”
As reivindicações não são, no entanto, unânimes. Uma pichação num muro próximo à estação Príncipe diz apenas: Sex.

É fácil sentir por que foi aqui, e não alhures, que se deu o primeiro assassinato de um militante anti-capitalismo monopolista (vá lá o pleonasmo…).

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Descendo uma escadaria suja que une a parte alta da cidade à área portuária, e vendo ao fundo o mar, os barcos atracados, penso em Salvador da Bahia. Subindo uma ruela próxima à estação ferroviária, tenho a confirmação: a Baixa do Sapateiro!

Várias lojas de produtos chineses, pequenos cafés que exalam salsa. Uma loja estreita e comprida oferece ligações telefônicas para: Honduras, Samoa, Índia, Madagascar, Senegal, Indonésia, Filipinas, Ucrânia, Equador, Peru, Albânia, Camarões, Bolívia, Sri Lanka, Marrocos, Nigéria, Romênia e Tunísia. A preços competitivos.

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Concisão, sobriedade, informação relevante no jornalismo italiano: um editorial do Sicília Libertaria, publicação anarquista, sobre os ganhos espantosos da Igreja Católica Romana S/A com o galardão da isenção fiscal.

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No aquário de Gênova: como é possível aprender balé sem jamais ter visto uma foca nadando?

O caminho que conduz os visitantes de maravilha em maravilha passa obrigatoriamente por uma loja recheada de souvenires, e logo outra. Aperfeiçoamento ainda inédito em museus de arte, tanto quanto eu saiba.

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Roteiro para um pesadelo: cidadãos de países amazônicos e da ilha de Madagascar são aprisionados e torturados por ecologistas europeus enfurecidos, aos gritos de “Assassinos da biodiversidade!” e “Basta de maus-tratos aos animais!!”, enquanto uma turista francesa sessentona se masturba e atinge o orgasmo.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

um retrato / genoveva



Tem 25, 26 anos, mora com a mãe num pequeno apartamento de dois quartos na Saúde (Rio de Janeiro). A mãe é costureira mas trabalha cada vez menos, em razão de persistentes problemas de visão, relacionados à hipertensão. Tem um irmão mais velho já casado, que não vê com frequência. O pai, comerciante, falecido há uns 4, 5 anos, deixou para a família o apartamento e alguns bens, como um armarinho no Centro, o que lhes assegura a sobrevivência.

Genovena é virgem e teve poucos casos amorosos, o que se deve em boa medida à sua aparência física. Em boa medida porque, verdade seja dita, já lhe apareceram alguns pretendentes, mas ela os rechaçou. Seus sonhos amorosos são povoados exclusivamente por estrelas da TV e do cinema, inatingíveis, como Marcos Palmeira, Reynaldo Gianechini e George Clooney – o que evidentemente não lhe facilita a vida. Genoveva evita pensar em sua própria feiúra (é vaidosa à sua maneira, às vezes acha-se bonita), mas a consciência dela –inevitável- permeia sua vida, influenciando seus hábitos e condicionando, de certa forma, sua relação com os homens: no fundo desconfia da sinceridade de quem dela se aproxima, teme ser usada ou ridicularizada. Assim, evita festas e raramente vai à praia, embora adore o mar.

A morte do pai, a fragilidade da mãe, a consciência de que não há tantas portas abertas para ela como para as moças que Deus abençoou com o dom da beleza… tudo isso contribuiu para a dedicação de Genoveva aos estudos e ao trabalho. Fez todo o colegial em escola pública; não sendo aluna brilhante, sempre teve, contudo, boas notas. Formou-se em Farmácia em uma universidade privada, num curso noturno, trabalhando como caixa durante o dia. Com isso conseguiu um emprego melhor noutra farmácia, onde chegou ao cargo de gerente em tempo relativamente curto. Genoveva tem boa ortografia, sabe alguma coisa de inglês e de informática; seu sonho é ser dona de sua própria farmácia. Gosta de música romântica, brasileira ou norte-americana, detesta filmes de ação. É católica, mas não frequenta igreja. Insegura em diversas circunstâncias, desajeitada até, é desenvolta detrás do balcão, entre os medicamentos: ali ela está em seu meio.

Genovena não gosta de seu nome, prefere ser chamada de Geni (é provável que desconheça a canção de Chico Buarque).

crime na cama


Já no seu nascedouro, a narrativa policial ligava-se indissociavelmente ao prazer. Criando um gênero literário, Poe criava um novo tipo de leitor (o leitor desconfiado) e um novo personagem, o detetive de hábitos extravagantes, noturno e peripatético (o seu se chamará Dupin), dotado de capacidade analítica tão fora do comum que lhe permite resolver – por gosto, não por ofício – o mistério mais intrincado antes de mesmo de visitar a cena do crime. Comparada a ele, a polícia com seu apego ao senso comum e seu afã de descobrir o que se esconde (que a torna muitas vezes cega para o que se oferta na superfície) parecerá sempre irremediavelmente obtusa. O que importa ressaltar aqui, no entanto, é o prazer intenso que esse homem – aliás, avesso ou indiferente aos chamados da carne – desfruta no embate entre o mistério e seu intelecto privilegiado.
Outro exemplo desse prazer reflexivo encontraremos ao acompanhar um Dupin brasileiro, paulistano – o velho Leite de Luiz Lopes Coelho – na resolução de um mistério. De início, há o desconforto, inquietação de fera faminta:

“Entre desassossegos esperava o velho Leite a última informação para fechar a cadeia de raciocínios sobre o mistério do Teatro Brasília. Como sempre, agitado, falando sozinho, e fazendo acompanhar as palavras inaudíveis com gestos e meneios de cabeça. Assim se comporta enquanto não sitia o mistério, enquanto não o desvenda.”

E logo:

“Sentou-se o velho Leite. De repente seus gestos acalmaram-se, deixou de mover os lábios no solilóquio nervoso, apaziguou-se, como se um estranho sortilégio o tivesse tocado. Galeno o conhecia muito bem: o mistério estava no fim.” (COELHO: 1962: 32-33)

Roland Barthes nos oferece algumas caracterizações daquilo que denomina texto de prazer, “aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura” (BARTHES: x: 20): seriam textos de prazer aqueles textos marcados pela brevidade, nunca frígidos, sempre coquetes, isto é, ciosos do objetivo de seduzir o leitor, e portanto de jamais fatigá-lo, jamais oferecer-lhe a desculpa para abandonar a leitura. O autor traça ainda uma linha, confessadamente pouco nítida, entre o texto do prazer e texto do desejo. Assim, a páginas tantas, afirma que os livros “[…] ditos ‘eróticos’ […] representam menos a cena erótica do que sua expectativa, sua preparação, sua escalada; é nisso que são ‘excitantes’; e, quando a cena chega, há naturalmente decepção, deflação” (IDEM: ibidem: 68). Seriam estes, pois, antes textos do desejo que do prazer. Noutro momento, Barthes aproxima o suspense narrativo do strip-tease, argumentando que numa e noutra arte, “[…] toda a excitação se refugia na esperança de ver o sexo (sonho de colegial) ou de conhecer o fim da história (satisfação romanesca)” (IDEM: ibidem: 16).
Qual definição se aplicaria com maior propriedade ao gênero criado por Poe? Não se pretende aqui fechar questão a esse respeito. Mas podemos desde já propor como hipóteses, em primeiro lugar, que a narrativa policial engendra não apenas a representação de um prazer (o gozo intelectual do detetive super-dotado), mas ela mesma se empenha na mobilização de um prazer, aquele do leitor cismado que é preciso seduzir; em segundo lugar, que na sua forma clássica (aquela de Poe, de Conan Doyle, de Gaboriau), seu modus operandi terá correspondido àquele do strip-tease, em que o grande deleite provém da revelação final (do clímax, portanto), enquanto, nas suas desconstruções e reconstruções contemporâneas – incluídas aí as recentes experiências brasileiras –, essa narrativa terá se aproximado sobretudo da novela erótica, na medida em que o ritual de apresentação da trama, do enigma, a sua complexificação, as sucessivas alternâncias entre tensão e relaxamento… tudo isso é mais valorizado que a consumação final. O que, em todo caso, importa reter aqui não é a distinção entre a narrativa policial clássica e a contemporânea (distinção que, por sinal, começaria a ser problematizava se salientássemos, no strip-tease, o desnudamento e não a revelação final…), mas sim o caráter marcadamente erótico deste gênero literário, independente do maior ou menor grau de pudor desses textos no que tange às coisas do sexo.
A investigação do erótico nesse gênero marcado pela representação da morte nos levaria ainda por outras vias, relacionadas a aspectos da recepção e da produção desses textos. Assim, salientaríamos os aspectos de clandestinidade e de descompromisso que habitualmente pontuam o relacionamento do leitor com esses textos. Ora, não obstante a valorização crítica de que o gênero se terá beneficiado ao longo do tempo – em boa parte estimulada pelo fato de autores acima de qualquer suspeita como Poe e Borges e Eco o haverem freqüentado –, a narrativa policial figura ainda como um tipo de leitura que o leitor refinado acolhe como amante, não como esposa . Uma amante, é verdade, mais facilmente apresentável nos círculos sociais que a ficção-científica ou a pornografia, no entanto sempre amante, isto é, companheira anônima de deleites fugazes. Na França, as novelas policiais ganharam a classificação de leitura de gare, isto é, leitura de estação de trem, aquela que nos entretém durante uma espera, uma baldeação; nos pragmáticos EUA, atentou-se para o baixo custo das histórias de detetive (fator decisivo para sua popularização), e elas ali foram batizadas como dime -- a décima parte do dólar; os italianos, por sua vez, ressaltaram-lhe o vestuário conspícuo (eram amarelas as revistas italianas de crime e mistério), e a chamaram giallo.
Ofertam seus atributos aos transeuntes, por um preço acessível, e se distinguem pelo vestuário… faltaria muito para associarmos essas narrativas populares às prostitutas de rua?
Depreende-se do exposto acima que o leitor contumaz da narrativa policial busca nela tão-somente o prazer, a evasão: não o move, por exemplo, o objetivo de aprimorar sua ‘bagagem cultural’ (para isso há os grandes clássicos, o cânone literário, as experimentações vanguardistas), ou o de se aprofundar em algum grande tema da atualidade (o Oriente Médio, o genoma, o aquecimento global). De outra parte, ao menos no caso brasileiro, a produção de novelas policiais se afigura um trabalho de amador, de diletante: é raro o caso de autor profissional, ou em todo caso especializado, como ocorre na França ou no mundo anglo-saxão. Na orelha de um de seus livros, o precursor Luiz Lopes Coelho é apresentado como “cultor bissexto das belas-letras”, e dele se sabe que esteve à frente de instituições como a Cinemateca Brasileira e o MASP.
A leva de novelas policiais brasileiras que surge na década de 1990 é marcada em parte pela incursão eventual de celebridades (apresentadores de TV, produtores musicais), mas sobretudo pela produção mais ou menos regular de autores já estabelecidos e, se podemos dizê-lo, realizados em suas respectivas profissões, embora não necessariamente conhecidos do grande público. Assim temos, por exemplo, o músico Tony Belloto (o mais jovem da lista); o sociólogo Reginaldo Prandi ; o psicanalista García-Rosa; o delegado de polícia aposentado Joaquim Nogueira; o diplomata Georges Lamazière. Nessa pequena sociologia da novela policial brasileira que tentamos esboçar, arriscaríamos dizer que, de comum entre esses autores (de biografias e estilos mais ou menos díspares entre si) haveria o desejo, realizando-se na maturidade, de enveredar pela literatura através de um gênero considerado ‘menor’, e de incipiente desenvolvimento no país, gênero esse de que são leitores devotos. Tudo isso, em suma – a situação de conforto material, de realização profissional, a opção por um gênero freqüentado como hobby desde a juventude e desabitado pelas ‘vacas sagradas’ do campo literário – falando-nos de uma produção literária que se configura como conquista do desejo, e que se realiza com apreciável grau de liberdade.

No início, caracterizamos o detetive como uma criatura avessa aos chamados da carne, um puro intelecto. Aliás, de Monsieur Dupin desconhecemos qualquer característica física, tratar-se-ia de uma espécie de inteligência descarnada. E os crimes que investiga tampouco se relacionam a apelos incontidos do baixo ventre: a respeito de Maria Roget, por exemplo, cujo cadáver é encontrado boiando num rio, com o vestido “[…] bastante rasgado e aliás em grande desordem”, sabemos que “o laudo médico afirmou com convicção o caráter virtuoso da morta” (POE: 1965 [1842]: 98, grifo nosso). Com o thriller norte-americano, nos anos 1940, o chamado do sexo fará sua entrada no gênero, caracterizada pela figura da mulher fatal, sedutora, de curvas perigosas, muitas vezes cliente do detetive, agora profissional. Segundo os mandamentos clássicos do gênero, no entanto, o detetive – cujo caráter jamais ocultará certo traço de misoginia – não se deixará envolver senão por aventuras amorosas fortuitas, mantendo-se alheio a questões conjugais e devotado ao combate ao crime .
A novela policial brasileira contemporânea, refletindo uma época em que a ‘onipotência do pensamento’ é posta em xeque e um contexto social em que a ‘restauração da ordem’ por parte do representante da lei é amplamente desacreditada, oferecerá novas representações do protagonista investigador, mais críveis por parte do leitor, mais ‘realistas’ por assim dizer. Assim, o investigador, que na passagem pelo noir já se despira de ranços aristocráticos para se tornar um assalariado, será, em nosso contexto, um policial de classe-média amoroso de seu ofício, procurando pautar-se pela honestidade num ambiente hostil (o Espinoza de Garcia-Roza, o Venício de Nogueira, o delegado Paixão de Prandi); um escritor casualmente envolvido numa trama que precisa deslindar (o Chico Motta de Lamazière); um coadjuvante na resolução dos mistérios que investiga (o detetive Bellini de Bellotto). Todos eles ‘homens comuns’, sujeitos ao erro, ao medo e à indecisão, fisicamente identificáveis, de quem conhecemos os gostos culinários… e sexuais.

o dito

Israel, Palestina e o fim da hora contemplativa


A proximidade das eleições israelenses, em contexto no qual crescia o Likud de Benjamin Netanyahu, avançando sobre o governista Kadima (este, crispado de disputas internas, e liderado por um primeiro-ministro, Ehud Olmert, ferido por denúncias de corrupção), a lembrança ainda viva da fracassada campanha contra o Hizbollah no Líbano em 2006 e o apagar das luzes do governo Bush (trazendo incerteza para os fundamentalistas de Tel Aviv)... tudo isso cobrou um alto preço de milhares de palestinos, como o médico Izz el-Deen Abu al-Aish, que perdeu três filhas e uma sobrinha quando sua casa em Gaza foi alvejada por um tanque de Israel, no dia 16 de janeiro último – drama que a TV israelense não pôde censurar.

A carnificina, iniciada em 27 de dezembro de 2008 e encerrada oficialmente no 18 de janeiro seguinte, traduziu-se na morte de mais de 1300 palestinos (civis em sua esmagadora maioria) e pouco mais de uma dezena de israelenses, quase todos militares. Noticia-se, ainda, que resultaram feridos pelo menos cinco mil palestinos.
Face ao eloquente registro de vidas interrompidas e vidas destroçadas; de infra-estrutura arruinada; de destruição de mantimentos enviados pela ajuda humanitária; de ataques a funcionários e a instalações das Nações Unidas e da Cruz Vermelha; evidências de uso de armamentos proscritos (de fabricação estadunidense) como o fósforo branco e outras violações dos acordos de Genebra (como os ataques deliberados a civis indefesos, de que seria exemplo a matança ocorrida no bairro de Zeitun em 4 de janeiro), é difícil apontar um limite que não tenha sido transgredido pelo Estado de Israel nessa ofensiva militar genocida que a imprensa tradicional houve por bem chamar de ‘guerra’. Mesmo o imaginário limite do cinismo foi ultrapassado pela então ministra das Relações Exteriores e candidata a premiê, Tzivi Livni, que sequer esperou esfriarem os cadáveres para declarar: “Este não é mais um conflito entre palestinos e israelenses ou entre árabes e judeus, mas um conflito entre moderados e extremistas”.

Trata-se de cenário em que até os inefáveis comentaristas da reacionária grande imprensa brasileira, embora secundando, com ares doutos, que o tema consiste num ‘pântano para os neófitos’, se vêem obrigados a admitir que as costumeiras comparações entre o Estado de Israel e a Alemanha nazista adquirem inegável verossimilhança.

O que é triste, é espantoso, e é deplorável.

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domingo, 5 de abril de 2009

sono p&b

arruda no t-bone

Os moradores do DF podem dormir sossegados, certos de que o montante de seus impostos destinado à segurança pública está sendo investido de modo irrepreensível, com agudo senso de prioridade.
Ontem (2/4), por volta das 20h, nada menos que 4 viaturas da polícia do Arruda – incluídos 2 camburões – ocupavam a SCLN 312 para impedir que o bar vizinho ao Açougue Cultural T-Bone colocasse mesas no asfalto para o público interessado em usufruir de uma noite de música e literatura. Registre-se que, àquela hora, o comércio da quadra achava-se quase todo fechado e o trânsito fluía normalmente; as ignominiosas mesas e cadeiras ocupavam não mais que 6 vagas de estacionamento. No total, quase uma dezena de viaturas dispensaram atenção ao evento. Pouco após as 21h, os homens da lei dispersaram-se rapidamente, talvez afugentados pela aproximação de uma equipe de TV. Mas, para tristeza dos que ouviam a fala do premiado escritor catarinense Cristóvão Tezza e se deliciavam com a música de Manassés de Souza, voltaram às 22:30h para dar fim à festa. O cardápio de atrações contou ainda com visitas das viaturas 1813 e 1515, bem como da viatura 1846, do BOPE (!). Às 23h40, quando já não havia música ou literatura ou mesas ao ar livre, ainda aportou no local a viatura 1468, para averiguar não se sabe o quê.

O crime organizado do DF seguramente só tem a agradecer ao governador Arruda por mais esta noite de trabalho imperturbado. Músicos e escritores, infelizmente, não podem dizer o mesmo.